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Menina dos olhos castanhos

Era uma longa avenida movimentada. Pedestres corriam pela larga calçada, como fugindo da chuva que caía forte. Carros passavam em velocidade alta, espirrando as águas de poças que se formavam nas falhas do chão mal pavimentado. Estava escuro demais para ser dia. E claro demais para ser noite.
Dentre tanta movimentação, num ritmo que contrastava com tudo o que a rondava, a menina dos olhos castanhos andava lentamente embaixo da chuva. Olhar distante, pensativa e concentrada em qualquer lugar menos naquele em que se encontrava. Nem sua roupa molhada, nem seu cabelo desarrumado, os carros que buzinavam, pessoas que passavam tão apressadas, que empurravam bruscamente, nada era mais importante do que aquilo em que pensava. Nada.
Às vezes, quando por qualquer motivo voltava à realidade, ela olhava para as pessoas, algumas encolhidas embaixo de toldos, outras correndo. E no pouco tempo que mantinha um contato visual, demonstrava tanta dor, tantas dúvidas, tanto medo, que era capaz de transferir todo seu sentimento para outro e fazer com que compreendessem, apesar de não saberem porquê.
Talvez houvesse lágrimas entre as gotas da chuva que escorriam por seu rosto. Ela tremia sob as várias camadas de roupas que vestia. Sua pele naquele momento pálida, talvez por frio, talvez por agonia e tristeza. Vapor saía de sua boca entreaberta enquanto ela respirava forte. Andava devagar, braços cruzados, como que protegendo seu corpo. Sem rumo ou objetivo. Apenas caminhava.
Foi quando parou de repente. As poucas pessoas que assistiam observavam atentas. E ela olhou para cada um daqueles que estava por perto, cada um daqueles que a observava. Depois, fechou os olhos, deixando escapar uma lágrima e escondendo a dor que expressava. Ficou assim por alguns minutos.
E então, supreendendo a todos, correu para a pista dos carros, que vinham a toda velocidade. Um deles bateu em seu corpo frágil sem nem ter tempo de frear. Espectadores olhavam horrorizados, o carro que havia atropelado a menina parou de repente, causando confusão no trânsito. Homens bons se aproximavam na intenção de ajudar no que pudessem. O corpo mole estava estendido no chão sem vida.
Era o fim.
Uma multidão tentava ver o corpo, causando tumulto. Logo uma ambulância chegou, chamando mais atenção ainda. Carros passavam devagar para que motoristas pudessem saciar sua curiosidade.
Era tarde.
Assim, a menina dos olhos castanhos pôde cessar sua dor, suas dúvidas e seu medo. Talvez até encontrar a paz que procurava..
Mynina
Enviado por Mynina em 19/11/2006
Código do texto: T295914

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Sobre a autora
Mynina
São Paulo - São Paulo - Brasil, 28 anos
20 textos (1314 leituras)
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