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Águas lentas, vida lenta

     Águas lentas e sem ruído quase algum que seja, são aquelas do Rio Aquidauana em tempos de seca. Cinco quilômetros afastados de Camisão, distrito pertencente ao município com o mesmo nome, morava Seu Pedro, viúvo, pescador, sem vício algum, a não ser o terere que sorvia sem água gelada, pois não tinha energia em sua cabana. Sul-mato-grossense, aquidauanense até o rasto. Dizia que a solidão não era maior porque a viola-de-cocho lhe fazia companhia, herança do pai corumbaense. Quando alguém chegava a sua cabana, sempre pedia para que ele tocasse o tal instrumento, o que timidamente sempre atendia. Não tocava algumas músicas na presença de quem quer que fosse. Diziam que essas ele cantava com sua falecida patroa.
     Plantava seu roçado de arroz em uma pequena várzea do rio. Semeava milho para fazer pamonhas, curau, bolos e outros tipos alimentares. Quando secava, o milho era para os porcos e as galinhas. Tudo em sua casinha era improvisado. Levantava junto com as galinhas. Passava uma água no rosto para espantar o sono, fazia o café, passava no taio da cara – como ele mesmo dizia - e partia para a roça. Trabalhava até umas nove e meia, dez horas. Corria para casa fazia o almoço, almoçava e tirava uma pestana. Ali por umas duas da tarde dava mais um pega no cabo da enxada, puxando cobra para os pés. A cada eito que terminava tomava umas guampas de terere. Cinco horas da tarde estava em casa. No dia que dava na telha – agora “sem mulher e nem filho e nem jegue pra dar milho”- Seu Pedro esvaziava sua canoa – que sempre ele a deixava cheia de água para não ressecar – colocava sua traia de pesca e partia para os pesqueiros que só ele sabia. Sempre dizia:
     — Vô buscá uns pexinhus, pruquê já num guento mais cumê semente de galinha.
Seu Pedro contava histórias de arrepiar. Certo dia estava subindo o rio para pescar e ouviu que os pássaros pararam de cantar na mata. A experiência dizia que tinha no mínimo um quati ou um tamanduá se aproximando das margens do rio. Parou de remar e ficou mirando as bordas para ver o que aconteceria. Era uma onça pintada ainda nova, linda como ela só.
     — Vi que o bichinho num tinha a isperiência iguar uma onça véia, pruquê chegó duma veiz sem assuntá nada i começo a tomá água. Daí um poco argo medonho assucedeu. Uma sucuri saiu de dentro da água numa ligereza i sartó na coitada da oncinha. Fiquei cum dó. Num pensei nem um instante. Remei rapidim i consigui jogá uma zagaia que sempre carrego ni minha canoa. Acertei no meio du espinhaçu da cobra. Ela sortó a onça na hora e a bichinha saiu meia que se arrastanu pruquê a cobra afroxó as voltas que feiz im vorta dela. Num sei si a onça viveu. Mais fiz minha parte i ainda consigui matá a cobra i tirá u coru i vendi, num sei se foi pur duzentos cruzerus, duzentos mil cruzerus, num alembro mais, só sei dizê qui deu pra nóis cumê uns treis meis cum aquele dinheru. Hoje si a puliça pega eu com um coru di cobra eu levo é um coru daqueis.
      A cidade não era lugar apropriado para Seu Pedro. Ia aos sábados vender abobrinha, pepino, melão, mandioca, milho verde, frango caipira. Voltava sempre com a carroça vazia de seus produtos e um pouco de compras para a semana.
     — Tenho qui i com u carroça cheinha pra vortá com um poquinhu di coisa num saco. Issu mi faiz disgostá ainda mais da cidade.
A história mais assustadora de Seu Pedro é a que ele conta que estava tarrafeando num local chamado Poção do Jaú. Deixou a canoa amarrada em um canto e foi jogar a tarrafa naquele local com a água pra cima da cintura. Jogou a primeira veio duas curimbas e uma piraputanga. Ficou feliz. Levou os peixes até um puçá e voltou. Quando armou a tarrafa e rodou para jogar, sentiu uma dor terrível na perna. Um jacaré do papo amarelo tinha abocanhado sua panturrilha direita. A dor foi tanta que Seu Pedro disse não conseguir lembrar que tinha um punhal na cintura. Lutou com o bicho uns bons momentos e só depois lembrou da arma. Puxou-a num impulso e desferiu uma punhalada ditamente no momento em que este punha a cabeça para fora. Quando se sentiu livre, começou a caminhar lentamente para a margem. Olhando para a água, viu que estava toda tingida de sangue, sentiu um calafrio na coluna vertebral. Ao mesmo tempo em que viu que estava perdendo muito sangue, lembrou que o sangue atrairia piranhas. Mal sua mente encerrou tal presságio, sentiu as primeiras mordidas, duas, dez, vinte, não sabe quantas, mas muitas piranhas se banquetearam com sua batata da perna, como dizia ele. Com muito sacrifício saiu da água e conseguiu gritar por socorro. Uma senhora de nome Gerônima, viúva, da qual Seu Pedro não gostava, porque dizia que ela era feiticeira e que achava que esta teria feito uns trabalhos contra ele para que não prosperasse, ouviu os gritos e chamou seu filho Eurípides para ajudá-lo. O rapaz arriou uma carroça, enquanto isso Dona Gerônima derramava um líquido que fazia com que a ferida doesse muito. Enquanto derramava, esta proferia umas orações num linguajar quase que incompreensível.
     — Pronto! Vóis vai sará! Mais vai sofrê muncho meu fio! Dizia a velha, que não tinha tanta idade para ser mãe do Velho Pedro.
     Eurípides leva Seu Pedro para Aquidauana. Os médicos perguntaram o que foi derramado em sua perna. Sem saber o quê a benzedeira tinha aplicado, não podia responder ao médico.
     — É Velho! Não sei o que jogaram em sua perna, mas uma coisa é certa: estancou o sangue na hora e vai impedir que sua perna seja amputada por ter desinfetado da mordida do jacaré e das piranhas.
Seu Pedro teve que ir para Bauru fazer um enxerto, tirando carne das nádegas para implantar na panturrilha. Dizia que era mais dolorido ficar longe de sua palhoça e de seus animais do que a dor da própria perna.
 Quando regressa para casa, ainda mancando, encontra tudo muito limpo, bem mais limpo do que quando ele estava ali e todos os seus animais bem cuidados. Foi até à casa de Dona Gerônima e perguntou se fora ela quem tinha cuidado de seus trem e animais.
     — Seu Pedro, aprendi cum meus véios pais qui si a gente num pudé ajuntá, qui num espaie. Qui nóis temu qui sê iguarzinhu uma nuve, que quando chove móia us bão e os ruim. Tudo isso a Velha Gerônima dizia num tom calmo e bonachão.
     — Perdoa eu Dona Gerônima? Eu achei qui numa época dessas aí pra trais, eu tinha arguma arucubaca em mim, i eu achava qui tinha sido a sinhora qui tinha custurado a boca di argum sapo i interrado na minha propriedade.
     Daquele dia em diante, Seu Pedro aprendeu que não deveria fazer juízo de quem quer que fosse antes de conhecer as pessoas. Tornara-se muito amigo de Dona Gerônima e do filho Eurípides, com quem sempre saía para suas pescarias.
     — Agora! Pescaria só inriba de minha canoa. Num quero sabê di dá cumida pra jacaré nem pra piranha não.
     Até hoje sempre se vê Seu Pedro subindo o rio Aquidauana para suas pescarias. Quando não é assim, ouve-se a voz triste do velho com sua viola-de-cocho tocando ao longe. Ele e o rio. Os dois lentos, mas tocando em frente a sua história,  parecendo aquela vida besta que Carlos Drummond descreveu.
Aldair Lucas
Enviado por Aldair Lucas em 13/09/2007
Código do texto: T650204
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Sobre o autor
Aldair Lucas
Dourados - Mato Grosso do Sul - Brasil, 49 anos
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Aldair Lucas