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Essas coisas acontecem!

Se ele tivesse lido o roteiro daquele dia, nem teria saído do fétido quarto e cozinha que ficava a uns dois quarteirões ali do Largo do Arouche, mas afinal, se tivéssemos o roteiro de todas as bolas divididas desta vida, quem sairia?

Na verdade, aquele domingo não prometia muito mais do que se pode esperar de um dia de trabalho em pleno final de semana, era para esta monotonia que ele se preparava quando colocou os pés naquela padaria de esquina, que curiosamente não era de nenhum português, mas sim de um sisudo chileno que fizera a vida aqui por estas bandas, vendendo bengalas, médias e alguma birita. Como quase todos os dias, ele já ia pedindo seu café de coador, pois achava os de máquina italiana muito fortes, um pãozinho chapeado e nada mais, pois um operário fabril não pode gastar muito logo pela manhã.

Foi quando aguardava o chapeado que ouviu pelo seu nome, não era comum chamarem por aquele nome um tanto incomum, e tendo certeza de que era com ele mesmo, logo reconheceu a amiga de anos, que trabalhara com ele em uma fábrica de bolsas do Brás no início dos anos 90. Enquanto ela se aproximava ele só conseguia pensar em duas coisas, como os seios dela ainda estão bonitos e porque não acabou no motel aquele show do Itamar Assumpção que os dois foram assistir há uns 13 anos atrás?

Ainda pensando nisso ele recebeu um abraço daqueles, que não se dão por acaso, e foi convidado para sentar com ela em sua mesa, já cheia de folhados, queijos e frutas da época. Sem que ele dissesse ao menos oi, ela já mandou o filho do meio do chileno, que era chapeiro, mas também servia o balcão, cancelar o pedido do amigo. Sorte a dele, ali, pondo a conversa em dia, aqueles belos seios amigos, e ainda por cima um café da manhã que não pensava em encarar tão cedo, tinha até lichia!

Após uns dois sucos de laranja de boa conversa ele explicava que o domingo era de trabalho pesado, quando ela o convidou para irem juntos até a Liberdade, pois haveria uma exposição de bonsais que esperava há tempos. Ele rapidamente pensou que já fazia oito meses, desde que teve aquela virose em um domingo de Corinthians X Marília no Pacaembu e que outra virose naquele dia, até que não soaria tão estranho. Ele nem tentou resistir àqueles seios, mas, quem tentaria?

Os bonsais até que eram interessantes, mas o melhor daquele inesperado dia eram os abraços, pegadas e sorrisos cada vez mais propositados, até que não demorou muito para um beijo daqueles, de não sobrar espaço entre as bocas.
Pouco, muito pouco tempo depois, aquele desejo distante naquele fétido apartamento pela manhã, agora era algo mais do que palpável, e os seios, frutos de um desejo já histórico, agora já eram mais que íntimos. Ele nem teve tempo pra pensar onde estava, quais eram as fotos na parede, só conseguia enxergar aquelas coxas e todo o resto do corpo dela que sorria.
Foi quando suavam loucamente, que ele percebeu o homem entrando raivoso, e quando se virava para a porta, a terceira facada já o desfalecia... Ele só conseguiu ver duas coisas antes de encerrar a vida, o homem com aquela raivosa satisfação por ter feito justiça e a amiga, com os lindos seios lamentavelmente maculados por umas seis facadas, ali com um estranho sorriso enquanto gemia. O homem morreu sem entender muita coisa!

É que o dia da amiga tinha começado bem antes daquele café da manhã com frutas da época. Na verdade, por um descuido fatal, o marido tinha descoberto na madrugada anterior que a mulher tinha, há anos, um amante, que pela carta revelada era muito amado, e o homem, traído e sozinho, bateu a porta da casa prometendo sangue e vingança.
Ela conhecia muito bem seu marido, pai de um de seus dois filhos, sabia que não escaparia, mas em um gesto que muitos poderiam considerar de frieza extrema, mas que no fundo guarda alguma poesia, pensou que faria o que pudesse para salvar, ao menos, o amado, já que seria inútil tentar manter sua própria vida, ela conhecia muito bem o pai de seu último filho...

Logo pela manhã, quando começava a tomar seu café com frutas da época ali no Largo do Arouche e queimava as pestanas para tentar salvar seu homem da ira do outro homem, viu aquele antigo colega de trabalho, meio sem graça, meio morno, que teve que agüentar naquele show do Itamar Assumpção anos atrás, ela sempre pensou rápido, muito rápido, e ao mesmo tempo em que se esforçava para lembrar o incomum nome dele, já tinha decidido que a vida daquele colega distante e meio morno, valia, com certeza, bem menos do que a vida do seu amado.
Ao final daquele domingo, o marido sentiu-se vingado, a mulher sorria pela última prova de amor, e aquele morador do quarto e cozinha, muito pouco entendia! Se ele tivesse lido o roteiro daquele dia...
Luiz Rezende
Enviado por Luiz Rezende em 22/11/2006
Reeditado em 22/11/2006
Código do texto: T298159
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Sobre o autor
Luiz Rezende
São Paulo - São Paulo - Brasil, 39 anos
7 textos (641 leituras)
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Luiz Rezende