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CACIMBA SECA - APRESENTAÇÃO

NOTA
Parece-me que o texto está mais para "estudo sociológico". Não encontro no esquema do recantodasletras um título que me pareça mais adequado, chamo, assim  - GERAL - CONTOS CAUSOS. Não é mais que apresentação do romance CACIMBA SECA, que, além de editado em impresso e ainda dispoível, está inserido no site www.joaojustiiano.net
É um trabalho de 1973 - mais de trinta - publicdo em livro  em 1985 - 21 ano - numa tiragem de 1.000 exemplares, dos depois boa quantidade. É quase o ineditismo.
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Sem deixar a poesia em que me iniciei na mocidade, porque a amo e reconheço nela um Dom raro dos céus, que vem quando quer e como quer, introduzindo-se em nosso espirito sem que nem saibamos das suas razões, experimento uns passos no caminho da prosa. E nasce este livro, meio realidade, meio ficção, sempre a mensagem do Sertão Nordeste, que não me sai da alma, e ainda o sentimentalismo da obra poética.
É mais uma tentativa que faço, na busca contínua, natural aos que praticam, o ofício literário, de desenvolver o poder criador e aperfeiçoar a idéia.
Primeiro, a terra...
A terra virgem de antigamente, inóspita e no entanto bela, farta em recursos vegetais próprios à criação, que era ao tempo dos desbravadores, aqui representados por Domingos de Afonseca e Azevedo, pessoa real, cujo o nome, grafado em documento antigo foi esse mesmo, mas, para os descendentes, se resumiu em Domingos da Fonseca. No livro eu o chamo de Domingos de Afonseca, como vi escrito. Foi meu terceiro avô.
Desejando fixar a era mais velha, ainda viva, da caatinga de minha terra, para confrontá-la com a atual, escolhi seu nome, que  encontrei de boca em boca, sua luta contra a natureza bruta e a caatinga, fechadona então, toda por desbravar. As suas noticias, repletas de fatos heróicos, são verdadeiras. Naturalmente, casos verídicos são capeados de fantasia, como necessário ao desenvolvimento do raciocínio e à liberdade da força criadora. Avancei muito na imaginação, suprindo a escassez da notícia, tanto na vida de Domingos da Fonseca, como em histórias outras, e até nas lendas. É a lado romanesco que não se evita quando a informação é escassa.
Rodelas - é a terra, ela mesma, como referida, sem acréscimos. O Rapador é exato na descrição. E o Raso da Catarina também corresponde ao verdadeiro, até onde o conheço e é uma pequena parte da vastidão arenosa, coberta de cactos -, macambira, caroá, gravatá, catingueiras, umburana e umbuzeiro. E a origem do nome de Rodelas, como se conhece na terra, é essa mesmo: saiu de rodela — rótula (osso móvel da articulação do joelho); não de rodela — botoque.
Zulmira, pedalando seu engenho, fiando lentamente, lá está, velha hoje, na mesma profissão miudinha e nada rendosa que aprendeu na infância; bisneta de um lado, do outro, trineta de Domingos da Fonseca. O Otacílio, navalhona grossa de doer na cara da pessoa, também; é a descendência da senzala. Os que conhecem a navalha, de uso, ave maria... Rafael terminou não agüentando.
E há mais pessoas reais, que menciono, quer pelo destaque que merecem na localidade, quer porque o meu querer bem as lembrou. A mestra Dulcina Lima, por exemplo, tia Aninha, José Pedro de Almeida — O Cazuzinha —, contemporâneo de Domingos da Fonseca. E o último dos líderes locais — Domingos Almeida, figura humana extraordinária, sobre a qual ainda espero escrever alguma coisa que registre a sua grandeza e o bem que fez àqueles ao lado de quem viveu.
Rafael, este, é filho da imaginação, pessoa necessária no tempero da mensagem, personagem central do romance. Quando se apresenta arrancando macambira e tirando água da cacimba, é personagem comum no Nordeste, parece-se a centenas. Na ida para São Paulo, tentando a vida, semelha-se a milhares de sertanejos. Em São Paulo, seus amores, suas aventuras, as fantasias de grandeza e o mais que lhe acontece... Por isso não me responsabilizo. Deixo-o entregue à imaginação que pode ir e vir, fazer e refazer livremente na arte da comunicação romanesca. Que pintou o sete, pintou, sou forçado a reconhecer.
Exatamente aí, nessas confusões, foi que forjou o próprio destino. Criou uma dificuldade e teve que sair dela por si mesmo. Mas, saiu-se entrando em nova situação difícil. Desencontrou-se de mim, deixando o roteiro que esbocei. Viveu e gemeu sua vida de ficção. Traçou o romance, mais paulistano, na verdade, de que nordestino. Quando o reencontrei, sofrido e inseguro, meu filho querido, quis recolocá-lo no sertão. Ainda assim, não tive forças para remodelar o destino que se traçara. E ele continuou sozinho, cabendo-me apenas registrar-lhe a história.
José Leoberto, é o filho apagado. Aparece rapidamente no primeiro quarto do livro e some para regressar quase no fim. Figura sofrida, destino triste e escasso. Vai a São Paulo e volta. Torna a ir torna a voltar. Vai e volta de novo. Tudo de notícias, indistinto. É o retrato corpo-inteiro do retirante nordestino corrido da seca, restituído da saudade, para lá e para cá. Quando vai, leva uma porção de companheiros de ilusões. Voltando, é só. A vida continua hoje sendo a de ontem. A dele, a de milhares.
Rosinha, Almerinda, Daniela... Se alguém as estimar, estimará a mim certamente, e eu agradecerei. Não se diz que "pelo santo se beija a pedra"? Pois? Eu beijarei a pedra a quem beijar o rosto de minhas filhas... Não! A paráfrase não é bem assim; é esta aqui: — "Quem meu filho beija, minha boca adoça". Então? Minha boca será adoçada dos beijos que receberem Rosinha, Almerinda e Daniela.
Mas... Ia-me referindo à terra, para indicar a mensagem e saí para este retrospecto de apresentar personagens...
O Brasil esqueceu demais o Nordeste e há de trabalhar muito, para recuperar o tempo perdido.
A terra, castigada de um clima hostil, árido demais, comentado e debatido tantas vezes, não amenizado jamais, sem uma tentativa eficiente de amenidade...
A terra, entregue à natureza embrutecida pelo clima, índice pluviométrico que de tão reduzido vai-se perdendo a desaparecer nos tempos, sol mais quente, chuvas menos...
A terra, em que, na opinião de Euclides, a vegetação não sobe alto porque o calor do sol terrível espreme-a e empurra para baixo, e descendo à busca da umidade que não encontra, não enterra os galhos no chão porque a areia escaldante e repele-a ainda, e esgalha-se, para os lados, baixinha, traçando-se e reentrançando-se uns nos outros os arbustos e as árvores, para proteger-se do fogo que vem de cima, do calor que vem de baixo, à sombra de si mesmos...
A terra! A terra que a gente diz que é madrasta, porque não nos ajuda! E ela dirá que somos o filho desnaturado, que a vendo sofrer, fecha-lhe os olhos à dor e a exaure mais; chupando as tetas magras.....
A terra do Nordeste é difícil, mas possível na recuperação. Água, fertilizantes... — Água acima de tudo, tirada dos rios próximos, acumulada das chuvas, buscada no subsolo, de algum modo provocada e utilizada! Mas, é indispensável o recurso de fora, quero dizer, a decisão forte e sem vacilações do Brasil Governo, do Brasil Finanças.
As tentativas de amenizar o clima trabalhando o solo por via dos grandes açudes esparsos, dos grandes centros de irrigação longínquos, são válidas, mas têm sido insuficientes, são pequenos esboços e são pouco, considerada a amplitude das áreas desérticas. As obras localizadas em espaços limitados, sem pretensão de grandiosidade, costumam amarrar-se em eventuais dificuldades e em regra perdem-se na rotina. É que o homem gosta de grandeza, tem sede e necessidade psicológica da grandeza. Se as coisas são pequenas ou limitadas e se amarram, vai adiante, à procura de maiores.
Alguma coisa tem sido planejada e executada recentemente em termos de assistência, ou muito, para o que se era. Mas, a vida mesmo, as condições de trabalho, as possibilidades de romper a dureza do clima, continuam quase o que eram quando se imaginou DNOCS, CODEVASF (com seus nomes anteriores), SUDENE, BANCO DO NORDESTE e organismos semelhantes. Refiro-me, evidentemente, ao Nordeste Sertão, não ao Nordeste Cidade.
Há uma hora de entusiasmo e otimismo, de confiança, criada pela assistência que se começa a oferecer ao homem do campo. Seria a oportunidade de o Brasil utilizar-se do fenômeno e trazer as máquinas, não a esboços, mas a obras definitivas que alcançassem o Sertão-Nordeste de uma ponta a outra, com a colaboração geral, num esforço gigante para retificar o seu clima. Não falo de Três Marias, Sobradinho, Itaparica, que são outra coisa e têm outro fim, de efeitos já comprovados, ainda que, por insensibilidade dos técnicos para com os problemas sociais, causem danos insanáveis ao ribeirinho do São Francisco.
Não só as grandes represas distanciadas entre si, mas também pequenas represas, próximas umas das outras, muitas e muitas, nos pequenos riachos periódicos, e poços tubulares. Não apenas campos de irrigação experimental, mas, paralelamente a estes, o atendimento financeiro e técnico generalizado, planejado miúdo, de modo a permitir o trabalho individual de irrigação aos detentores (proprietários ou posseiros) de pequenas glebas e a distribuição de gleba suficiente ao homem do campo que não a possui (ao contrário, e muito das grilagens). Isto é, uma obra definitiva, sem recuos e esmorecimentos, sem descontinuidade, sem muitas indagações de garantia, que a produção por si só garante tudo.
E a fixação do homem à terra onde nasceu e de onde não quer sair, da qual, quando se afasta, é tangido pelas contingências e dificuldades, pensando sempre em voltar.
Volte-se a República para o Nordeste. Abra os solhos para a nação. Pense na agricultura como meta fundamental do desenvolvimento econômico — sem lavoura não há pão e sem pão não existiria o homem — é bom relembrar que o Nordeste tem muito a oferecer — em solo bastante, ainda ocioso. Mas também é necessário despertar para o fato de que, se o nosso solo, no geral carece de molhação artificial, já não é tempo de esperar-se, em lugar nenhum, tão somente pela chuva de Deus. A irrigação se faz necessária até para complementar a chuva, se quisermos boa produtividade e garantia  de produção.
Gêneses pobre, que se origina da pobreza ambiente, ainda assim, o mestiço nordestino dos campos não é apenas um forte; é, antes de tudo, um bravo. Faminto e sedento, luta contra a intempérie, vence raramente, quase sempre é vencido. Mas não recua. A ida a São Paulo é um interregno na luta, ou é parte dela. Ali se refaz um pouco e volta. Sua terra o atrai, a labuta do chão áspero o convida. E sol a sol vagueja, ou corta a baraúna a machado, ou lavra a terra ingrata. Constrói tarefas de cerca de pura madeira. Se o solo não presta, vai adiante, levanta novo cercado e planta ainda.
Tendo condições de vida suficientes, pela renda individual e global, pela educação e saúde, pela comodidade mínima — que façam reduzir a diferença no confronto entre cidade e o campo, os filhos de Rafael não retornarão a São Paulo nem os filhos de seus filhos precisarão sair em busca de novos destinos. Antes, lutarão para erguer o Nordeste,  mantendo-se, no amanhã, e com maiores razões, os mesmos bravos de hoje, os mesmos heróis dos tempos de Domingos de Afonseca e Azevedo.
Salvador, junho de 1973. Reescrito e ampliado em agosto de 1979. Revisado em 1985.
João Justiniano
Enviado por João Justiniano em 28/11/2006
Reeditado em 30/11/2006
Código do texto: T304019

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Sobre o autor
João Justiniano
Salvador - Bahia - Brasil, 96 anos
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João Justiniano