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A CONSULTA

     Dr. Amarantes, advogado renomado na cidade, homem de muito respeito pelo belo trabalho que desempenhava sempre com o princípio básico da honestidade, isto pelos idos de 1935. Cansado já das muitas causas defendidas, resolve, ele mesmo cuidar da fazenda que há muito herdara do velho pai.

     Dr. Amarantes era uma pessoa de pouca conversa, mas muito boa pessoa e extremamente educado com todos.

     Um sábado à tarde, resolveu sentar-se numa espreguiçadeira na varanda da casa grande, usufruindo da brisa leve de verão que batia-lhe no rosto suado de tanto pelejar para consertar, ele mesmo, uma cerca que caira do lado do vizinho, Sr. Justino.

     Sr. Justino, homem trabalhador, honesto também, mas sovina o quanto o espaço dava e ainda servia do espaço dos outros para sovinar.

     Dr. Amarantes, sossegado, sentado na sua espreguiçadeira, estava pensando em levantar-se para tomar um banho, quando aproximou da casa um cavaleiro.

     - Tarde, Doutor.

     - Tarde, Sr. Justino, vamos apear e sentar-se. - falou gentilmente.

     Sr. Justino apeou do cavalo. Amarrou-o à estaca, entrou.

     - A que devo a honra da sua visita, vizinho.

     - Dr. Amarantes, o senhor que é advogado antigo, eu posso te fazer uma consulta? - disse o Sr. Justino, já sentado.

     - Pois não, Sr. Justino, pode fazer sim. - disse Dr. Amarantes, já prevendo o futuro no pensamento.

     - Pois, bem, Dr. Amarantes. Quando um cavalo de um vizinho da gente entra na roça da gente e come o milho que a gente plantou com tanto sacrifício, a gente pode cobrar por isso? - perguntou o Sr. Justino muito seguro.

     - Mas é claro, Sr. Justino. Questão de justiça. Mais claro que isso, só o sol que nos ilumina.

     - Pois bem, Dr. Amarantes, o senhor está me devendo cem contos de réis, pois o seu cavalo entrou ontem na minha roça e comeu um terço dos pés de milho que já estavam embonecando. - falou Sr. Justina, mais seguro ainda, já se levantando para ir embora.

     - O senhor está com pressa, Sr. Justino? Vamos, se assente. - gentilmente falou Dr. Amarantes.

     - Não, senhor, eu já vou indo. Depois o senhor me paga. - falou já descendo a escadinha que dava para fora da varanda.

     - Mas, Sr. Justino, o senhor está me devendo duzentos contos de réis. - disse Dr. Amarantes, levantando-se da espreguiçadeira.

     - Eu? Eu, Dr. Amarantes, devendo pro senhor duzentos contos de réis? De quê? O seu cavalo entra na minha roça, come o meu milho e eu ainda estou devendo pro senhor o dobro do meu prejuízo? - falou Sr. Justino, subindo no cavalo.

     - Da consulta, Sr. Justino. Da consulta que o senhor veio fazer ao advogado. - disse Dr. Amarantes, bem sério.

     - Deus me livre! A consulta é mais cara do que o prejuízo que o seu cavalo me deu? - disse Sr. Justino, meio embaraçado.

     - Questão de justiça, Sr. Justino. Questão de justiça. O senhor perguntou se podia me fazer uma consulta, só que eu não disse que a consulta era de graça e o senhor por sua vez não perguntou quanto era. - disse o Dr. Amarantes rindo.

     Não sabemos se um pagou o outro, pois este é um dos muitos causos que meu pai me contava quando eu era criança.
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Enviado por Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles em 21/11/2006
Código do texto: T297153
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Sobre a autora
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 58 anos
152 textos (4029 leituras)
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