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Maria de Bilico

Maria de Bilico


A história de Maria, não é algo inusitado, nada de novo ou muito engraçado. Trata-se pois, da mais singela realidade do povo brasileiro e corriqueiro, que tem um grande valor por ser simples e verdadeiro. Assim, não há como não ser contada, com a magia e os detalhes de uma história de vida.
Maria morava com seus dois filhos e seu marido Bilico, em umas terrinhas invadidas de um povo rico. Sempre caprichosa e trigueira, mesmo já com certa idade, ainda era faceira. Assim dizia a vizinhança, que não havia um cavalheiro que passasse pela porteira, sem tomar do café de Maria.
A casa de chão de terra era asseada, nas prateleiras os alumínios brilhavam como troféus, copos e panelas ficavam expostos, representando o capricho da mulher.
Sempre na chegada, era automática a forma de falar:

–Tarde Maria.
–Tarde, to aqui barrendo o terrero, vamo entra.

O chão da casa recém varrida, o cheiro de terra molhada, o fogão de lenha baixo, feito de barro, sempre aceso crepitando a madeira. Aí era sentar e prosear, não dava nem vontade de ir embora. Logo Bilico chegava da rocinha que tava sempre carpindo, sentava,cruzava as pernas e começava a enrolar um cigarro de papel bem devagar e o assunto rolava, causo pra lá, causo pra cá...
Bilico, bem mais velho que Maria, tinha um ar de cansado e ela numa disposição danada, limpando, varrendo, arrumando e aguando as plantas com um sorriso que iluminava seu rosto.
Mas em uma destas visitas, Maria me surpreendeu:
–Tarde Maria.
–Tarde! Uai, pensei que cê num vinha aqui! Achei que cê ia embora sem vim toma do meu café. – ela falava enquanto me cumprimentava com um aperto de mão.
–Nada. Cadê o Bilico?
–Ta pra rua, foi vê uns negócio.
Eu notei que Maria estava diferente, mas não conseguia perceber em que, tinha algo errado no seu modo de falar, estava faltando alguma coisa, Maria não sorria, então perguntei:
–Que foi Maria? Você está doente?
–Nada, ranquei os dente.
–Arrancou? Quantos?
–Tudinho, vo bota uma perereca.
Eu não acreditei, fiquei sem fala. Seus dentes eram bonitos, saudáveis e grandes. Seu sorriso era quase um cartão postal de sua hospitalidade.
–Porque você arrancou todos os seus dentes Maria?
–Ah, passou aquele dentista numa motoca por aqui, e eu ranquei. Depois isso começa a doe.
–Mas você estava com algum dente estragado?
–Tinha dois, mas pra ranca é mais barato que pra ruma. – ela falava com a boca murcha.
–Mas Maria, deve ter doído.
–Nada, ele dá nestresia né. Dói um poco depois, fica bem inchado, mais e eu já encomendei logo a perereca, daqui uns dia ta pronta. Tem que desincha mesmo, ai é o tempo de coloca, depois vai fica bão.
Eu não consegui dar minha opinião a respeito. Fiquei parada, pensando enquanto ela coava o café. Nunca mais esqueci este episódio, e conto sempre que posso, pois trata-se da realidade do nosso país, de um povo simples.
Acreditem se quiser, mais tarde descobri que daquele dia em diante, Maria faria parte de um grupo de pessoas com outro status, pois quem arranca os dentes e coloca dentadura, tem boas economias para fazer este tipo de “regalias”.
Bya Naue
Enviado por Bya Naue em 17/10/2005
Código do texto: T60591
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Sobre a autora
Bya Naue
Anápolis - Goiás - Brasil, 49 anos
9 textos (410 leituras)
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Bya Naue