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Peão: Um Trabalhador Rural

I.
                               Logo cedo, ainda de madrugada, Carlos levantava-se para a realização de suas tarefas cotidianas, já estava acostumado com a rotina, não tinha preguiça de sair da cama tomar um café preto, e com o chapéu na cabeça dirigir-se no sentido da mangueira, local onde era feita a ordenha das vacas, tinha de ser rápido, pois o caminhão do laticínio tinha horário e qualquer atraso o leite ficaria para trás, assim sendo, com toda a sua eficiência dava conta sozinho de vinte e cinco vacas, tendo uma produção diária de aproximadamente uns duzentos litros, mas esse resultado era no tempo das águas, verão, onde a chuva não se cansava de molhar o pasto. Com o dinheiro do leite mantinha o seu sítio, e como a cooperativa trabalhava com cotas, esforçava-se ao máximo para manter a produção em alta, assim poderia ganhar mais no tempo da seca, inverno, e para obter esse resultado mantinha uma plantação de cana e napiê, onde posteriormente era triturado para dar de ração ao gado na estiagem. Serviço braçal e sacrificante, era necessário manter as partes do corpo cobertas ao máximo, pois o contato destas folhas com a pele dava coceira, e ainda tinha a poeira da trituração para irritar as narinas.
                               Não tinha reclamações, gostava de ser e ser chamado peão, uma forma de expressão popular para designar uma certa atividade no trabalho rural, tinha orgulho, e sua vaidade era a de vestir-se como tal, usava chapéu, camisa, calça jeans e botina. Logo após a ordenha, levava o leite em latões de aço com o trator até o suporte do lado de fora da propriedade, onde o caminhão a serviço do laticínio, passava para pegar fizesse sol, chuva, frio em qualquer dia do ano, não respeitando Semana Santa ou Natal, havia de passar para alimentar os milhões de consumidores, às vezes distantes do local de produção. Após ter resolvido o serviço do leite, era hora da manutenção diária, dava uma olhada na cerca, ou então fazia alguns servicinhos de concertos dentro do sítio. Após o almoço, depois de um descanso, quando não tinha atividades extras, pois serviço em sítio dependia da época do ano e das necessidades de infra-estrutura, ia apartar os bezerros, para noutro dia fazer a ordenha das vacas, se não os bezerros tomavam todo o leite, e não seria possível ganhar o suficiente para manter o sítio, e o dinheiro da venda de bois, garrotes era para a sua sobrevivência, não era um dinheiro certo, pois dependia do comércio, tinham meses onde os preços comercializados compensavam, e outros não, assim quando o período não era propício para a venda, vendia apenas em caso de necessidade.
                               Para ir até a cidade tinha de caminhar um pouco, e o seu meio de transporte preferido era o cavalo, quando ia fazer compras, ia de camionete junto de sua esposa Mara, e neste dia aproveitavam para visitar alguns amigos e parentes, iam logo após a ordenha e voltavam antes de apartar os bezerros, às vezes almoçavam na padaria, em outras na casa de algum parente. O dinheiro ganho nesta atividade, dava-lhes um certo conforto, podiam desfrutar de tecnologias, de facilidades domiciliares, como a de ter congelador, forno de microondas, ferro de passar à vapor, vídeo cassete, mas tudo isso era conseguido com o trabalho árduo de Carlos, e não fora conseguido de uma vez, foram comprando em prestações, terminada uma entrava noutra, assim não gastava todo o dinheiro de uma vez, pois se não ficariam sem poder comprar comida, e como o negócio do campo era instável, tinham meses bons e outros menos bom, tinha vezes de alguma vaca ficar doente e precisar de medicação, ou então o raio matar animal no pasto, e isso nem sempre era possível prevenir, e mesmo com essas variações era possível ganhar dinheiro e ter uma vida digna, como se fosse um trabalhador urbano, pois por morar na zona rural, não tinha todos os benefícios de alguém na zona urbana, como também tinha custos mais altos para chegar a esses mesmos padrões.
                               Quando Carlos ia sozinho para a cidade, não perdia a oportunidade de passar na padaria, onde ficava algum tempo conversando com alguns colegas, conversavam sobre assuntos variados, desde de negócios no campo, quem estava se dando bem e quem não ia tão bem, até sobre relacionamentos conjugais era motivo de diálogos, quando os negócios fluíam de forma positiva, o ânimo era visível no rosto de cada um, mas se alguém do grupo houvesse feito algum negócio ruim, ou perdido dinheiro, o desânimo era contagiante e os discursos mais desanimadores. E no final cada um voltava a sua casa, pois no dia seguinte as tarefas iniciais eram pesadas e tinham horário para serem concluídas, e não havia pessimismo capaz de derrubar a vontade de trabalho destes peões, destes trabalhadores esquecidos nos planos de governo, esquecidos dos sindicatos, e esquecidos da grande mídia.
 
                                                                              II.
 
                               Quando o Ministro da Fazenda ia para a televisão, certamente daria uma notícia ruim, e foi o acontecido, não demorou e as conseqüências de uma crise estavam sendo sentidas no campo, os sítios foram atingidos em seus alicerces, a produção de leite, os valores das cotas caíram, os custos foram aumentando e as cooperativas alegavam não poder pagar mais, pois não podiam repassar os preços aos consumidores, e nesta situação, Carlos se viu apurado, a cada dia estava mais difícil de produzir leite, e manter os custos, era uma equação difícil de ser resolvida, mas não estava ruim somente para ele, para os seus colegas também estava, às vezes ia dormir pensando em como conseguir saudar suas dívidas, geradas devido a nova situação econômica, que até mesmo a ordenha das vacas sofreu, foi numa terça-feira, já eram quase sete horas da manhã, e ninguém estava na mangueira, quando Carlos foi se dar por conta o caminhão já havia passado, e ele teve de levar o leite até o laticínio da cooperativa, ou então teria de agüentar o prejuízo do dia, esse a situação era negativa, qualquer perda poderia ser considerada um grande prejuízo.
                               Como nunca havia falhado, Carlos ficou desorientado, ao chegar em casa selou o cavalo e foi a cidade conversar com alguns colegas para poder desabafar, encontrou Rodrigo sentado em frente a padaria, já estava a tomar uma cerveja, e aproveitando do estímulo pediu uma também:
                               _ E aí Rodrigo como vão as coisas?
                               _ Estão ruins, acho que vou ter de vender o sítio para pagar os juros no banco, essa crise elevou demais a minha dívida e o comércio está fraco demais.
                               _ Hoje foi a primeira vez que atrasei, tive de levar o leite de camionete, ou então perderia o dia. E parece que as coisas estão difíceis mesmo, ou a cooperativa aumenta o valor do leite, ou então os produtores irão a falência.
                               Desta maneira matavam o tempo e aliviavam as mágoas de poderem estar saindo de uma profissão, amada por ambos, mas era impossível continuar num negócio onde não houvesse condições de administrar, mas não se tratava somente de um negócio, era uma vida de sacrifícios, de luta, e de esperanças sendo jogado fora, algumas coisas não dependiam só deles, mas de toda uma conjuntura, onde devido a pressões externas ou internas, alguém acabava se dando mal, e quase sempre o peão, como um trabalhador rural era desprestigiado. Não passara dois meses, e os efeitos já eram sentidos drasticamente pela comunidade, era sitiantes falindo, tendo de vender seus sítios, era bóia-fria sem ter onde mais trabalhar, até mesmo o Rodrigo, colega de Carlos, não conseguiu agüentar, teve de entregar o sítio nas mãos do banco, e este o leiloou para pagar suas dívidas, e não tendo mais como sobreviver ali, mudou-se para a cidade grande, Americana onde iria tentar a sorte.
                               Ao ver seu esposo abatido, Mara foi conversar com o marido Carlos para ver se podia o consolar.
                               _ Por quê de tanta tristeza, homem?
                               _ Acho que teremos de fazer como vários de nossos colegas, vender o sítio e mudar para uma cidade grande.
                               _ Se for ter que reduzir gastos, vamos fazer economia, posso tentar vender queijo na cidade para tentar ajudar, não desista ainda meu marido!
                               _ As coisas não estão fáceis, vamos ter de vender uma parte de nosso gado, e reduzir as nossas compras.
                               _ Está tão difícil assim?
                               _ Está Mara, nem sei se agüentaremos ficar com a camionete.
                               Não demorou, e o casal teve até mesmo de dispor da camionete, para conseguirem sobreviver, venderam cinqüenta por cento de seu gado, e continuaram no negócio do leite, apenas para mandar o excedente para o laticínio, pois estavam fazendo queijo e como ainda estavam no começo, ainda não utilizavam tudo. Carlos não se conformava das mudanças serem tão bruscas, e mudar tão rápido a economia, até pouco tempo atrás podiam viver dignamente, e à partir de um determinado dia, os negócios fraquejaram até o ponto, de terem de fazer sacrifícios para sobreviverem, as vezes pensava em abandonar tudo, mas seria difícil recomeçar, tinha uma família, tinha dois filhos para sustentar, e só poderia fazer uma mudança, se realmente falisse, pois aí seria forçado a mudar de vida radicalmente, mas essa mudança ainda traria problemas, porque o seu serviço era ser peão, e não conseguia enxergar outro emprego que fosse bom. Lembra de alguns colegas que foram tentar a sorte em outros lugares, a saudade da terra é grande e o convívio na zona urbana é difícil, alguns voltam e vão até mesmo trabalhar de bóia-fria, para ao menos fazerem serviços semelhantes ao de outrora.
                               Devido à falta de bons negócios, acabava afetando o relacionamento familiar, e algumas discussões se faziam por apenas estarem passando por uma fase difícil economicamente, como os filhos estavam crescendo era constante as discussões dos gastos com a loja.
                               _ Mulher! De novo você fez gastos na loja, eu já não te disse da nossa falta de dinheiro? Esbraveja Carlos.
                               _ Sim, mas os seus filhos cresceram, o Júnior já não tem nenhuma calça que sirva.
                               _ Mas você comprou uma calça cara, Mara!
                               _ Você já está por fora dos preços, essa é a calça mais barata da loja!
                               Vendo a discussão indo para lugar algum, Carlos sai resmungando, e por mais reclamação fizesse, teria de pagar a conta no final do mês, e o problema não era porque o menino cresceu, e teve de comprar roupas novas, mas o fato de não saber se iria conseguir quitar as dívidas, pois cada vez mais os negócios do campo pareciam piores, a Cooperativa pagava pouco pelo leite, e depois vinha do estrangeiro um leite mais barato, para continuar no negócio do leite tinha de fazer investimentos, mas já estava descapitalizado, as vacas com produção maior eram caras, e o negócio incerto, o negócio do boi tinha os seus custos, e devido a crise, as pessoas compravam menos, e com isso havia excesso de produção, abaixando ainda mais os preços, e todas essas incertezas acabavam atrapalhando o relacionamento familiar, as perspectivas para o futuro, o medo do futuro não existir era grande, na verdade estavam vivendo uma época de grandes incertezas e poucas certezas.
 
                                                                              III.
 
                               O Natal já estava próximo e parecia estar também a esperança de algo melhor, depois de um período turbulento, aquele mês de dezembro estava começando a animar Carlos e Mara, pois o comércio tinha dado uma pequena reagida, e foi o primeiro mês depois da crise, poderem comprar algo além dos produtos básicos, parecia estar retornando ao normal, mas era diferente porque foram feitas algumas mudanças, e estas ocasionaram algumas perdas irreparáveis. Alguma coisa de bom pode ter ficado, tal como a importância de estarem se informando das novidades do mercado, das maneiras para enfrentar a concorrência, da importância de estar envolvido numa associação, essas foram lições aprendidas amargamente, por mudanças nas formas de comercialização, de repente o mercado teve de se adequar a novas realidades, e os comerciantes não estavam preparados, e menos ainda informados estavam, porque a cada mudança, alguém sai perdendo, e nem todo benefício o é realmente.
                               A animação era claramente visível na face do peão, pois poderia continuar onde sempre sonhou estar, e isso nada pagava, mesmo com as dificuldades ainda enfrentadas, porque a crise ainda não tinha passado, ou talvez fosse interminável com apenas alguns momentos melhores, não sabia exatamente, assim como não entendia como os laticínios tinham conseguido sobreviver, eles não produziam leite, mas sempre tinha o produto em abundância, e o consumidor sempre pagando uma conta cada vez mais alta, mesmo nos períodos de excesso, se os produtores reclamavam e os consumidores também, a indústria culpava o governo de ter impostos altos, mas não reclamava, dava a satisfação, e isso gerava um grande ponto de interrogação para Carlos, pois não achava uma resposta adequada para o episódio. Assim como o leite tinha os seus problemas, a carne de boi também, e os preços pagos aos produtores nem sempre eram o suficiente para cobrir os custos, rendia mais vender diretamente ao açougue do que ao frigorífico, o problema era ter um local adequado para abater o boi dentro das normas sanitárias, isso, fazia vários produtores aceitarem os preços dos frigoríficos, pois nem toda a produção era fácil de ser comercializada apenas num local, era necessário fazer a distribuição.
                               Mesmo com todas as dificuldades, largar essa vida seria mais difícil, pois todos os outros espaços já estavam tomados, e num mundo de conhecimentos, só daria bem quem tivesse os conhecimentos devido para executar qualquer negócio. Ainda Carlos ia a padaria, mas procurava não gastar como antes, nem mesmo seus colegas tinham vontade de gastar, quando tomavam algo, geralmente repartiam entre si. Num dia de semana, Carlos vai a padaria e encontra dois colegas.
                               _ Alfredo como tem passado? E você Rodrigo ainda está morando em Americana?
                               _ Ainda estou por lá, consegui emprego de guarda noturno, responde Rodrigo. _ Lá o aluguel é carinho, e a casa é bem pequena mas é possível viver.
                               _ Reparou na resposta amarga do Rodrigo, Carlos? Se ele pudesse estariam aqui com nós! Exclama Alfredo.
                               _ É tão ruim assim? Pergunta Carlos.
                               _ No começo é difícil, as pessoas são mais frias, é difícil de ficar conversando com os vizinhos, os muros são altos e com cachorros bravos, também tem o problema da violência, tem hora que dá vontade de largar tudo e sair correndo. Desabafa Alfredo.
                               Nesse tom de conversa foi até a hora do almoço, onde cada um foi para o rumo de sua casa, Alfredo foi para casa de sua irmã, pois estava a passeio, e Carlos retorna a sua casa, pensativo, lembrando os bons dias já vividos, sentindo falta daqueles momentos bons, e refletindo o motivo de estar tão ruim à partir de um dado momento, seria possível realmente uma mudança na economia para mexer tanto com o comércio? Ou seria o despreparo para atuar em novos tempos? Respostas essas difíceis de serem respondidas por uma só mente, seria necessário mais cabeças para se chegar perto dessas respostas, mas talvez a desorganização social não permitisse tal feito, ou as pessoas não haviam ainda entendido o sentido da organização, como a experiência vivida por ele próprio, onde pôde participar de seminários, fez alguns cursos curtos, e já se sentia um pouco mais integrado no mundo, mas mesmo assim ainda faltava-lhe conhecimentos para tirar suas próprias conclusões.
                               Ao chegar em casa, e comer seu arroz com feijão, foi arrumar o galinheiro, com o tempo produzira frangos caipiras demais, e já não havia tanto espaço, era um serviço fácil, porém demorado, era preciso uma certa paciência para concretizar a ação, e como gostava do serviço bem feito, exigia o máximo de si próprio. E vida ia continuando conforme podia, já estava começando a acreditar na possibilidade de se dar bem na vida, não era somente força de vontade, mas também as possibilidades do meio onde vivia, ou as condições eram propícias para cada cidadão ter condições de desenvolver o seu próprio negócio, ou então o futuro seria sobreviver de forma bem rústica, comendo só aquilo que produzisse. Às vezes pensava tanto, quando via o serviço já tinha acabado, e agora ia apartar os bezerros, ou seja, separar os bezerros das vacas.
 
                                                                              IV.
 
                                Chegara o tempo da seca, alguns sitiantes vendiam gado nessa época para reduzir gastos com ração, economizando pasto também, em caso de geada, se acaso acontecesse, estariam mais preparados para manter o negócio sem ter tanto prejuízo, assim, Alfredo negociara com um açougue, o abate de um boi, dentro do oferecido o açougueiro escolheu o mais gordo encomendando para o dia seguinte, logo foi acertado o negócio, Alfredo foi chamar os seus colegas de profissão para ajudarem nesta tarefa, Carlos e o Silvinha foram os escolhidos.
                               O peão Silvinha trabalhava numa fazenda nos limites do município, e tenha habilidade para abater boi, nascera nessa região, e desde menino estava acostumado com essa vida, morava na fazenda numa casa cedida pelo proprietário, não o conhecia ainda, pois como esse dono tinha várias fazendas, faltara oportunidade dele visitar em sua presença, e como o administrador era o homem de confiança, era a ele que se devia responder pelo serviço. Teve de pedir licença ao gerente da fazenda, o administrador, para executar o serviço de abate para o Alfredo, como a ordenha já tinha sido concluída pôde ir. O local marcado era no matadouro municipal, e ao chegar no local percebera a dificuldade, pois até mesmo para tirar o animal da camionete estava difícil, quando conseguiram tirar o animal, esse partiu em disparada e pulou a cerca de arame farpado, invadindo o sítio vizinho, e isso era mal sinal, até porque quando o animal ficava agitado, tinha de se esperar o abate, ou então a carne se perdia.
                               Não restou alternativa se não a de ir atrás, como Silvinha viera de cavalo, foi com este tentar cercar o animal enquanto Carlos e Alfredo vinham correndo a pé, tiveram de percorrer o bom percurso, o boi foi se misturar junto com os demais, e não estava nada fácil de separar, as tentativas eram frustradas pelo animal, quando estavam conseguindo, em disparada se ajuntava novamente com a bando, vendo não haver mais jeito, resolveram levar algumas vaca juntas, e mesmo assim estava difícil de conduzir os animais, pois volta e meia tentavam sair da rota. Tinham outro problema, o de colocar o boi dentro do estreito, onde faria a sangria, e nesse lugar não havia meios de o bicho entrar, até parecia pressentir a sua morte, e por mais esforços fizessem, só conseguiram o cansaço, como o desânimo estava grande decidiram irem almoçar na padaria, já passavam das treze horas e ficaram por lá até umas catorze horas, onde decidiram pegar firme de novo, acreditavam estar mais calmo o boi, e ao chegarem ao local de trabalho, ficaram espantados de verem como ainda o animal estava agitado, novamente não conseguiam de jeito algum o por dentro do estreito.
                               Resolveram laçar, como Silvinha era bom nisso, conseguiu na primeira tentativa de cima do cavalo, e o bicho começou a arrastar o cavalo, vendo isso, Carlos e Alfredo foram ajudar a puxar a corda, e aí foi até pior, pois o animal arrastou todos pondo em desequilíbrio Carlos, este caiu no chão derrubando Alfredo, e por pouco o cavalo não pisa em ambos, talvez a habilidade e prudência de Silvinha o fizera soltar o laço para evitar qualquer acidente mais grave, e novamente tinha o boi escapado e ido novamente aos limites do sítio do vizinho. Já se passava das dezessete horas, e nada, talvez nesse momento a melhor alternativa seria abatê-lo à bala, Alfredo pegou sua espingarda da camionete e entregou a Silvinha, para com o cavalo chegasse o mais próximo possível e o acertasse, dito e feito, na primeira o fez, e como neste momento já passava das dezoito horas, resolveram arrastar o animal e deixar no congelador do matador, para no dia seguinte desossarem, a única limpeza feita foi a de tirar as tripas.
                               No dia seguinte, após os afazeres diários, foram juntos com o açougueiro para desossarem, e novamente todos ficaram espantados, pois a carne estava escura demais, quando viram isso, não conseguiam acreditar, o trabalho de um dia inteiro estava perdido, sabiam eles da necessidade de se abater o animal em estado calmo, mas a questão em jogo, era a de dominar o boi, ele tinha ferido a honra de peão de Carlos, Alfredo e Silvinha, e ver a morte do bicho significava a vitória. Mas desta forma, a única coisa conseguida fora a raiva de não ter conseguido superar o animal, pois mesmo depois de morto, ainda estava dando a rasteira neles. Às vezes a profissão exigia certos riscos, sabiam disso, nem sempre era possível ganhar, talvez por esse sentimento, essas pessoas não largavam de maneira alguma a profissão.
 
                                                                                              V.
 
                               Novamente uma outra crise estava abatendo os peões, devido as negociações econômicas do país, os produtos do campo estavam encarecidos e isso estava fazendo os empregos aos poucos acabarem, os grandes donos de terra não precisavam produzir tanto e em conseqüência deste fato, sobrava funcionários nas fazendas, e o meio de se resolver era demiti-los, não pensavam como iriam resolver os problemas de emprego, só queriam ficar a salvos de prejuízos segundo as contas destes fazendeiros. Numa dessas demissões, o peão Silvinha sentiu na pele o sentido de estar desempregado e possivelmente impedido de vivenciar novamente a sua profissão, talvez o mais difícil era imaginar, não poder fazer mais aquilo que sempre fizera, desde garoto, toda sua experiência estava sendo trocada, por alguns reais a mais no bolso de um fazendeiro cheio de terras.
                               Após tantos anos de trabalho, não tinha casa, automóvel, recebeu apenas alguns acertos e fora embora a pé, no caminho encontra Carlos, montado em seu cavalo.
                               _ Onde vais Silvinha?
                               _ Fui mandado embora, e não tenho idéia do que farei.
                               _ Ouvi uns boatos de estarem promovendo uma invasão numa destas fazendas por aqui, essa é sua chance.
                               _ Mas eu não sou ladrão, Carlos, eu não quero entrar nas terras dos outros, cada um comprou a sua parte com grande sacrifício.
                               _ A questão não é essa, a terra deve servir as pessoas, e não o contrário, não é possível alguns deterem tanta terra sem gerar empregos!
                               _ E como faço para encontrar com essas pessoas?
                               Neste momento Carlos explica ao colega Silvinha, como deveria agir, pois pelos rumos econômicos, só os grandes iriam sobreviver e até os pequenos sitiantes ficariam desempregados, e não haveria emprego nas grandes cidades, pois o desenvolvimento tecnológico estava tão avançado, e os custos de um funcionário em comparação as máquinas era mais caro, isso fazia gerar desemprego, e a mesma filosofia de um fazendeiro, era a de um industrial, reduzir custos para não ter prejuízo, e estes custos não era levado em consideração o emprego dos seres humanos e seu desenvolvimento na sociedade. O peão após ter ouvido essa opinião, ficou um pouco mais animado, e resolvera procurar as pessoas indicadas por Carlos, agora não se tratava apenas de seu emprego, mas o desenvolvimento de uma cidade inteira.
                               Despediram-se, e cada qual foi para um sentido, Carlos já estava voltando do centro, e aproximava-se do seu Sitio quando encontra com Alfredo, este estava nervoso e começou a questionar o colega sobre os últimos acontecimentos.
                               _ Carlos! Ficastes sabendo da invasão?
                               _ Sim, estou ciente.
                               _ Não está com medo de seu sítio ser invadido?
                               _ Não, porque esse movimento não é uma quadrilha, não se trata de criminosos, mas de pessoas de bem, desempregadas e que lutam por ter uma vida digna, naquilo que sempre souberam fazer.
                               _ Mas eles vão invadir todas as propriedades! E mesmo assim você ainda os defende Carlos?
                               _ A minha situação, é a mesma da tua, algum dia os grandes fazendeiros acabarão comprando os nossos sítios, e não teremos onde trabalhar.
                               Após ouvir isso Alfredo ficou pensativo, embora não concordasse com as invasões de terra, também era crítica a economia, e nenhum sitiante pequeno estava seguro com o seu negócio, ora as cooperativas de leite exploravam pagando pouco aos produtores, ora os frigoríficos manipulavam os preços da carne no mercado, não deixando alternativas de comércio aos pequenos produtores, e uma das vantagens do movimento era a união, embora tivessem alguns espertinhos, onde só pensavam em se dar bem, mas ainda tinham vantagens por formarem um grupo influente, ou a caminho de influenciar economicamente e politicamente toda uma comunidade. Para ele era difícil de aceitar a invasão das terras, e pior pensar na possibilidade de não poder trabalhar mais onde desde criança foi acostumado, a ser um peão, e com esse tipo de pensamento, Alfredo resolveu apoiar o movimento.
                               No dia seguinte o comentário era um só, uma fazenda tinha sido invadida, tinha até aparecido a reportagem, não violência a princípio, mas os donos já estavam mobilizando a justiça, e assim que ficou sabendo, Alfredo correu para o sítio de Carlos, para saber mais informações.
                               _ Foi nessa noite?
                               _ Foi Alfredo, entraram, montaram acampamento e já estão tombando as terras.
                               _ E a polícia vai fazer alguma coisa?
                               _ A polícia segue a lei, o que o juiz determinar, ela faz.
                               _ Ainda poderá haver conflitos, Carlos?
                               _ Não acredito, pois para mobilizar a opinião pública é preciso protestar na paz.
                               Era realmente um momento crítico, e tanto Carlos, como Alfredo sabiam disso, não se tratava somente de disputar a posse de uma terra, de ser ou não produtiva, era uma questão de sobrevivência, de geração de emprego e distribuição de renda, e os problemas não parariam somente aí, porque depois teriam de ter políticas pecuárias e agrícolas para absorver a produção, e manter os empregos no campo, era um problema além do município, mas as conseqüências eram sofridas no município, e as soluções tinham de ser resolvidas ali, por isso era complicado ter uma solução, e ainda mais complicado era a falta de estrutura para se discutir esses problemas e mobilizar a opinião pública, já que a maioria vive em cidades grandes, e não conhecem as realidades do homem do campo, do peão, do trabalhador rural, enquanto os metalúrgicos, com os seus sindicatos organizados fazem greve, para o trabalhador rural, em especial ao peão, resta rezar para Nossa Senhora Aparecida, pois a sindicalização deixa a desejar, pelo principal motivo de haver falta de formação aos homens do campo.
                               Se para trabalhar em algum escritório é necessário um certo nível de formação escolar, no campo isso não é exigido, e na hora de negociar é o produtor rural, o peão que saem perdendo, produzem alimentos para os cidadãos das cidades, e sempre estão perdendo, talvez as pessoas da cidade não refletiram ainda de onde vem a comida para as manter vivas todos os dias.!
                               E assim Carlos, Alfredo e Silvinha iam tentando viver, fazendo o possível e impossível para sobreviverem num negócio de futuro, de grande retorno financeiro, mas para apenas alguns, pois nem sempre tinham o retorno do produzido, e sabiam cada vez mais, ou se organizava os negócios do campo de uma forma mais igualitária, ou então não haveria realmente um futuro. Todos os dias estavam acostumados a mexer com animais mais fortes do que eles, o boi, onde se davam bem a maioria das vezes, mas ainda não tinham conhecimento o suficiente para mexer com um animal, onde o dinheiro mandava mais, e essa seria talvez, o maior desafio, superar esse animal do dinheiro.
Marcelo Torca
Enviado por Marcelo Torca em 15/09/2007
Código do texto: T653847
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