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A toca do urubu-rei





Alguém se lembra da dona Alzira? Essa mesmo! A que contava histórias, melhor, causos, enquanto lavava roupas nas casas de famílias. Pelos  anos 60. Por aí. Antes de começar seus causos, ela passava um xingo nas crianças da casa,  dizia estar com uma ojeriza danada de vê-los pisando na roupa que acabara de estender no chão pra quarar. Depois, dizia pra todos ficarem  sentadinhos na beirada da casa, que ela ia ver se lembrava de um causo acontecido para contar. Dava mais uma mascada na trouxinha de fumo, guardava-a, creio que em algum bolso, por debaixo do avental e então dava a cuspida de cuspe elástico, que  ninguém dava conta de imitar.. Ah! e vinha a gargalhada he...he...he... “Trem bão é coisa boa” ! Era uma expressão que costumava dizer de costume.  He... he...
Acho que alguém já pode ter ouvido esse causo. No entanto, me lembro bem que dona Alzira dizia haver acontecido com ela. Se contar de hoje pra trás, é coisa  que aconteceu pra mais de 100 anos, lá nas bandas da Onça, onde ela havia nascido e vivido por muitos anos.  Dizia ela, que ainda  menina, depois de ajudar a mãe na lida da casa,  tinha um serviço de rua pra fazer.  Um serviço de mato. Todas as tardinhas, ela saía de casa pra catar lenha pra acender o fogão. Sem lenha, naquele tempo, ninguém podia comer. Lembram da mãe de “Chapeuzinho Vermelho”? Pois é. A mãe da menina Alzira também lhe dava conselhos, que nem a mãe de “Chapeuzinho”. Ela não lhe falava de “Lobo Mau”. Podia ser que ele não andasse pelas bandas da Onça. No tempo dela, o que assustava  mesmo era a toca do  ububu-rei. Toda tarde, sem falhar uma, quando a menina Alzira saía pro mato pra catar lenha, a mãe lhe fazia as recomendações. Cuidado minha filha, não vá, nem hoje, nem amanhã, nem nunca,  à toca do urubu-rei. Porém, não explicava  por quê.
Já viram criança sem curiosidade? Segundo ela, ela não era das intrometidas, mas gostava de saber das coisas. O nome urubu- rei  lhe chamava atenção. Imaginava um pássaro elegante, mais bonito que os urubus que ela via por lá, comendo as tripas das galinhas, dos porcos mortos. E colorido e rabudo quem nem um pavão, dizia ela, acho que vocês já viram um pavão.  Só podia ser assim o urubu-rei. Era das realezas. He, he, he..…….Tinha gente que dizia que ele era branquinho, branquinho. Pode ser por causa de que o bicho, visto voando, parecesse todo branco. Era branco nos fundos. Quando ele abria as asas, quem tivesse aqui no mundo, olhando pro céu, veria um pássaro todo branco a voar. Outros, que tinham visto o bicho no chão, contavam  que ele era como um frango bem grande, pescoço pelado. As asas e o rabo eram pretos, o corpo, parte amarelo-claro, parte branco e mais umas pintas vermelhas, amarelas e alaranjadas. Essa idéia é mais favorável pro  nome dele. Se era rei, tinha que ser ataviado.
Bom. Como ia dizendo, a menina suspirava de curiosidade de conhecer o tal urubu-rei. Custava nada, ir pelo mato afora, tão sozinha, buscar lenha pra mamãezinha e daria uma passadinha pela boca da toca do tal urubu. Não carecia ter medo. Pelo  que ela entendia, urubu nem gostava de comer gente nem  bichos vivos........ Preferia os mortos.
Nesse caminhar  pro lado da toca, foi anoitecendo, foi nuveando, foi ventando e acabou caindo uns pingos grossos  de chuva, que obrigou a menina a correr pra se proteger. Pior, que ia molhar a lenha que já tinha juntado. Quando se apercebeu,  estava se abrigando dentro da toca do temeroso desconhecido. Nisso, que ela acaba de entrar, ouve uma revoada que parecia ser de enormes pássaros. Encolheu-se. No entanto, mesmo cismada, pensou, agora vou conhecer o tal do bicho. Nisso, parece que os pássaros foram se acalmando e fez  um silêncio danado na entrada da toca. Só se ouvia o ruído da chuva. Agora. Também dava pra sentir um fedor que não era nada dos bons. Devia ser dos urubus-reis,  que todo mundo sabia que eram fedorentos.
Bom. Acontece que a menina gostava de investigar. Aquele silêncio todo dizia a ela pra entrar mais um bocadinho pro interior da loca. Não custava nada. Por via das dúvidas,  fez o “nome do pai” e o “sinal-da-cruz”, três vezes  cada um, beijou a santinha do seu escapulário.  Pra afastar alguma desdita. Foi entrando, entrando, entrando,  até que viu uma luz. Um lume de nada, um brilhozinho frouxo. Deu mais uns passos e apurou o ouvido, que parecia estar apanhando uns ruídos meio incertos. Nisso........ choc...choc... choc... Figurava um rumor de chocalhar de correntes. Choc... choc......... o rumor  foi ficando mais forte, parecendo vir pro lado dela. Duvidou. Urubu-rei usaria correntes? Nessa hora,  ouviu uivos, gritos de dor, gemidos, uma agonia só. Uma barulheira que parecia sair de todos os cantos da gruta.  Minha Nossa Senhora da Aparecida! Isso não podia ser ruído de urubu, de ave nenhuma, nem de bicho nenhum. Só podia ser coisa de além. Coisa do além. He... he... he…….. Nem imaginam. A menina saiu numa carreira, carreira tão grande, que se Chapeuzinho tivesse feito igual a ela, quando soube que era o Lobo Mau  quem  estava deitado na cama da vovozinha, ela nunca teria sabido que a vovozinha tinha ido parar dentro da barriga do Lobo Mau.
Como chegou toda esbaforida em casa e ainda por cima, sem a lenha, a mãe levou  um baita dum susto. Pudera! Havia entrado  em casa  branca que nem cera de vela de procissão de sexta-feira da paixão. Primeiro, deu umas desculpas de farrapo,  que havia ido até a toca do urubu-rei  pra se esconder da chuva....  Acaba que  teve de contar pra mãe, de fio a pavio, por causa de quê havia ido e o quê havia acontecido com ela lá na toca.
Bom que a mãe era concordada. Contou pra filha que  mistério da gruta eram as almas penadas dos escravos. Todo mundo lá da Onça sabia que, no tempo do ouro, o lugar teve muitos negros escravos e que esses tinham que trabalhar, dia e noite, por conta de uma comida pior do que a que os donos gastavam pra engordar porco. A loca do urubu-rei havia sido uma mina que havia dado muito ouro, mas que já não estava oferecendo mais nada. Assim os donos não precisariam mais de tantos escravos. Se ficassem com eles, teriam que lhes dar comida, né mesmo? Acharam melhor acabar com um punhado, que naquela ocasião já não mais podiam vender escravos de uma fazenda pra outra. Sabem o que fizeram? Chamaram os escravos prum trabalho, bem nas profundezas da mina. Esperaram eles se juntarem todos, cada um com suas ferramentas  e  tuuuum! Meteram uma pedra pesada pra tampar  a boca, lá do fundo. Nem ligaram que os escravos eram gente. Foram enterrados vivinhos! Como é que se morre em paz desse jeito! He... he... he... As correntes? Dizem que os donos de escravos costumavam deixar correntes presas nas pernas dos negros mais metidos a fujão. As pernas ficavam pesadas e els não davam conta de ir longe. Os que morreram lá na toca do urubu-rei estão arrastando  correntes até hoje. Se quiserem, podem ir lá pra ver.
Por causa disso, nunca mais, a menina Alzira passou pelas bandas da toca do urubu-rei. Mas, também, nunca chegou a conhecer um urubu-rei. Sabe de ouvir dizer.

Terezinha Pereira
Enviado por Terezinha Pereira em 24/11/2006
Código do texto: T300006
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Sobre a autora
Terezinha Pereira
Pará de Minas - Minas Gerais - Brasil, 68 anos
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