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A COBRA E A MANDIOCA (HIST. DO BIDÚ 1)

Senhoras e Senhores, apresento-lhes Bidú, um lindo Sergipano -Baiano, descendente de holandeses, 1,98 de altura, atlético, de queixo quadrado, charmoso e namorador e que trazia nas laterais da face o sinal característico do bom amante (orelhas grandes e duras).
Ah! Tinha belas e grandes mãos, com dedos compridos e alinhados e pés “44”.
Quando fez a sua entrada no interior da Bahia, desposou a dona Paulina, uma linda e pequenina morena descendente de índios. Com seu carinho, charme e muito amor, tratou logo de constituir sua prole: Áurea, Alice, Mara, Maria Zilda, Raildo, Raimundo, Gilson, José, Frithz, Luis Raimundo, Noélia, Nailza, Vanusa, Ana Paula, Ana Cristina, Ricardo, Alexandra, Roberto, Renato, Tamires, Tiala e Antonio Fernando (adotivo)). O Juarez, ele “fabricou” em Sergipe.
O Bidú era um grande procriador, e quando questionado, fazia pose. Colocava as mãos na cintura, ar de gostosão, e com um ligeiro sorriso no canto da boca e com a perna esquerda ligeiramente avançada e balançando, batia com o seu velho chapéu na direita e dizia: “num tem nada não! Ondi comi um, comi cem”! e tome filho! Às vezes eram dois ou mais no mesmo ano, porque, além da “comida caseira”, ele não dispensava um bom prato de “mingau...”.
Era batata, quando a dona Paulina dava a luz no início do ano, podia esperar que no final do ano chegaria outro buguelo (criança), e como é natural a um homem com estas qualidades - manhoso, charmoso, elegante, conversador (garboso) e muito vaidoso; mesmo sendo medroso, catava nas redondezas tudo o que estava a disposição, e não tinha essa de peneirar não, ele dizia que um bom comedor de farinha, comia qualquer angu, não interessava se tinha caroço ou não. Falava também que um bom caçador quando sai de casa era para buscar uma paca (espécie de roedor de grande porte e muito apreciado na região), mas se não encontrasse tinha o dever de trazer pelo menos uma preá, porque, o que importava mesmo era a panelada, e que o caçador nunca deve voltar de mãos abanando, tanto faz um tatu ou saruê (gambá), e arrematava: “pode ser gorda ou grande, nem que num ande...”, e foi por estas e outras, que por duas vezes ele teve gêmeos de mães diferentes.
Certa feita, num “verão” de matar, na hora do almoço largou a enxada com a qual carpia a roça de mandioca e se dirigiu à casa para a refeição. Depois de se alimentar, a dona Paulina e ele sentaram-se no chão da sala (piso de cimento esverdeado e tão limpo que dava para pentear os cabelos), então, ele deitou-se em seu colo com seus lindos e longos cabelos quase loiros.
Como o calor era imenso a sua linda e zelosa esposa resolveu trançar-lhes os cabelos; dividiu-os em dois e fez duas lindas tranças que foram enrodilhadas sob o velho chapéu. E assim, ele rumou para a roça de mandioca. Uma enxadada aqui, outra acolá e eis que de repente sentiu que uma cobra havia caído de alguma árvore sobre o seu pescoço. Pulou para todos os lados para se desvencilhar dela e nada.
Quanto mais pulava, mais a cobra se enrolava nele. O panavueiro foi tão grande, que destruiu toda a plantação. Quando caiu esvaído num canto, restando-lhe tão somente forças para excomungar e chorar, porque nem fôlego para gritar possuía mais, diasporado espiritualmente, e longe de Deus e de todos os Santos, inclusive de Cosme e Damião, seus fiéis protetores. Chorando de cansaço e pavor, sem uma única gota de sangue, todo trêmulo, e com o coração saindo pela boca seca, conseguiu verificar que ainda estava vivo, e que a “miserenta” da cobra havia se afeiçoado com ele, pois estava quieta e repousando sobre seus ombros e com os cuidados característicos dos apavorados, sem se mexer nem um milímetro, foi virando os olhos, até quase desloca-los aos ouvidos, onde percebeu que a tal cobra nada mais era que suas lindas tranças que haviam se desprendido do chapéu; imediatamente recuperou o seu título de macho, e ainda deitado (caído) na mesma posição, berrou: “Mulher do Kabrunco” (KABRUNCO – UMA ESPÉCIE DE DEMÔNIO), apesar de bela, vistosa e amada por mim, vou lhe matar... cuma é que vosmicê faz uma disgrameira dessas comigo... quase acabou com a minha vida, e chorando, e limpando os prantos que se derramavam cara a baixo com a fralda da camisa, se apresentou em casa, verde e ainda trêmulo.
O Bidú era uma figura impar. Berrava numa imensidão que, quem não o conhecia achava que ele era o homem mais bravo e violento da terra. Não era nada disso. Era só lhe dá uma flor que se derretia todo.
Quando a dona Paulina o viu embocar casa adentro, fora de hora, se assustou um pouco e logo pensou que ele havia se acidentado na roça, mas, fazendo um exame mais acurado percebeu que estava tudo bem, com exceção da sua aparência, pois o homem estava verde e tremendo como uma vara de marmelo, então, correu para ele e lhe abraçou, deu-lhe um beijo na face e imediatamente ele desabou; danou-se a chorar copiosamente, derramando sobre a terra todo o seu pranto. Dona Paulina se sentou num dos grandes bancos da mesa de refeições e deitou-o no colo, secando o seu rosto e acariciando-o, quis saber o que havia ocorrido. A fera já domada, relatou-lhe todo o episódio da roça de mandiocas. A dona Paulina ao ouvir o relato dos acontecimentos, caiu em gargalhadas. Mas que homem é tu, ôme? Estragar toda uma roça por causa de uma cobra? E inda por cima nem cobra era. E como continuava questionando-o e sorrindo bastante, o Bidú voltou a ficar enfezado, pulou do colo dela e saiu destilando todos os palavrões que conhecia, aqueles que não eram proibidos, e foi se entufar lá embaixo do pé de abil, perto do curral. Ai, ela foi, sorrateira, se aproximando, sentou-se na pedrinha ao seu lado e pouco tempo depois estavam namorando, um alisando a mão do outro e sorrindo bastante. Só sei que riam, parecendo que no mundo só existiam eles dois, depois vieram para dentro de casa e passaram o resto da tarde fazendo bijú de tapioca e se fletando. Riam e trocavam olhares, e era um tal de minha véia pra lá, meu véio pra cá, e assim passaram o resto do dia, felizes e saltitantes e, o resultado de tanta alegria, foi mais um "buguelo".
Como era lindo o Bidú e o seu espírito radiante. O verdadeiro dono do mundo.

RAYSAN DE SOUZA
Enviado por RAYSAN DE SOUZA em 17/09/2007
Reeditado em 29/09/2008
Código do texto: T656258
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
RAYSAN DE SOUZA
São Paulo - São Paulo - Brasil
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