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MINHA MULHER NÃO É GALINHA

Seis de dezembro, sábado, 16 horas, resolvi, depois da sesta, dar um giro. Meti-me numa bermuda, vesti uma camisa “vem cá meu puto” e  saí por aí, passos lentos, na expectativa de encontrar com a turma, com um único intuito, qual seja o de falar mal de todos, preferencialmente dos políticos, o que, reconheço, é uma perda de tempo. Não andei muito, duzentos passos talvez, e já encontrei o primeiro integrante da corriola, o Responsa cuja única ocupação é ser marido da professora. Abro aqui parêntese para dizer  que um amigo comum certa vez aconselhou Responsa a arranjar uma ocupação, acrescentando que o trabalho dignifica o homem. Responsa  disse que agradecia o conselho, pois o trabalho poderia até, realmente, dignificar o homem, mas tinha a desvantagem de só enriquecer o patrão. Fecho parêntese.
Depois de alguns minutos chegamos, eu e o Responsa, ao local de costume, o Restaurante São Pedro, na Praia do Suá, onde já encontramos o Arroz e o Jajá.
--Mas outra vez ? Você, Arroz, outra vez com a cara toda amarrotada ? - perguntei-lhe eu, entre surpreso e assustado.
--C’est la vie – respondeu-me ele, num francês de fazer inveja a qualquer “chaufer” de táxi com “ponto” em aeroporto.
A cara do Arroz estava toda machucada, com marcas de contundência e lanhos produzidos por instrumento cortante. Uma lástima.
--Desta vez não vai me dizer que foi cacófato? – disse-lhe eu.
--Não, não foi. Desta vez foi em defesa da minha santa esposa, meu primeiro, único e eterno amor.
--Ela também foi agredida, espancada ?
--Muito pior, porque a agressão foi moral.
--Pode contar-nos, sem constrangimento? – arrisquei.
--Posso. Como vocês sabem, todos os sábados vou à feira em Santa Lúcia. Hoje, bem cedo, lá chegamos. A minha santa esposa logo se dirigiu à banca do Gordo para comprar  galinha caipira, mas as penosas eram muito grandes. Ela então não comprou. Fomos em frente e quando voltávamos, cerca de uma hora depois, o Gordo se dirigiu à minha consorte e lhe perguntou se havia comprado a galinha. Obtendo resposta negativa, o Gordo disse que havia encontrado uma galinha, de pouco peso, que era a cara dela. Ora, chamou a minha Santa de Galinha. Nem pensei, dei-lhe um certeiro catiripapo no comedor de alfafa. Imediatamente, com muita “catiguria” apliquei-lhe um rabo de arraia, e, quase que concomitantemente, uma chave de rim (se ele tem dois, foi chave de rins). Com as mãos, peguei o pescoço dele, mas quando ia dar o golpe fatal, recebi uma pancada na cabeça e quase desfaleci, mas a raiva não permitiu. Quando me refiz - o que aconteceu numa fração de segundos – e já ia aplicar outro golpe, percebi que cinco marmanjos, enfurecidos, vinham ao meu encontro, todos parecidos com o Gordo. Eram seus irmãos, pensei.
--Mas que situação ! Você então lutou com todos ? – perguntei.
--Bem, naquele momento, eu, com a rapidez de um relâmpago, formulava estratégias a empregar, quando ouvi a voz da minha amada: - Arroz, cabeça! Cabeça – pensei eu - que cabeça que nada. O negócio aqui é perna. Me mandei, quase arrastando a minha mulher. Na primeira esquina, deixei minha esposa na casa de um irmão e corri, o mais que pude, em direção contrária, para driblar os meus perseguidores. Tiros e mais tiros atrás de mim, mas eu os enganei, entrei num labirinto e, ao invés de ir para a minha casa, fui para a de minha mãe. Muito cansado e apavorado, entrei correndo na casa e minha mãe foi logo perguntando: - filho, ouvi tiros, você está ferido ? – Não sei, mãe, mas se sangue fede eu tô ferido.
--Você passou por maus momentos, mas, felizmente, se salvou, indo para a casa de sua mãe.
--É, mas não era o meu dia. À noitinha, quando resolvi ir para casa, fui abordado por um sargento da polícia militar. Alegou o policial que houve um assalto numa farmácia do bairro. Mas, - disse-lhe eu – o que é que eu tenho com isso. Por acaso eu tenho cara de ladrão?
-- O problema não é esse – rosnou o policial. O problema é que ladrão também tem cara de gente.
--Aí você foi em cana ? – perguntamos ao mesmo tempo.
--Não sem antes reagir. Tentei embromar. Eu me empertiguei e perguntei, encarando o sargento com a dignidade de um fidalgo: - o senhor, por acaso, sabe com quem está falando? Não - disse o sargento - não sei. Então, eu, com mais dignidade ainda, teso igual um soldado na frente de um oficial, disse-lhe: - eu sou cunhado da amante do cabo da polícia militar, comandante do destacamento de Laranja da Terra. Não deu nem tempo de pensar na reação do sargento. Quando abri os olhos para encarar o militar, as algemas já estavam fechadas em torno dos meus punhos.
levy pereira de menezes
Enviado por levy pereira de menezes em 11/11/2006
Código do texto: T288623
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Sobre o autor
levy pereira de menezes
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 82 anos
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