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O FARMACÊUTICO (?)

Cojá, potiguar de nascença e capixaba por opção, depois de residir em várias cidades capixabas, acabou por radicar-se numa cidadezinha do extremo norte do Espírito Santo, bem próxima da divisa com a Bahia. Apesar de muito esperto, só freqüentou escola durante dois anos, mas gabava-se de saber as quatro operações, além de conhecer regra de três. Era metido a entender de farmácia, tanto que se estabeleceu com uma. Como era muito prestativo, conseguiu inúmeros compadres. Receitava, aplicava injeções, fazia pequenas cirurgias, media pressão, enfim agia como se fosse farmacêutico formado, como se fosse médico. Depois do Juiz de Direito, do Promotor de Justiça, do Coletor Federal e do Prefeito, nenhuma dúvida havia de que Cojá era o mais preparado da cidade. Não obstante tratar-se de pessoa séria, bem intencionada, teve problemas com a Justiça local, acusado de exercício ilegal da medicina.
Tudo começou quando um compadre seu, o Justino, homem respeitado na região pela sua retidão de comportamento, em razão do que substituía o Padre, quando este estava ausente. Tendo consultado um médico em Vitória, capital do Estado, preferiu aviar a receita com o compadre Cojá. Chegando na sua cidade, imediatamente foi à farmácia do compadre.
- Compadre - disse Justino - tenho aqui uma receita. É de um médico de Vitória.
- Besteira, compadre, porque não me procurou? Quem sabe a gente resolvia o problema e o compadre não precisaria gastar dinheiro ?
- É certo, compadre. Mas é que eu tinha mesmo que ir à Capital, tratar de uns negócios. Então aproveitei e fiz uma consulta.
Nesta altura o farmacêutico já estava com a receita na mão, tentando decifrá-la, já que letra de médico é fogo. Decifrada a receita, Cojá foi até o interior da farmácia e voltou com um aparelho de aplicar injeção, com o conteúdo já dentro da seringa. Noutra mão uma mecha de algodão embebido em álcool.
- Compadre,  aqui dentro, por favor – disse o “farnacêutico”.
- Pois não, compadre - atendeu Justino.
- Compadre, por favor, abaixe as calças e fique de quatro.
- Que isso, compadre? Tá perdendo o respeito?
- Não, compadre. Tá escrito aqui na receita. A injeção é subcutânea.
Nem é preciso dizer que o compadre foi-se imediatamente embora, sem receita e sem remédio, corado de vergonha e de raiva do compadre pela indecência. Foi o primeiro processo enfrentado por Cojá, pois Justino não o perdoou, denunciando-o  por exercício ilegal da medicina
levy pereira de menezes
Enviado por levy pereira de menezes em 14/11/2006
Código do texto: T291159
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Sobre o autor
levy pereira de menezes
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 82 anos
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