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MEU PRIMEIRO DESFILE



Já passava das 14 horas da quinta-feira, véspera de carnaval, quando tocou o telefone: era a chefe de gabinete do Prefeito da Cidade de Cintra do Norte, grande homenageada pelo enredo do Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos da Rapadura, me convidando para desfilar pela referida escola. Nunca desfilei, não sei sambar, não conhecia o samba da escola, mas não pensei duas vezes e aceitei o convite sem pestanejar. A “Escola”, cuja sede fica na casa do Presidente da mesma, num bairro próximo a minha residência, recebera uma boa quantia do prefeito para que a sua cidade fosse a homenageada da hora. Naquela mesma noite, fui visitar o barracão da escola (que funciona na garagem de uma empresa de ônibus local), e lá chegando, tratei de conhecer a minha fantasia que pertencia a ala dos Mendigos da Periferia, um luxo, calça de tergal preta, com rasgos no joelho e adereços em papel laminado dourado nas laterais, camiseta branca com listras vermelhas com apenas uma alça, deixando um dos peitos a mostra, esplendor com penas de galinha nas cores roxa, azul e amarela e uma cobertura feita com meia calça com pompons brancos confeccionados em algodão in natura. Consegui a letra do samba, cujo refrão logo aprendi a cantar ( ...é da cachaça forte, é o samba pra valer, sou de Cintra do Norte, vou botar é pra ferver). Passou-me pela cabeça que alguns engraçadinhos poderiam fazer certo trocadilho quando da apresentação da escola no desfile, justamente nesse trecho do samba (mas é carnaval e um “palavrãozinho” não conta) e fui para casa carregando meu “uniforme carnavalesco”, já pensando, ansioso, na noite do desfile. Duas horas antes do início da festa, já me encontrava devidamente fantasiado e com todo o samba na ponta da língua. Foram duas angustiantes horas até que pipocaram os fogos, anunciando a entrada na rua, digo, avenida, da Escola de Samba Unidos da Rapadura. A bateria deu o tom e lá fomos nós pela avenida. Minha ala era a primeira, logo atrás do primeiro (e único) carro e eu me coloquei logo na primeira fila, puxando a ala. Já nos primeiros minutos, senti que algo não estava indo muito bem, nos muros (arquibancadas), o povão não cantava nem mesmo aplaudia a escola..., uma frieza só. Senti por bem chamar a responsabilidade pra mim e como se um santo me baixasse, me destaquei da ala e comecei a “sambar no pé” , dava voltas e vira-voltas , roubei um pandeiro da bateria e comecei a toca-lo num misto de instrumentista e malabarista, passando o instrumento pelas costas, rodando-o com um só dedo, fazendo o “bicho” circular pelas minhas pernas, ao mesmo tempo em que homenageava os jurados. De repente foi aquela gritaria, todos aplaudindo, bandeirolas da escola sendo agitadas e um grito em uníssono: Zé!! Zé!!
Foi quando num tapa mais forte, meu irmão conseguiu me acordar.
-Zé, acorda malandro, tu não vai desfilar no bloco da rua?
Jose Carlos Cavalcante
Enviado por Jose Carlos Cavalcante em 08/09/2005
Código do texto: T48661
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Sobre o autor
Jose Carlos Cavalcante
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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Jose Carlos Cavalcante