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Final de semana insólito


  “Corre!! Vai logo, vai assim mesmo...” – Sussurrou ela se levantando rápido.
  “Assim?! Você é louca?” – Sussurrei eu em resposta.
  “Louco é você e vai logo. Se manda por aquela janela ali que tá aberta.” – Ela me empurrou em direção a janela enquanto eu tentava sem sucesso colocar a cueca.
  Coloquei minha ceroula branca e pulei a janela caindo do outro lado. Diabos. Essa janela é mais alta pulando do que vendo. Bati a bunda no chão. Mas levantei e comecei a andar no meio de um mato e de plantações de vários tipo. Comecei a me perder, fui andando para dentro do mato e estava tudo escuro. Eu ouvia barulhos de pássaros e folhas se mexendo com o vento e outros barulhos que eu preferia não ouvir. Meu pé estava cheio de espinhos e eu tinha que pisar no chão com o lado do pé. Estava ficando difícil andar. Eu batia a cabeça nos galhos e feria meu joelho e minha canela o tempo todo.
Mas por que diabo o pai da criatura tinha que aparecer justo aquela hora?! Bem na hora que a cama estava pegando fogo. No melhor a porra do velho resolveu chegar. Estavam em uma festa por que não ficaram lá mais tempo? Que caretice! E olhe que eu até que me dava bem com os velhos. Ainda por cima resolvem morar em uma chácara maluco e longe feito o inferno.
  Eu ouvi algo se arrastando no chão. Era uma mata mais aberta agora com algumas árvores frutíferas espalhadas. Eu parei gelado. Não podia ser o que eu estava pensando. E fiquei ali parado sem ter coragem nem de olhar para baixo. Eu sentia o barulho por trás de mim e chegava mais perto em uma velocidade lenta. Minha perna tremia e estava muito assustado. O que estava fazendo barulho se encostou em mim e era apenas uma folha sendo arrastada pelo vento.
  Eu me aliviei e continuei andando até tropeçar em uma raiz. Maldita raiz! Caí com as mãos no chão e em cima de uma roseira com espinhos. Minha mão estava ferida e sangrando.
  A essa altura eu já estava transbordando de raiva. Nunca pensei que fosse ficar tão feliz em ver meu carro. Ele estava lá estacionado em um caminho de terra por trás da chácara. Colocara lá para os pais da moça não verem que eu estava lá. Ela disse para eles que estava se sentindo mal para não ir a festa. Mas os velhos deram um a zero na gente e eu que paguei o parto.
  Cheguei até meu carro quase que se arrastando e me lembrei de um detalhe importantíssimo: eu não tinha a chave! Me xinguei todo por não me lembrar de pegar a chave na hora de sair e xinguei mais ainda a minha namorada por não ter me lembrado da maldita chave e por ter me apressado tanto. Agora eu estava lá. Um frio da discórdia, de cueca, todo sangrando e dolorido na frente do carro sem poder entrar.
  Aquela chácara era no meio do nada e lembrei que como o carro estava afastado, ninguém ouviria se eu quebrasse o vidro. Eu tinha a chave reserva no porta luvas e isso me salvaria. Peguei um galho grosso, forte e pesado e com toda a minha força, que esta altura era quase zero, bati contra o vidro do motorista.
  O vidro se estraçalhou facilmente e eu pulei a janela me cortando todo. Entrei no carro e abri ansiosamente o porta luva. Lá estava a chave reserva. Linda! Beijei ela e em seguida dei partida no carro.
Comecei a dirigir em direção a minha casa e quando fui pegar o som me lembrei que larguei no quarto da minha princesa. Odiava dirigir sem som, mas dentre tudo de ruim que acabara de me acontecer esse era o de menos.
  Pensava eu que já estava livre da maré de azar quando um pingo gelado me atingiu. Ai começou a chover e eu com minha burrice quebrei logo o vidro do motorista. Comecei a me tremer de frio tendo em vista a ventania e a chuva que a esta altura já estava grossa.
Mais uma vez me xinguei todo e xinguei todo mundo daquela chácara. Velhos malditos acabaram minha noite ainda fiquei todo lenhado. Meu corpo doía muito.
  Cheguei em casa e com dificuldade tomei um banho quente. As feridas ardiam demais. Deitei também com dificuldade e durmi em sono delicioso.
  No dia seguinte quase não me mexia. Peguei o telefone e liguei para a gata:
  “E aí, seus pais vão sair hoje?”
  “Vão sim, venha para cá!”
  “Não, pegue uma carona e venha dormir aqui, preciso que alguém cuide de mim. Diga que você vai para a casa de uma amiga.”
  “Ta bom. Te vejo mais tarde!”
Ela passou o final de semana todo na minha casa cuidando de mim. Me trouxe café na cama e me deu banho. Melhor final de semana da minha vida. Mesmo com as dores.


Malluco Beleza
Enviado por Malluco Beleza em 16/09/2007
Código do texto: T655049

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Sobre o autor
Malluco Beleza
Salvador - Bahia - Brasil, 31 anos
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