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Nas telas dos cinemas, a vida como ela é Brasil ?

ago.2003

No filme O Assalto ao Trem Pagador, de Roberto Farias, o personagem Cachaça, vivido por Grande Otelo, em uma cena, caindo de bêbado, indignado com a pobreza no morro, faz um discurso, onde fala “Cada criança que morre na favela devia ser motivo de se cantar, pois, é menos uma para se criar no meio dessa miséria”.
Esse drama policial de 1962, passado na telas de todo mundo, narra a saga de Tião Medonho em querer criar melhores condições de vida para a família, enfrentando conflitos entre o morro e o asfalto
No mesmo ano, o filme O Pagador de Promessas de Anselmo Duarte, narra o drama de Zé do Burro e sua mulher Rosa, que chegam em Salvador, carregando uma imensa cruz de madeira para conseguir pagar uma promessa feita em um terreiro de candomblé.
Lúcio Flávio - O Passageiro da Agonia, de Hector Babenco, em 1977, levou mais de cinco milhões de espectadores aos cinemas do país. O filme narra os últimos dias de um bandido violento, um marginal carioca envolvido num perfil expressivo de algumas peculiaridades sociais em que o tornou um dos bandidos mais populares do Rio de Janeiro
1980 é o ano de outro filme de Hector Babenco. O Pixote, A Lei do Mais Fraco. O filme narra a trajetória de um menino de rua que foge de um reformatório em meio a uma rebelião. Esse menino sobrevive, convivendo com todo o tipo de criminosos e jovens delinqüentes. Torna-se um pequeno traficante de drogas, cafetão e assassino, mesmo tendo apenas onze anos.
O filme Central do Brasil, 1998. Em plena virada do milênio, Walter Salles conta à história de Dora, mulher que em uma estação de trem (Central do Brasil, RJ.), escreve cartas para analfabetos e ajuda um menino, após sua mãe ser atropelada, a tentar encontrar o pai que nunca conheceu, no interior do Nordeste.
O filme Cidade de Deus, 2002, de Fernando Meirelles, narra o cotidiano de uma favela carioca conhecida por ser um dos locais mais violentos da cidade. Favela criada em 1966 cedeu seu nome ao filme. Nesta favela, Buscapé cresce em um universo de muita violência e se torna um jovem pobre, negro e muito sensível. Amedrontado com a possibilidade de se tornar um bandido, Buscapé acaba sendo salvo de seu destino por causa de seu talento como fotógrafo, o qual permite que siga carreira na profissão. É através de seu olhar atrás da câmera que Buscapé analisa o dia-a-dia da favela onde vive, onde a violência aparenta ser infinita.
Roteiros, fotografias, direções. Filmes brasileiros são exibidos no palco nacional após serem coroados por medalhas e por merecidos prêmios em festivais internacionais.
Filmes belíssimos, inspirados na história real de um país, explorando a violência e a ignorância de parte da população.
Filmes que trazem poucos benefícios à realidade brasileira e muito ganhos nas contas bancárias de milionários que bancaram as produções.
Filmes que apesar de muita consagração, não deram perspectivas nenhuma de melhoria social e nem trouxeram esperança.
Filmes que talvez, dificultam ainda mais a socialização de personagens reais dessas histórias retratadas nas telas.
Por uma trajetória de prêmios, esses filmes arrancam uma comoção da critica e dos expectadores, como que a história só se passasse nas telas e menos nos boletins de ocorrências de milhares de delegacias ou nos noticiários que tanto sangue escorrem pelos tubos das TVs e das folhas dos Jornais
Procuro entender se fosse explorados esses temas por meio do humor, pela comédia. Ganhariam tantos prêmios ou conseguiriam atingir tanta consagração e comoção?
“... O povo quer ir ao cinema para rir. Para ele, a comédia faz a diferença “. _Amácio Mazzaropi.
Preste a completar 20 anos de liberdade, parece que hoje não é mais assim como dizia Mazzaropi.
Prenderam o riso. O riso está preso, condenado a morte.
Não menos belos, ou melhor, tão belos quantos esses filmes consagrados por tantos prêmios. Os filmes de Mazzaropi, relataram vários assuntos sem se deixar aprisionar a conceitos. Essas preciosas películas perdidas no tempo, na história do cinema brasileiro, caíram ou estão caindo no esquecimento e infelizmente, esses filmes de Mazzaropi parece que não fizeram escolas. Pela originalidade de exibição de seu tempo, esses filmes deveriam ter seus registros como marcos cinematográficos do cinema brasileiro.
O cineasta Amácio Mazzaropi, em seus filmes, usando a magia do riso, abordou problemas concretos, reais, que são vividos pelo povo. Problemas da terra, do camponês oprimido pelo latifundiário, pelas ações violentas dos intermediários entre o pequeno produtor agrícola e o mercado, problemas das relações entre marido e mulher, pais e filhos, das religiões populares, e mais, relatou a saga de tantos caipiras que se juntaram com os retirantes nordestinos, perdidos na cidade grande. Esses brasileiros que construíram São Paulo.
Há momentos claros e contundentes em seus filmes, como em Jeca e Seu Filho preto, 1977, onde Mazzaropi explora o racismo. Como também, em 1959, quando tirou Jeca Tatu do almanaque do Biotônico Fontoura e o levou para as telas, abordando o trabalho em tom critico, na forma humorada. _O caipira resolve não fazer mais nada diante do alto custo de vida na roça. O caipira deixa de ser um elemento que consome e paga imposto e passa a levar a vida na preguiça.
Mazzaropi colocou na tela, cenas e tomadas que por não serem melodramáticas, não foram merecedoras de medalhas e prêmios. Como por exemplo, no filme Candinho, 1953: a cena do caipira perdido na cidade grande, passa a noite no parque, dormindo em bancos, se cobrindo com folhas de jornais, o caipira divide o único alimento que tem com um mendigo, um pedaço de pão duro. Tomadas, onde a câmera corre lentamente, registrando cenas da correria de uma metrópole e no meio da multidão aparece Mazzaropi com aquele andar desengonçado.
Cenas de rara beleza como uma inesperada poesia, sucede também quando ele não está fazendo nada de especial, apenas olhando, andando ou colocando fumo no pito.
Talento de um grande gênio-palhaço (ator do riso) como Carlitos, "Se tivesse acreditado / na minha brincadeira / de dizer verdades teria / ouvido verdades que / teimo em dizer brincando, / falei como um palhaço / mas jamais duvidei da / sinceridade da platéia / que sorria”. Eu continuo a ser uma coisa só: um palhaço, o que me coloca em nível mais alto do que o de qualquer político."_Charles Chaplin.
Perdemos, o drama Central do Brasil, o Oscar para a Comédia-Dramática, A vida é bela de Roberto Benigni (ganhador de três Oscars).
Não devemos nos entristecer e sim, tentar recuperarmos o riso e nos alegrar, pois, quem sabe, num futuro próximo, assim, como Benigni, algum cineasta brasileiro, que ousar a imitar a maestria de um Mazzaropi, ganhe um Oscar.
Até lá, bye bye Brasil.
Plínio Sgarbi
Enviado por Plínio Sgarbi em 08/09/2005
Código do texto: T48599
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Plínio Sgarbi
Jaú - São Paulo - Brasil, 54 anos
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