Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Fogo corredor ou loperê?

Resumo: História dos “loperês” - riquezas em metais e pedrarias preciosas que, segundo dizem, foi mandado enterrar pelo ditador paraguaio na época da Guerra do Paraguai e que muitos acreditam e buscam ficar ricos encontrando estas riquezas. Neste conto um determinado cidadão encontra um “guardado” ou “loperê”. Segundo os paraguaios a palavra loperê significa “era do Lopez".

     
Na região de fronteira do Brasil com o Paraguai, creio que pelo fato dos exércitos brasileiro e paraguaio sepultarem seus mortos em campo aberto – ninguém “perdia” o tempo em levar corpos e mais corpos para sepultar organizadamente em um cemitério -, e ainda pelo fato das cidades mais antigas, por falta de um cemitério organizado ou ainda pelas longas distâncias de algumas propriedades dos pequenos núcleos urbanos, terminavam por criar um cemitério particular, cada um em sua respectiva propriedade. Portanto, é comum ao andarmos pela zona rural desses municípios fronteiriços, nos depararmos com velhas sepulturas, algumas desmoronando, aparecendo alguns restos de ossos, outras, um tanto cuidadas, principalmente quando é pós Dia de Finados.
     Bem, até aí tudo bem. O fato é que até hoje, algumas pessoas mais antigas - e mais jovens também, mas sem instrução – acreditam em um tal Fogo corredor. Dizem eles que são almas penadas que fizeram algo de muito ruim e que agora correm atrás das pessoas, sendo que alguns dizem que ainda é para fazer o mal àqueles que estão vivos; outros dizem que na realidade essas pessoas querem é pedir perdão ou pedir para rezar uma missa, pois ainda estão no purgatório; pelo sim, pelo não, ninguém espera para saber o que a tal alma penada quer.
     Leonardo, sobrinho de um fazendeiro conhecido como Seu Pedro Bombachas, - levava este apelido porque só vivia em seus trajes gauchescos – sobrinho este estudioso como ele só, tentou tirar da cabeça de seu tio que o que ocorrera há setenta anos atrás foi apenas um fogo-fátuo¬ – uma espécie de fogo espontâneo que sai de sepulturas quando faz poucos dias que o corpo foi sepultado e está num processo de decomposição, ou ainda em pântanos, quando alguns gases saem do interior da terra em decorrência de madeiras e folhas em estágio avançado de decomposição e se inflamam ao entrar em contato com a atmosfera. Até hoje Seu Pedro Bombachas manda rezar um missa todo ano para aquele capataz de seu pai.
   — Mas bah, tchê! Tu não conheceste aquele galdério velho! Cortava os ervateiros com sua guasca quando eles não atingiam a cota do Velho Pai! Os lombos dos pobres negros e mesmo daqueles que não eram negros eram quase que tirados a guascadas, tudo isso depois de carregar alguns raídos no decorrer do dia. Foi então que os machos não agüentando a tirania do índio velho, armaram uma tocaia e costuraram ele a base de machete de cortar erva. Era cedo, deu tempo para todos fugirem. Só à noitinha, meu pai saiu com uns capangas atrás dos ervateiros e do Velho Barba Bartô, assim conhecido. Encontrou o corpo do pobre velho triturado por machetadas  e simplesmente não encontraram mais ninguém. Minha mãe, muito caridosa, sempre dizia para que meu pai pedisse o Velho Barba aliviar a carga e os castigos ou teríamos uma rebelião. Quando encontraram o corpo do capataz a velha mãe calou-se e não tinha coragem de olhar na cara do meu velho. O corpo foi sepultado e sempre levávamos flores à sepultura e certo dia minha mãe me mandou e foi ai que uma espécie de fogo saiu da cova e veio em minha direção. Ninguém queria mais levar flores, foi então que o Velho Pai chamou de Ponta Porã o Padre Zeferino para rezar uma missa para o capataz para que ele não  azucrinasse  mais  a  ninguém.  Até  hoje,  todos  os anos peço para rezar uma missa para o velho capataz.
     — Bom tio, acredite no que o senhor quiser, para mim não passa de um fogo-fátuo. O corpo do capataz estava em decomposição e aconteceu o tal fato.
     Bem, a história continua. O nono Lino, pai de Seu Pedro Bombachas – com seus noventa e quatro anos – já dizia que era loperê.
     — Mas o que é um loperê, Nono?
     — Tá vendo, estes guris de hoje não sabem mais nada. Se debandam para as cidades e ficam chucros  e guaipecas.  Loperê são riquezas enterradas, onde têm elas sempre surgem esses fogos, anunciando para a pessoa que vai passando para desenterrá-las.
     — Mas, Nono!... O que é que tem há ver a sepultura do Velho Barba Bartô com o tal do loperê?
     — Outra coisa que tu não sabes! O Velho Barba tinha a boca cheia de ouro e achei que não deveria tirá-los, pensei que poderia ser que o capataz velho pudesse vir fazer algum mal para a nossa família!
     — Quanta superstição, Nono! Vamos lá tirar o ouro. Morto não precisa mais disso.
     — Enquanto eu estiver vivo, a resposta vai ser não. Além do mais, isso é profanação de sepultura, fere as leis dos homens.
     Já Matias, o bisneto caçula de sete anos, sempre pedia ao Nono Lino que contasse uma nova história e lá se ia o velho, todo lúcido, a contar suas narrativas:
     — João Peba se mudou para a Fazenda Fundão com sua prenda Dona Clotilde e sempre dizia que aquela estância, pelos  seus  cálculos, tinha passado o  López  e  sua mulher, a Madame Linch, fugindo das tropas brasileiras e, para aliviar o peso das cargas que levavam, resolveram enterrar um baú cheio de peças de ouro que era da esposa do ditador paraguaio. João Peba recebeu de fonte segura, segundo ele, a informação que um dos baús estava enterrado debaixo de uma pedra na propriedade que cuidava. Sempre em noites escuras, ele e a mulher iam a busca do tal loperê enterrado ali, na tentativa de encontrar o tal baú. Todo mundo dizia que ele era um maluco e que ainda iria se deparar com a alma do López e de seus generais. Certo dia, o leiteiro que sempre pegava o leite da Fazenda Fundão me questionou se o João Peba e a Dona Clotilde tinham viajado e eu disse que não, quando acontecia deles viajarem, sempre pediam para nós vigiarmos a fazenda. O leiteiro, continuando, disse que o leite não estava no local e que a casa estava fechada e sem sinal deles. Demos um galope até a casa do João e encontramos tudo fechado. Com uma faca conseguimos abrir uma janela, pulamos para o interior e achamos um mapa da fazenda todo sinalizado a lápis determinados locais da propriedade, já meio sujo sobre uma mesa toda ensebada de vela. Pegamos o mapa e fomos ao local mais próximo sinalizado encontramos um buraco; dali fomos ao local sinalizado mais perto e também encontramos um outro buraco, fizemos isso com os vários locais sinalizados no mapa e encontramos buracos; a Fazenda Fundão deveria ser chamada dali para frente de Fazenda Queijão, pois mais parecia um queijo suíço. Quando o sol estava quase a pino, encontramos o que nos deixou boquiabertos: um buraco como todos os outros, com uma diferença: tinha um pé-de-cabra ao lado, uma marreta e um cadeado  diferente   de   todos   os    que   nós    conhecíamos, quebrado, parecia ser de bronze e todo sujo de barro. Saíram com alguma coisa arrastando pelo meio do pasto e parecia meio pesado, pois fazia um sulco no meio da grama. Encontramos uns galhos cortados, parecendo que ele escondeu o que achou e só foi pegar no outro dia. Encontramos ali também, para uma surpresa ainda maior, um velho baú de metal, todo sujo, vazio, é claro. Acreditamos, sem dúvidas, que ele achou o loperê que buscava, pois não levou nada de sua casa. Anoiteceu e não amanheceu. O proprietário da Fazenda Fundão ficou triste e desolado, mas sabia que se o João Peba tinha encontrado o tal baú, este estaria nas mãos certas, pois era um pobre homem.
     — Bem, e João Peba??? Por que João acrescentado deste nome “Peba”? __ Perguntou Matias.
     — Era porque João tinha umas unhas todas encardidas, parecendo as de um peba mesmo. __ Respondeu o Nono.
     — Mas afinal de contas é loperê ou fogo-corredor, Nono?
     — Mas pára, tchê! Que importa?!!! Agora o que importa é que o João Peba deve ser João Tatu-Galinha, João Tatu-Canastra. Quer dizer, talvez o galdério velho deva ser qualquer outro bicho que não cave, menos tatu...
     — Muito dez Nono! Quando é que vais contar outra?
     — Quando tu fores buscar um toco de vela lá na cova do Velho Barba Bartô!!!
     — Oh lôco, Nono! Aí cê pegou pesado...
Aldair Lucas
Enviado por Aldair Lucas em 13/09/2007
Reeditado em 12/02/2011
Código do texto: T650199
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Aldair Lucas
Amambai - Mato Grosso do Sul - Brasil, 50 anos
48 textos (3747 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 21/10/17 19:36)
Aldair Lucas