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o (des)encontro de Serginho e Anamaria

                                                                                                      Ela era, sem dúvida, a prostituta mais bonita que frequentava o "cabaret" Almanara, a última casa noturna a se fechar nas madrugadas da Belo Horizonte/anos 60. Por isto mesmo, alí se encontravam,apartir das 2 hs da madrugada, todos os profissionais da noite, depois de sairem de seu trabalho e tambem os notívagos curiosos por verem de perto esses profissionais sem seus uniformes(fantasias ou maquiagens). vestidos como pessoas comuns;Eram garçons,maitres,manobreiros,músicos,prostitutas,rufiões,gigolôs,toda a "fauna" do submundo que era a vida noturna da cidade.
O Almanara era uma espécie de vitrine para todos eles;
Ali, os músicos e cantores esqueciam o cansaço de uma longa  noite de shows e se apresentavam em “canjas”(gratuitamente) se misturando com o grupo fixo da casa, até chamarem a atenção da pessoa que lhes interessava, que podia ser ,um Empresário de Shows, um concorrente de outro grupo mais famoso em visita á cidade, ou a prostituta linda, cujos olhares de promessa se cruzaram com os seus,  por entre a densa nuvem de fumaça de cigarros que infestava o Almanara.(Até o Luiz, "maitre" da casa, com seu topete exagerado, seu nariz adunco,seu olhar de peixe-morto  e seu "smocking" rôto, parecia um personagem de Fellini, interpretando os tangos de Gardel.)
      Era neste último caso que se incluía Serginho, um cantor iniciante de pouco mais de dezoito anos, que há pouco tempo descobrira este lado “underground” da noite de B. Horizonte/anos 60.
Serginho era meu companheiro de bairro,filho de família humilde e deslumbrado com o “mundo artístico”, como dizia e se aproximou de mim por saber que eu como músico, tinha passe livre nos lugares noturnos da cidade, onde ele acabava também se tornando conhecido por ser um rapaz boa pinta, muito educado, moreno de cabelos anelados, com um físico que aparentava ter mais idade do que seus pouco mais de dezoito anos e uma voz privilegiada de tenor. Saiamos juntos pra atuar na noite, cada um pro seu lado e nos encontrávamos quase todo fim de madrugada na muvuca do Almanara.
Serginho era também um tímido por natureza e compensava este impecilho, com uma grande “cara-de-pau”,como por exemplo,cantar uma música americana sem saber a letra, inventando na hora palavras com a sonoridade dos americanos, sem saber nada do que estava falando,inclusive porque não significavam nada mesmo!
Eu, que nesta época cursava já o segundo grau e gostava muito das aulas de inglês, jamais reconheci uma palavra do inglês que Seginho cantava;  Ele era malandro;decorava a primeira frase de uma música que começava a pintar nas Rádios e inteirava com seu inglês de fundo de quintal com o mais perfeito sotaque americano; As pessoas suspeitavam que ele estava inventando,mas também ninguém podia provar e a  melodia era impecável  em interpretação cheia de personslidade;
Por isto mesmo ele era muito aplaudido ,com aplausos geralmente acompanhados de muita risada.Virava atração, na hora!
         Ela, era muito popular no meio das suas colegas de profissão por ser considerada “difícil”, inteligente e com certeza a mais bonita delas;Tinha um rosto longo,cabelos muito pretos e lisos, tinha ares de uma libaneza ,olhos negros sob espessa sobrancelha e uma ligeira olheira ,talvez pelas noites em claro, o que lhe conferia um certo ar misterioso e cinematográfico,uma boca de lábios delicados e dentes perfeitos.
     Sabiamos que se chamava Anamaria, pelo fato de ser solicitada pelas outras a todo momento, pra dar uma informação ou pra receber algum recado ou alguma fofoca;
Confesso que não foi só Serginho, o refém do olhar de Anamaria!
     O malandro,quando subia no palco pra dar uma “canja”,mudava de música assim que ela passava dançando com alguém e recorria a Vinícius de Moraes:”Eu sei que vou te amar...Por toda minha vida eu vou te amar...”
     Naquela noite, assim que terminou “Eu sei que vou te amar”, notando que Anamaria tinha parado de dançar, venceu a timidez, se aproximou dela e ficaram papeando perto do bar e daí a pouco já estavam dançando.
Serginho falava pouco e ouvia mais, embevecido pela voz e o perfume suave do pescoço dela. Não era nenhum “Royal Briar” nem nenhum daqueles perfumes vagabundos  que as profissionais do sexo costumavam usar.
Quando eu saí do palco e me dirigia ao Bar, Serginho me segurou pelo braço e disse:”Bicho, tou me mandando, hoje vou sair com a  Anamaria.
 Respondí com um sorriso e um tapinha nas costas e no fundo, com uma pontinha de inveja.
      O que se segue daqui pra frente, serginho me contou no dia seguinte...
     Saíram do Almanara, ante o olhar curioso de todos,pelo novo par que se formara na noite e seguiram a pé mesmo,porque tudo era perto, Serginho não tinha carro e as noites de B.Horizonte/anos60, eram muito mais tranqüilas e românticas que as de hoje, em qualquer lugar! Ela também se confessou atraída por ele desde que o ouviu cantar...”Eu sei que vou te amar” olhando pra ela com aquele “olhar pidão”!
     Subiram a escadaria do Hotel do prédio amarelo na rua dos Caetés. Serginho sentiu que aquela não seria uma noite qualquer e resolveu que ficaria o dia inteiro com ela ali, desde que ela também quizesse,claro.A sombra da paixão já rondava sua cabeça e alvoroçava o seu peito de debutante na vida noturna.
 Foi então que Serginho percebeu, que o céu visto atravéz da cortina na vidraça, começava a clarear e lembrou-se que não tinha o costume de dormir fora de casa, pra não preocupar sua mãe; Assaltou-lhe uma angústia por ficar entre a preocupação que daria em casa  principalmente á mãe tão atenciosa e o desejo enorme que tinha guardado por Anamaria, ali,todinha á sua disposição toda lânguida e amorosa depois dos diálogos quentes no caminho do Hotel.Telefone, naquela época só em casa de gente rica; Portanto estava num “mato sem cachorro”.
Num misto de desespero e tesão, Serginho teve a seguinte idéia:Daria uma desculpa pra Anamaria, pra poder pegar um táxi,ir até em casa,dar outra desculpa e voltar.Será que ela iria entender e aceitar?Que é que foi, amor? Perguntou ela já recostada na cama, ao notar a indecisão de Serginho;
Tem um probleminha, querida;nada importante...É que terei que pegar meus documentos em casa, porque daqui vou ter que ir com meu amigo Aécio até Sete Lagoas pra fechar um grande Show;
Mas você precisa de documentos pra isto? perguntou ela;
São cartazes de nosso Show, releases,fotos,estas coisas assim... Quero ficar com você aqui  o dia inteiro,até na hora de viajar,vou de táxi em casa, não é longe, vou rapidinho,você me espera?
     Então vai correndo, mas não demora que estou muito cansada, ta?
Serginho desceu disparado a escadaria do Hotel, pegou o primeiro táxi que passava, pensando;Vou gastar um terço do “cachet” que ganhei hoje; Daquí até minha casa,ida e volta não é tão perto assim.Mas por ela vale a pena Esperava por esta menina há muito tempo.15 minutos depois serginho chega em casa; Sua mãe já tinha feito o café pro marido que ia pro trabalho na fábrica; Meu filho, tão tarde assim? Digo, tão cedo...serginho improvisou logo outra desculpa, como quem improvisa uma letra em inglês, na hora:Pois é mãe, vou passar o dia num sítio fora da cidade com o Aécio e uns amigos;Só vim te avisar pra ficar tranquila, ta?Voltamos á noitinha;
Então ta meu filho, vai com Deus!
O táxi estava esperando na porta;Toca voando pra aquele hotel,motorista.
“voando” vai ser difícil, meu filho;Acabei de notar que um pneu furou nessa ladeira,vou ter que trocar, é rápido...Meia hora depois, Serginho desembarca na porta do hotel, de volta; pelo menos não estava com aquele peso na consciência.Nem com o tesão que sentia antes.Abre a porta do quarto , devagar pra não acordar Anamaria. E qual não foi sua surpresa, ao vê_la,banho tomado,toda arrumadinha,penteada,linda sentada na poltrona;"
     Ah, meu amor, demorou demais;Tou com vontade de ir pra minha casa, passo lá todo dia, pra não preocupar minha mãe;Outro dia a gente fica junto, tá?
     Serginho até suspirou de alívio...Pior seria se “falhasse"...foi muita adrenalina pra uma noite só!



 
Aecio Flávio
Enviado por Aecio Flávio em 30/08/2007
Reeditado em 03/09/2007
Código do texto: T630838
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Sobre o autor
Aecio Flávio
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 76 anos
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Aecio Flávio