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O secretário do diabo

Sanhaço, corruíra, galinho-da-campina, passarinhando no meu arvoredo, o sol descambando e tingindo a tarde de violeta, o cincerro anunciando a volta ao curral, o sino melancólico cantando na igrejinha. Maria fazendo o sinal da cruz na cozinha e Seu Lucas se aproximando, no seu andar miudinho, para o costumeiro bate-papo do fim do dia. Eu me refestelo a gosto na minha cadeira de balanço.
Estamos sentindo uma gastura danada porque soubemos que Zé Matias morreu afogado numa poça d’água do chafariz da encruzilhada. Vinha tão bêbado da bodega, onde comemorou o seu noivado, que caiu emborcado com a cabeça metida na água e lá ficou. Que coisa mais sem propósito! Também não houve choros, somente a vela dava conta do morto. Zé Matias, sem eira nem beira, teve fim absurdo como foi a sua vida. Bêbado inveterado, enxotado das casas, dos portões e até da própria bodega que o havia empilecado!
Seu Lucas se ajeita no banco de tronco de carnaúba, que ele sabidamente fez em frente da minha varanda, tira a palha de milho da algibeira, o fumo de rolo e o canivete e vai preparando o ambiente para o “causo”. Eu admiro o seu jeito meio sorna; parece de propósito para espicaçar minha paciência e curiosidade.
- Pois é, ele principia suspiroso, quando o diabo não vem, manda sempre o secretário... (encantada, tomo nota do ditado). Zé Matias engraçou-se com a Nereida, a filha do bodegueiro.
- Ontem à noite?
            -     Não, ele já vinha de olho nela... Passou até a se cuidar, fez a barba, lavou a roupa, deixou de beber cachaça e até tratou uma roça meio-a-meio com o Quintino. O homem estava disposto mesmo! Mas o Pinho, pai da Nereida e dono da bodega, aquele avermelhudo, de  fala grossa, cavilosa, sabe como é, não queria saber do namoro da filha dele com um tipo pinguço que nem o Zé Matias. Andava espalhando que a filha dele era de mais valia. A moça ficou braba e disse que o Zé tinha parado de beber, que estava levando a sério o compromisso e que... Quer saber de uma coisa? Perguntou ao pai – ele vem me pedir em casamento, só para provar que se endireitou. Diz que o Pinho deu risada, sacudiu o ombro e disse com desprezo: Deixa vir...
Para o rapaz não fazer feio diz que ela comprou para ele uma camisa nova e até um par de sandálias havaianas, de cor preta que ficava melhor para a ocasião.
O Zé Matias se arrumou todo, foi e... Deu no que deu.
- Que pena, recomeçou a beber?
            -     Diz a Nereida que a culpa foi do pai que começou abraçando o rapaz e logo foi colocando uma garrafa de cachaça na frente dele – Vamos brindar o noivado de vocês! Foi logo dizendo.
Diz a Nereida que o Zé ainda se esforçou, com os olhos mortiços namorando a garrafa: Não senhor, eu não bebo mais... O Pinho falou: Que besteira, homem! Só hoje, que é dia de festa! E a tentação foi demais; cada gole que o Zé dava na garrafa, diz que o coração dela chorava de tristeza. E o Pinho brindando o tempo todo: Agora o casamento de vocês dois! A festança que vou dar! A noiva bonita que você vai levar! Bebe rapaz, bebe pela bodega que vou deixar para vocês! Bebe pela casa que vou construir, pelos filhos que vão ter! – e a Nereida chorando, chorando.
Seu Lucas parou de falar por momentos e depois concluiu comovido: O Pinho foi o secretário do diabo! Mas o Zé Matias morreu feliz, cheio de cachaça de graça e de sonhos. Nem as havaianas puderam aproveitar porque o ônibus passou por cima...

Christina Cabral
Enviado por Christina Cabral em 05/09/2007
Código do texto: T639602
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Sobre a autora
Christina Cabral
Aracaju - Sergipe - Brasil, 88 anos
59 textos (5768 leituras)
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Christina Cabral