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"O BRINCO"

Havia dois meses que dia após dia eu esperava por ela em frente ao meu portão. No começo disfarçava minha presença. Ficava ali como quem não quer nada, observando o tempo e a natureza. Depois escancarei de vez e quando eu a via chegar, não mais escondia o brilho no olhar e a felicidade que se apossava de mim. Ela não andava, ela desfilava pela calçada, seu requebrado de cintura me deixava zonzo, ela empinava os seios e a bunda volumosa, ao mesmo tempo, que empinava o nariz, como se fosse um exercício de corpo decorado. No princípio nem um olhar. No terceiro dia  um pedaço de calçada quebrada vendo a minha angustia resolveu se compadecer de minha dor e sem nenhum aviso fez com que ela tropeçasse diante de mim. O susto foi tão grande, tanto pra mim como pra ela, que fiquei sem reação. Ela ali, caída e frágil, gemendo de dor, e eu estupefato sem saber o que fazer.Até que por si só ela se levantou e partiu. Você não vai acreditar se eu disser que continuei ali parado, vai? Pois é, fiquei. Eu, logo eu, famoso por ter sempre algo a falar, mesmo que o que eu diga nem sempre tenha algo a ver, fiquei ali parado e gélido como uma estátua. Levei meia hora para me refazer e conseguir levantar e voltar para dentro de minha casa. Entrei para o banho e me martirizei por mais quarenta minutos pensando em tudo que poderia ter feito ou  ter dito. Terminei presenteando a mim mesmo com a alcunha de “idiota”. Como pude deixar passar uma oportunidade destas? Nunca mais terei outra chance, nunca mais. E a vergonha, então? Nem me ofereci para ajudar a moça. Certamente ela deve estar pensando que sou o homem  mais  mal educado do planeta.
Dia seguinte, mesmo horário. Eu lá, agachado, arrumando a calçada. Lá vem ela mais bonita do que sempre. Digo a mim mesmo: - Não vou nem olhar. Ao se aproximar ela para, me olha nos olhos, diz:- bom-dia e pergunta o meu nome. Dessa vez não excitei disse-lhe o meu nome e perguntei o dela.- Priscila. O nome dela era Priscila. Priscila me contou que na queda havia perdido um dos seus brincos que muito gostava, uma jóia de família daquelas que passa de avó pra mãe e de mãe pra filha e assim vai, e me perguntou se eu não o havia encontrado. Disse a ela que não. Ela agradeceu e mais uma vez partiu. Que droga! Mais uma vez havia perdido a oportunidade de me aproximar de Priscila. Maldito brinco, bem que eu podia ter tido pelo menos a competência de tê-lo achado.  Pelo menos isso agora eu já sabia. Ela se chamava Priscila. Fiquei tentando remendar aquela calçada durante um bom tempo, quando a minha inabilidade de pedreiro me convenceu que para que eu pudesse consertar a calçada seria necessário acabar de quebrar boa parte da mesma. Lá fui eu, me sentindo um verdadeiro demolidor de calçadas, entrando em minha casa para buscar uma marreta que meu tio havia esquecido. Depois de procurar muito, encontro a pesada ferramenta. Volto para a calçada e depois de realizar uma concentração digna de um monge siberiano dou a primeira pancada. Voou pedaço de pedra e cimento pra todo lado. Até que enfim havia conseguido acertar uma porrada de jeito. Mas o que isso no meio do entulho? Tem uma coisa brilhante ali. Nossa! Era o brinco da moça que eu havia acabado de transformar em pelo menos uns duzentos mil pedacinhos.
Sergio Cortes
Enviado por Sergio Cortes em 24/10/2005
Reeditado em 26/10/2005
Código do texto: T63023
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Sobre o autor
Sergio Cortes
Uberaba - Minas Gerais - Brasil, 53 anos
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Sergio Cortes