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GULAR NÃO JURA

Gular, que pagava aluguel, conseguiu comprar uma casa pelo sistema financeiro de habitação. A casa era nova, ampla, localizada na segunda rua mais bonita da cidadezinha. Além do mais, da janela do seu quarto era possível ver, a uns trezentos metros, à direita, a residência da costureira Anamélia, a mulher que ele mais desejava no mundo. Era, realmente, uma mulher vistosa, embora tivesse o rosto envelhecido precocemente. Do pescoço para baixo era um monumento, um avião - pelo menos era assim que Gular a via. Do quarto da sua nova casa, todos os dias, fizesse sol ou chuva, Gular ficava de espreita, numa posição estratégica, para ver Anamélia sair para o trabalho. Acontecia sempre às 6h30m. Ficava orgasmicamente idiotizado ao vê-la caminhar, passos firmes, cadenciados como quem estivesse numa passarela. Gular, às vezes, a pretexto de comprar pão para o café da manhã, tinha a oportunidade de cruzar com ela e dizer-lhe:
- Bom dia, dona Anamélia.
- Bom dia, senhor Gular.
Falar com ela, mesmo que fosse um simples “bom dia”, era a felicidade total. Passava o dia bem humorado, brincalhão, divertido.

Os anos se passavam e Gular não tirava aquela mulher da cabeça, mas sempre tratando-a respeitosamente, até porque ela merecia esse tratamento, já que era uma pessoa de comportamento social  inquestionável. Mas havia um outro motivo. A sua deusa era casada e naquela época, naquela cidadezinha do interior, ser indiscreto ou olhar com lascívia para uma mulher casada poderia significar um belo pijama de madeira. Gular tinha consciência disso. E sofria, pois sabia que o seu desejo de “furunfar” com aquela mulher era tão grande quanto o perigo que correria se tal acontecesse.

Gular era conhecidíssimo na cidade. Manjadíssimo, também. Todos que o conheciam tinham medo de conversar alguma coisa mais séria com ele ou perto dele. Tudo que ouvia espalhava pela cidade, fosse verdade ou não. Mas era, de certa forma, honesto. Se alguém lhe dissesse que iria contar-lhe um segredo, ouvia, imediatamente, a resposta: não, não conte, porque eu não guardo segredo. Se ele fosse viajar e alguém lhe pedisse para entregar uma carta em algum lugar, da mesma forma ele dizia: é melhor que o envelope  esteja aberto, porque eu vou lê-la, de qualquer maneira. Em razão disso, qualquer mulher que se prezasse evitava “furunfar” com ele, pois tinha certeza de que no outro dia a cidade toda já sabia. Lingua grande, linguarudo, fofoqueiro, gazetinha - assim era conhecido.

Mas...Gular nunca perdeu a fé. Achava que os anos poderiam passar, mas um dia ele conseguiria o seu intento.

Passaram-se cinco anos. Dez anos. Quinze anos. Uma notícia estourou como uma bomba na cidade: Joca está nas últimas, acometido de cirrose hepática. Faleceu meses depois. No dia do sepultamento Gular, com a cabeça cheia de porcaria, lá estava no cemitério. Ele sabia ser discreto. Colocou-se logo numa posição em que ficasse de frente para a viúva. Passou a observá-la. Percebeu depressa que ela estava realmente muito sentida: olhos fundos, semblante cansado, sempre muito próxima do caixão. Gular não se concentrava, só pensava naquilo, até que o sepultamento aconteceu e cada qual se mandou para o seu canto.

Cinco anos após a viuvez, Anamélia continuava com o mesmo porte altivo, passos firmes, comportada, séria, gozando do mesmo conceito de quando casada. Mas o Gular também continuava o mesmo, sempre na espreita, com os mesmos desejos e com um item de dificuldade a menos: agora não havia mais marido, uma investida era menos perigosa. Baseado nesse princípio, começou a abordá-la, com muito jeito. Pá daqui, pá dali, lero aqui, lero acolá, eis que o Gular ganhou a parada. A primeira coisa que ele fez foi contar para uns amigos que, naquela noite, ia “furunfar” com a viúva.

Onze horas da noite (para uma cidade pequena é muito tarde), Gular, após um bom banho, perfumou-se e, lépido e fagueiro, partiu para a sua mais importante conquista. Tóc, tóc, tóc...a porta se abre, a viúva puxa-o pelo braço. Papo, abraços, carinhos, de um lado e de outro, partiram rumo ao quarto. Lá chegando, Gular tira o chapéu (sempre o usava) e pendurou num cabide; tirou a camisa e a jogou em cima de alguma coisa; abriu o cinto, desabotoou a calça, desceu-a até os joelhos e sentou na beirada da cama para desamarrar os sapatos, quando ouviu o seguinte pedido de Anamélia:

- Senhor Gular, eu vou fazer isso com o senhor, mas, por favor, o senhor vai ter de jurar que não vai contar nada para ninguém.

Gular levantou-se, vestiu a camisa, abotoou a calça, apertou o cinto e disse:

- Se  não posso contar para os outros,  não quero.

Abriu a porta, saiu e foi ao encontro dos amigos para contar o acontecido.
levy pereira de menezes
Enviado por levy pereira de menezes em 15/11/2006
Código do texto: T292438
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Sobre o autor
levy pereira de menezes
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 82 anos
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