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JOVEM PAIXÃO

— Papai, eu lhe sou grato pelo conselho. Eu sei, eu compreendo perfeitamente o que o senhor quer dizer. Entendo a sua preocupação, mas o amor fala mais alto do que a razão. Eu estou deveras apaixonado pela Neusinha. Não vejo por que eu não possa me casar com ela simplesmente porque entre nós há uma diferença social e econômica.
— Meu filho, eu o entendo, mas possivelmente você esteja enganado. O fato de ela tê-lo cumprimentado com um sorriso, alegre, expansiva, por mais de uma vez, na biblioteca da Universidade, não significa dizer que ela queira namorá-lo.
Esse era um diálogo entre pai e filho, repetido muitas vezes, mas Gustavo, teimoso igual à mãe, era inarredável nas suas convicções.
— Pai, eu sou jovem e, portanto, inexperiente, principalmente no que toca ao amor, mas eu li nos olhos dela o interesse por mim. Portanto, eu vou em frente, até que ela um dia me diga, olhos nos olhos, que eu esteja enganado.
Gustavo e Neusinha estudavam na mesma faculdade, mas em períodos diferentes, já que ele ingressara no curso um ano antes. Cursavam direito.
 Neuzinha chegava à faculdade acompanhada de um batalhão de seguranças. Até no interior da faculdade era vigiada de longe. Tal situação dificultava um encontro dos dois. Mas Gustavo tinha convictas esperanças de que, num futuro bem próximo, Neusinha estaria nos seus braços.
Ao chegar da escola, Gustavo encontra no assoalho da sala, colocado por baixo da porta, um envelope a ele endereçado. Afoitamente pega o envelope e, mais que depressa, percebe que a remetente é a Neusinha. Corre para o quarto, se joga na cama, rasga com sofreguidão o envelope e passa a ler a correspondência, em voz alta mas trêmula: “Em 10/01/2005. Gustavo, meu querido. O meu tempo é pouco, mas aproveito-o para dizer-lhe que tenho pensado muito em você.  Penso todos os dias na possibilidade de vê-lo mais de perto, de sentir o seu pulsar, de tocar-lhe o rosto bem delineado, enfim, embriagar-me com o sorriso que emana dos seus olhos encantadores. No sábado estarei na fazenda do meu tio Carlos, lá na Serra. Quem sabe não teríamos a oportunidade de um encontro ? Reflita sobre isso, Neuza.
Não precisa nem dizer que Gustavo leu incontáveis vezes o bilhete, da mesma forma  que beijou o papel  incessantemente.
Diminuída a euforia, Gustavo saiu à procura do pai. Passou em todos os lugares onde haveria possibilidade de encontrá-lo, mas em vão. Afinal seu pai era seu grande confidente e conselheiro. Não teve outra alternativa senão esperar pelo seu pai à noite, após o trabalho cotidiano.
-- Não, meu filho, agora não, permita-me tomar um banho primeiro – disse o pai a Gustavo. Preciso tirar a inhaca que exala do meu corpo, depois de um dia incansável de trabalho.
À medida que falava, caminhava em direção ao banheiro. Enquanto aguardava o pai, Gustavo mais uma vez lia o bilhete, apesar de já ter gravado o seu conteúdo.
Quando o pai irrompe na sala, o filho afoitamente se dirige a ele com o bilhete na mão, pedindo que o lesse e o fazia de forma quase suplicante.
O “velho” procurou uma cadeira, sentou junto à mesa e cruzou as pernas, não sem antes dar uma olhada furtiva para o filho. Leu o bilhete. Depois de algumas reflexões, chamou a atenção do filho para o fato de que os ricos e poderosos, na sua maioria, desprezam os pobres, não o suportam, e é certo que o pai da Neusinha se valerá de todos os recursos para impedir esse namoro. Que poderia, inclusive, usar a força bruta contra ele.
-- Tudo bem, pai – disse Gustavo - mas eu estou determinado a enfrentá-lo e vou fazê-lo.
Silêncio na sala. Um pai preocupado com as conseqüências que poderão advir da atitude do filho e este determinado a colimar a pretensão.
Um fato novo surgiu, pois Gustavo passou, também, a ter os passos vigiados por homens do pai de Neusinha. Foi, então, aconselhado pelo pai a não ir à fazenda do tio da amada.
Férias de julho. Neusinha, a mando do pai, vai passar as férias em Paris. Ela, entretanto, antes de viajar, manda, por intermédio de uma colega, dinheiro suficiente para que Gustavo viajasse para encontrá-la na França.
A tática deu certo, pois o pai de Neusinha estava consciente de que Gustavo não saberia da viagem, mas mesmo que  soubesse não tinha condições financeiras para empreender uma viagem a Paris. Ledo engano. Quatro dias depois Gustavo estava em Paris nos braços de sua amada.
-- Enfrentarei tudo e todos – disse Neusinha, com segurança – para ser sua mulher. Amo o meu pai e lhe quero muito bem, mas o direito de escolher com quem devo me casar é meu e tenho o apoio da minha mãe que, inclusive, tem raízes pobres, como você. Pobreza não é defeito é um estado.
-- Eu a amo loucamente e, assim como você, estou disposto a enfrentar o mundo para tê-la como minha esposa – falou Gustavo, olhando nos olhos da amada.
-- Já sei – recomeçou a falar Neusinha – como procedermos. Nas próximas férias meu pai me mandará para algum lugar no exterior. Agiremos da mesma forma que agora e escolheremos um lugar para o nosso casamento, já que  somos maiores civilmente.
Dito e feito. Da Argentina foram ao Uruguai e lá, depois  de procurarem as autoridades locais, marcaram para o  dia seguinte a celebração do casamento.
Gustavo tomou aquele banho, perfumou-se, vestiu-se adequadamente e quando pegou um telefone para pedir um táxi, recebeu alguns tapinhas nas costas, dados pela sua mãe. E à medida que tocava nas suas costas, dizia: “acorda, meu filho, está na hora de você ir para a faculdade”.
levy pereira de menezes
Enviado por levy pereira de menezes em 12/11/2006
Código do texto: T289276
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Sobre o autor
levy pereira de menezes
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 82 anos
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