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Shakespeare em Nioaque

    O velho Zé Guasca é uma figura enrugada pelo tempo e pela tristeza de alguém saudosista e que não mais quer viver. Gosto sempre de ouvir suas histórias de condutor . Quantas boiadas estouraram; da morte de seu grande amigo, que para ele era o filho que não teve e que perdeu precocemente. As lágrimas querem rolar, mas Zé Guasca é daqueles que prefere ficar mais velho que deixar alguém vê-lo chorando; com certeza muito de suas rugas estão relacionadas às lágrimas retidas, à dura cerviz do velho e cansado condutor.
    Sempre com um pé à frente e outro atrás, picando fumo de corda ou enrolando um palheiro , com aquele rústico chapéu de palha, bem trançado, com suas abas largas, com uma fina correia de couro que parecia ajustar o sombreiro à cabeça, com uma baita faca de doze polegadas na cintura, uma boa chaira e um punhal de duplo corte que ele costumava chamar de língua-de-tatu .
    Certo dia contava a história de uma boiada de mais de dois mil bois que buscara em Aquidauana para a Fazenda Suíça, em Ivinhema. Primeiro, o sacrifício de separar a boiada na Fazenda Morro do Chapéu, próxima de um vilarejo chamado Piraputanga e mais um sofrimento para atravessar o Rio Aquidauana. Teve que jogar umas barrigadas de boi com um pouco de sangue, procurando atrair as piranhas uns cem metros rio abaixo, procurando, assim, passar com a boiada a nado.  Chegaram   a   Nioaque   três  dias depois,  debaixo  de uma intensa chuva que os obrigaram a pousar no velho pouso de   boiada   de  um  paraguaio  de nome  Pablo  Alonzo,  que ficava  no  entroncamento  que  vai  para  Maracajú. Um bom banho  e  um carreteiro  fizeram  apagar um pouco o cansaço.
    Lá fora, uma chuva torrencial caia, o que dava um dó vendo a água rolar pelo lombo dos bois a ruminar o pouco da vegetação pré-pantaneira que encontrara às margens da estrada.
    À noite o jovem Goianinho, ponteiro da comitiva de Zé Guasca, resolve se engraçar com a chiquitita  Juanita, paraguaia filha do chefe do pouso, quando nem imagina, o Caraí-Tuyá  já está com uma chumbeira carregada até a tampa em seu ouvido a dizer:
    —¿Qué quieres usted con mi hija? ¿Quieres embarazarla, muchacho?  Goianinho, com os olhos arregalados, suando frio, diz gaguejando:
    — Nã... nã... não, Senhor! Ti... tire este trabuco de cima de mim!
    — ¡Entonces, muchacho, no te acerques de mi  hija, o te quedes listo para morir!
    Foi preciso Zé Guasca, como chefe da comitiva, intervir como amigo do pequeno goiano, sendo que o velho paraguaio quase os faz colocar a boiada na estrada e tomar o rumo, mesmo de noite.
No outro dia estavam na estrada, onde o amigo goiano estava cabisbaixo. Como ponteiro , nem o berrante queria tirar das costa e usá-lo para chamar a boiada. Chico Caititu - chamado assim por causa das grandes presas - tirava o sarro na  cara  do  sofrido  ponteiro,  que  preferia  não  contestar as chacotas.
    Ouve-se um galopar desenfreado, era um paraguaizinho que  vinha  montado  em  uma  égua  magricela  que o goiano reconheceu  na  hora  ser   o   irmão  de  Juanita,  a  paraguaia amada.
    — Que foi Juan? Pergunta o Goianinho.
    O menino estava ofegante, até parecendo que era ele que estava correndo e não a égua magricela.
    — Mi hermana Juanita pidió para entregar esto para usted.
Era um bilhete mal-escrito em um simples espanhol, que por mais que fosse em um português claro, Goianinho jamais compreenderia, porque não sabia ler. Enquanto o menino regressava a Nioaque, o goiano olha para Zé Guasca, como bom patrão e amigo e era a pessoa que confiava.
    — Já entendi Goianinho. Você quer que eu leia para você, não é?
    — Sim Sinhô, Seu Zé!
    Pega o bilhete e antes de abrir quis lhe dar um conselho:
    — Goiano!? Você tem idade para ser meu filho. O que fez com que ele balançasse a cabeça concordando. __Tire esta paraguaia de sua cabeça! Você viu a mulher pela primeira vez, não conhece, não sabe quem é sua família, além do mais é paraguaia, não que eu tenha nada contra os paraguaios, mas eles têm uma raiva de nós que é uma coisa de louco; dizia meu pai que foi por causa de uma guerra que nós ganhamos deles.
    — O problema, Seu Zé, - diz o pequeno goiano - é que eu gosto daquela chica. Goianinho já adotara um dos termos castelhanos.
    — Bem, a vida é sua, faça  o  que quiser. Abriu o bilhete começou a ler:

    Fernando (Era assim que se chamava o Goiano.)

   Me gusté mucho de usted, pero mi papá es un caray muy bravo. Estoy prometida a un paraguayo matador y yo no me gusta de él. Si usted le gusta de mi persona estaré a le esperar.
                                                                                                             Su paraguayita Juanita


    Um sorriso se entreabriu nos lábios do goiano. Ao mesmo tempo em que olhava a pequena nuvem de poeira que a égua magricela de Juan levantava a longa distância, perguntava-se o que fazer: abandonar Zé Guasca sem ponteiro e voltar, jamais; pedir para voltar só para garantir a Juanita que voltaria, poderia correr risco de vida e comprometer a “futura união”. As dúvidas eram muitas. E se ela achar que eu não vou voltar, pode até se casar com o paraguaio mal-acabado . Ao mesmo tempo em que as dúvidas pairavam em seu simples coração de boiadeiro, conseguia abrir a boca e cantar uma música apaixonada:

    Se eu fosse um passarinho
    Queria voar no espaço
    E pousar de vagarinho
    Na voltinha dos teus braços (...).
    — Calma,  Goiano!   Dizia  Chico  Caititu, com aquelas presas  amareladas. — Ela  num  vai   fugi  não  homi,  fique tranqüilo.
    — Pode crer, Zé, não pouso  nem uma noite na Fazenda Suíça. Vou buscar a minha chica o mais rápido possível.
    — Cuidado, Goiano! Num vai deixá a carcaça naquele cemitério de múmias da guerra. Esses Paraguai véio têm uma palavra que é um tiro: disparó, ninguém pega!
    — Que nada, Zé! Jogo a chica na garupa da minha mula e chego à bicha na roseta . Até o paraguaio velho pegar aquela égua velha, estarei chegando em Maracajú.
    Zé Caititu revolteia a guasca dá um estalo que ecoa nos paredões da Serra de Maracajú, dizendo:
    — Vamos  Goiano! Corre  na  ponta e toca esse berrante que você fica livre de nóis e desses chifrudos pra ir encontrá com tua china.
    — China não Zé! China é bugra velha. Eu sempre digo chica que significa “pequena”. É uma maneira carinhosa de chamar a namorada no Paraguai.
    Os dias passaram. Cruzaram a Serra de Maracajú, passando por Rio Brilhante, Vila São Pedro e outras, Fátima do Sul, Vicentina, Glória de Dourados, Deodápolis e, finalmente Ivinhema. Vinte e um dias na estrada. Sol, chuva, frio. Bois amuados, encalhados, doentes. Foicinha, o mais jovem boiadeiro da turma cuidava destes e sempre almoçava mais tarde, tomava banho mais tarde, mas nunca reclamava; era um pobre coitado, tão jovem, tendo todo um futuro pela frente e se apaixonou por essa profissão sofrida e sem futuro, dizia Zé Guasca.
    Pousaram  a  última  noite  no   Pouso  de boiada  do Zé
Paraná, já em Ivinhema. Para Goianinho, parecia que não ia mais acabar aquela noite.
    Seu Aristides, proprietário da fazenda chega nos barracos e diz:
    — Mandei sangrar uma rês das boas para esperar vocês com uma festa. O pessoal da Fazenda Carro Velho e a Boi Guampudo vão para lá receber vocês.
    Todos vibraram, mas para Goianinho nada chamava tanto a atenção que o regresso a Nioaque, para buscar sua paraguaia. Portanto, pede a Zé Guasca que interceda junto a Seu Aristides para um lugar na fazenda, para viver com sua Juanita. Zé Guasca diz que pode tentar, mas que não garante nada.
No  outro  dia,  antes  de  tirar  o  gado  do  Pouso do Zé Paraná, Zé Guasca dá um toque no ombro do goiano e diz:
    — Você é um homem de sorte! Seu Aristides me perguntou se você entende bem de gado ou se só sabe conduzir. Afirmei que entende bem dessa lida, mesmo nunca tendo visto você tirar um copo de leite, por exemplo.
    — Faz um bom tempo que não faço isto Seu Zé, mas quem sabe não desaprende, perde o costume, e com o tempo tudo volta ao normal.
    — Bem, então Deus te guie, porque o velho Aristides disse que tem uma casinha para você e que te ajuda a comprar os trem de cozinha.
    — Então vamos soltar essa boiada na estrada que eu estou louco para buscar minha chica.
Abriu a porteira, saltou no lombo da mula, tirou o berrante das costas e tocou como nunca. Os colegas de lida olharam uns  para os outros... Seu Zé Guasca ergue um pouco o chapéu e diz:
    — Que  Deus  abençoe!  Mas  não gosto nenhum pouco disso.
À tarde, por volta das 15:00 horas estavam adentrando a Fazenda Suíça. Logo avistaram a sede e uma barraca feita de lona. Tudo estava pronto. Jogaram a boiada na mangueira, contaram, apenas um boi perdido, foi mordido por uma cascavel e veio a morrer.
    Tomaram um banho, e logo começaram a chegar os visitantes das duas fazendas próximas. Conceição, filha do capataz da Fazenda Carro Velho, menina linda, queimada pelo sol, porém meiga e pura, se engraça pelo goiano, mas ele não deu atenção para a adolescente, seu amor era todo pela paraguaia. Não  quis   dançar,  comeu   pouco   também  e  foi dormir para levantar cedinho e buscar a sua amada, dizendo no outro dia que em quinze dias estaria de volta.
No estradão foi pensando como faria:
    — Fico uns dias na pousada de Seu Honório e à noite vou a Nioaque tentar falar com minha pequena. Chegando na pousada, não agüentou. Logo na primeira noite resolveu ir à cidade, o que foi alertado por Seu Honório:
    — Cuidado meu filho! Aqui, estranhos não têm vez.
    — Fique tranqüilo, Seu Honório! Não vou me meter em confusão.
    — Isso é bom! Fique vivo! E tem mais, não se engrace com filhas de paraguaios, eles não gostam de nós.
Isso é ruim, pensava o Goiano. Mas a vontade de reencontrar com a amada não o intimidava. Avistou de longe a casa do Seu Pablo Alonzo, o “futuro sogro”. Apeou, seguiu a pé, procurando  não  dar  nenhum  alarde  e  encontrou Juan fazendo arte de menino, pegando vaga-lumes e colocando em um pequeno vidro.
    — Juan! Disse em uma voz sussurrada. __ Sou eu, o Goianinho!
    — ¡Hombre  de Dios! ¿Qué  quieres Usted acá? Mi papá no gusta ningún poquito de brasileños,  ni que nosotros aprendan la lengua de Ustedes, ni que casemos con brasileños.
    — Fale baixo, Juan! Alguém pode escutar! Chame sua irmã e diga que eu estou lhe esperando.
    — ¡Usted es loco! Me voy a llamar, pero no dejes que mi papá encuentre Usted acá con mi hermana.
Juan some na escuridão, quinze minutos depois volta com  sua  irmã. Juanita tremia dos pés à cabeça, mas o sorriso
se destacava mesmo na escuridão, porque os dentes eram muito brancos.
    — ¿Es Usted Fernando? ¡Mi corazón parece que va salir por mi boca! No acredité en Usted. Mi papá marcó mis bodas con un paraguayo viejo que ya abandonó otras dos hijas de otros, y yo no quiero ser la próxima. Llevadme contigo, Fernando.
As palavras saiam com ímpeto pelo fato de ter encontrado o seu amado e pela chance de não se ver casada com o tal paraguaio.
    — Pra quando está marcado este casamento, Juanita?
    — Para setiembre, 05 de setiembre, de acá hasta una semana sólo.
    — Não fique desesperada, amanhã à noite fugiremos.
    — ¿Mañana? ¡Dios mío! Entonces tengo que arreglar mis cosas esta noche.
    — Sim…
    Juan chama sussurrado no meio da escuridão:
    — ¡Juanita, alguien viene!
    — ¡Mañana,  cuando mi papá acostar, yo estaré acá! A las diez de la noche . Disse Juanita, dando um beijo de leve no rosto  do amado. Ouve-se  na escuridão a voz estridente de José de Echeverría, o paraguaio a quem Juanita estava prometida:
    — ¿Quién estaba con Usted, Juanita? ¿Y, que estáis haciendo en esta oscuridad?
    — ¡Estaba a procurar luciérnagas con Juan!  Dizia com a voz já trêmula.
    — ¿Luciérnagas? ¡Una chica que se va a casar conmigo  no  se  puede vivir  cazando  luciérnaga por ahí! ¡Y aún charlando con esos insectos!
    Juanita pensava que estava livre de seu antagonista. Tudo pronto. No outro dia à noite, o Goiano estava impaciente ao pé de um palanque de cerca a esperar por sua amada. Porém, um tiro ecoou na escuridão e um grito agudo se ouviu. De um sobre-salto, Goianinho sem fôlego correu ao encontro de aonde viera o grito. Poderia ser apenas um pesadelo, mas o goiano estava acordado e com sua amada arquejando em seus braços.
    Todos da casa de Juanita correram e encontraram o Goianinho tentando inutilmente acordar do sono eterno a sua amada. Don Pablo Alonzo ficou quase que louco quando reconheceu o goiano e queria buscar uma arma para matá-lo. Arrancaram Juanita dos braços do goiano, amarraram-no e levaram o corpo sem vida da bela paraguaia. O Goianinho foi levado para a prisão  como  sendo o autor do crime. Juan, que presenciou  o  encontro  na noite  anterior, contou  com muito medo ao pai.
    — ¡Entonces no fue el brasileño que mató mi hija!
    — ¡No  papá! Creo que fue Don José. Él encuentró con Juanita después que el brasileño se fue.
Todos foram em busca de José de Echeverría, aonde o encontraram em sua casa arrumando sua montaria para fugir. Tentou montar, mas se viu cercado com várias armas apontadas para ele.
    — ¿Fue Usted que mató nuestra hermana?  Perguntava o irmão mais velho.
    — No soy hombre de llevar guampas.
Todos apontaram suas armas para o assassino e dispararam. Um segundo corpo estava ali para ser velado.Foram até a delegacia e disseram ao delegado que o assassino já havia pagado com sua própria vida.
    — Mas o Goiano está aqui, dizia o delegado.
    — Liberte el hombre, doctor. Él no hizo nada a nadie. Quien mató nuestra hermana fue José de Echeverría, pero ya está muerto.
    — Bem - disse o delegado – Se é assim, não tenho porque manter o homem preso. A comunidade só estava esperando um momento para se fazer justiça.
    Libertou o Goiano que já havia chorado muito, que já havia apanhado muito e que não via motivo para estar solto, já que não tinha mais a sua amada.
    Foi direto para a casa de Seu Pablo Alonzo, o que não foi impedido de ver sua amada inerte no caixão. O choro veio mais uma vez.
    — Seria  melhor  que  você  tivesse  casado  com aquele louco, do que estar morta agora. Dizia o Goianinho inconsolado.
    Alguém lhe bate no ombro e diz:
    — ¡Es  mejor  que  esté  muerta  que  casada  con aquél animal!
No outro dia o cortejo saiu. Triste, muito mais triste que qualquer outro. O Goiano pegou a sua mula e acompanhou o cortejo montado nela. Depois do sepultamento, todos saíram, menos o goiano. Algo terrível pairava em sua cabeça. Pegou  o  laço,  amarrou  na chincha, jogou por sobre um galho de um cinamomo, passou a laçada sobre o pescoço, ficou   em   pé   sobre   o   lombo   da   mula  e  deu  um  grito esporeando o seu pescoço. A mula sentindo a dor arrancou e seu corpo caiu. Alguns correram para tentar salvá-lo, mas foi muito tarde. Sepultaram-no ao lado da amada a mando de Seu Pablo Alonzo.
Repetiu-se a temática shakespeariana. Mais um amor tão lindo foi interrompido pela ignorância do ser humano.
    Em Nioaque, as famílias paraguaias se reuniram. Alguns pais reconheciam que era uma grande besteira evitar que seus filhos se casassem com brasileiros. A maioria absoluta dos que ali estavam resolveram deixar seus filhos livres para se casarem com quem queriam.
    Quantos não foram os jovens paraguaios e brasileiros que vibraram com a notícia. A partir daquele ano, a cara de Nioaque passou a ficar mestiça.
    Todos os anos jovens e velhos vão levar flores à sepultura   dos   dois,  num   gesto   de  ternura,  onde  muitos dizem: Ellos no murieron en vano, la semilla hes nacer una sociedad  más  justa  donde  brasileños  y  paraguayos hacen nacer un Mato Grosso do Sul más bello con esta mezcla.   E o velho Zé Guasca? Não quis mais conduzir. Não encostou a sela. Comprou uma pequena chácara e foi domar burros bravos para as fazendas locais, muito embora sua coluna vertebral já não contribuía com aquela prática.
Costumava dizer:
    — Meu Velho Pai dizia: “Se a semente não morrer, ela fica sozinha, mas se ela morrer vai produzir muito”. Creio que foi assim com o Goiano.
    Já não temos condutores de boiada, goianos tocando berrantes, os desdentados Chicos Caititus estalando suas guascas, não temos as histórias de galpão, não temos cheiro de poeira nem de bosta e urina de vaca exalando no ar nestas estradas da vida...

Aldair Lucas
Enviado por Aldair Lucas em 12/09/2007
Reeditado em 30/09/2009
Código do texto: T648660
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Aldair Lucas
Amambai - Mato Grosso do Sul - Brasil, 50 anos
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