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O assalto

          Cidadezinha do interior é aquele lugar onde todos acabam sabendo da vida de qualquer um que lá viva ou morra. Quase todos se conhecem – e os que não conhecem já ouviram falar. A estreiteza de horizontes se mistura à estreiteza dos laços.  É neste tipo de lugar onde as notícias voam mais rápido que boletins da CNN. Eu vivia em um lugar assim. Vivia e trabalhava, enquanto o tempo passava, inteirando-me sempre dos fatos, mesmo que contra a vontade – por ser avesso a qualquer tipo de fofoca. Mas não tem jeito. A boataria é como poeira e penetra em todos os lugares a despeito de quaisquer cuidados.
          Numa bela manhã – ou seria uma feia manhã de inverno? –, mal chegara ao local de trabalho e já circulava a notícia de um assalto nos moldes de cidade grande. O fato é que a casa da mãe de um de meus colegas de trabalho fora invadida por dois homens mascarados e armados – pelo menos um deles, ao que se sabia. Antes que as tarefas fossem distribuídas por nosso supervisor lá estava o tal colega contando a dramática história da mãe - com mais de setenta anos, uma máquina reprodutora com seus quatorze partos bem sucedidos - e da única irmã a quem a natureza negara qualquer beleza de atributos. Bom filho que era o sujeito pintava o quadro com todas as cores do drama: Durante a madrugada os tais dois homens encapuzados e armados invadiram a casa onde as duas viviam e começaram a retirar aparelhos e objetos da casa. Era para ser um furto simples, não fosse um deles ser desastrado e ter deixado alguma coisa cair. Acordada pelo barulho na sala a idosa senhora, porém ágil, saltou da cama e foi até lá, imaginando que algum gato tivesse entrado na casa. Instantes depois ela já estava sentada no sofá, diante de um dos assaltantes que lhe apontava uma velha arma, enquanto o outro se encarregava de vasculhar toda a casa... Voltou o outro em seguida trazendo a filha da mulher. Ela ainda nem havia entendido o que se passava, despertada que fora pelo brutamontes encapuzado. Juntas no sofá, as duas mulheres se abraçaram, enquanto os ladrões terminavam a "limpeza", sempre lhes apontando o velho revólver calibre 32. Temerosas por suas vidas elas obedeceram à última ordem de não fazerem nada, não gritarem ou coisa do gênero. Se o fizessem, eles voltariam e elas seriam mortas. Em seguida os dois desapareceram no meio da noite.
          Finda a narrativa do filho e irmão das vítimas partimos todos para o início da jornada de trabalho, indignados e espantados, comentando o ocorrido... O dia transcorreu até mais fácil que a maioria, pela quebra brusca da rotina e pelo grande volume de conversas sobre o assunto. Passou a hora de almoço e o turno da tarde até que a sirene anunciou o fim do expediente. Lavei-me e troquei o sujo uniforme por roupas limpas e fui para casa.
          No caminho resolvi parar na barbearia e desfazer a barba, sabendo de antemão qual piada iria ouvir sobre tirar os pelos da barba e colar na calva. Sentei-me e peguei um velho jornal já totalmente desfolhado, lido, relido e comentado e comecei a ler notícias que já nem tinham mais importância. Esperava pacientemente minha vez de ser atendido e mais uma vez me perguntava por que as barbearias do interior eram iguais – segundo minha teoria – em qualquer parte do mundo. Existe nelas uma certa intimidade entre os fregueses que se conhecem de longa data, parecendo mesmo uma espécie de confraria. As conversas normalmente são variadas e insólitas, e somente pertencendo àquele meio é que se consegue estabelecer algum tipo de comunicação. Eu sabia não pertencer ao meio e fiquei quieto em meu canto, fingindo ler.
          A primeira meia hora é sempre a pior, mas acaba-se por acostumar. O entra e sai de fregueses para fazerem seu jogo do bicho – todo barbeiro do interior é um cambista em potencial – acabava arrastando ainda mais a espera. Chegou a minha vez e fui solenemente conduzido à velha cadeira do barbeiro. Apesar do sensível desconforto ela sempre me serviu melhor que qualquer remédio para dormir. Era sentar e começar a ter sono. Foi quando entrou um dos fregueses habituais, daqueles que vão à barbearia todos os dias, conversam um pouco e depois vão embora. Era por acaso um dos muitos filhos da velha senhora assaltada. Conhecia-o superficialmente mais pela presença constante na barbearia e pela maneira inusitada como tratava qualquer assunto. Entrou, cumprimentou todos os presentes e logo começou a contar sua versão da experiência vivida pela mãe e pela irmã solteirona. Como eu já conhecia a história, não quis dar muita atenção, mas em resumo foi este o final da narrativa do sujeito:
          — Pois é! Coitadinha da minha mãe, não é? Morando lá sozinha com aquela minha irmã que nem o diabo quer namorar. Nada de ver homem em casa. As duas lá, de madrugada, com aqueles dois sujeitos armados, levando videocassete, televisão, som, alianças, cordão de ouro... Tudo! Aí os dois foram saindo, ainda com o revólver 32 apontado para elas. Minha mãe, vendo que eles iriam mesmo embora criou coragem e se levantou do sofá. Minha irmã também se levantou e as duas disseram quase ao mesmo tempo, desapontadas:
          — Como é que é? Que raio de assalto é esse? Não vai ter "istrupo" não?
          Acredite quem quiser. Saí da barbearia minutos depois, imaginando a cena em detalhes e tentando estancar o sangue que insistia em sair pelo corte da navalha em minha orelha. Não sei se foi o barbeiro ou se fui eu quem tremeu mais na hora do riso, mas não importava. Precisava sair logo dali e passar a história adiante...
Poeteiro
Enviado por Poeteiro em 09/10/2005
Reeditado em 09/10/2005
Código do texto: T58004
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Sobre o autor
Poeteiro
Santos Dumont - Minas Gerais - Brasil
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Poeteiro