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Tulica

Sempre ouvi falar a palavra Tulica, Tulica? O que será? Tulipa? Não.

Tulica era apenas seu apelido. Tulica era um homem imponente, inteligente, os antigos o apelidaram por causa de suas orelhas. Orelhas? Sim, orelhas, grandes e peludas, mas, apesar das orelhas serem tão grandes, sua inteligência era devidamente proporcional ao tamanho de suas orelhas.

Os antigos dizem que todos que têm orelhas grandes costumam ser bem inteligentes.

Era tão inteligente que também foi conhecido como o homem de mil e uma utilidades, todos da pequena cidade onde residia iam até sua casa para lhe pedir ajuda.

Concerta piano, relógio, carro, sapato, costura e até cozinha, só não sabia amar. Não amava porque não queria, mas também nenhuma donzela o queria.

Todas as noites ia para frente do espelho, e ali ficava horas e horas, observando suas imensas, monstruosas orelhas, e aqueles pêlos horrorosos, nojentos.

Apesar de sua inteligência, delicadeza, nenhuma mulher o observava, a não ser a Marilda. Marilda era uma moça educada, inteligente, dominava a língua portuguesa, lecionava literatura para o colegial.

Tulica admirava sua inteligência, mas Marilda tinha um defeito o qual Tulica não suportava, detestava, pavor. Ela tinha as orelhas grandes. Isso o incomodava. Pensava ele:

- Ela orelhuda, e eu também! Não! Basta a minha, duas seria demais.

Imaginava os filhos, como seriam se viesse a se casar com Marilda. Entrava em verdadeiro desespero. Basta o meu sofrimento, não quero que outros venham a sofrer com o mesmo problema.

Apesar da solidão, seu egoísmo e sua dor não o deixavam enxergar outras coisas a não ser suas orelhas. Mas um belo dia teve um sonho, sonhou que estava casando-se com Marilda e que era muito feliz ao seu lado. Sonhou por toda a noite, acordou como uma ótima sensação, até esqueceu de suas orelhas.

Na noite seguinte, por ironia do destino, sonhou novamente, mas desta vez sonhara que havia tido um filho, e, quando foi ao berçário para ver a criança, uma bela surpresa, se espantou: “nossa! credo! Esse é meu filho?”. Desesperado chamou a enfermeira:

- Quero que você me comprove se este é mesmo o meu filho.

A enfermeira, com um belo sorriso, disse:

- Sim, este é o seu filho, parabéns! Aliás, foi o único bebê que nasceu neste hospital hoje.

E ele, desesperado, gritou:

- Cadê suas orelhas!!! Nãaaoooo... !!!

Acordou assustadíssimo e, com as mãos sobre suas orelhas, suspirou e sorriu aliviado.
Fernanda Alvarenga da Cunha
Enviado por Fernanda Alvarenga da Cunha em 17/09/2007
Código do texto: T656807
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Sobre a autora
Fernanda Alvarenga da Cunha
Ribeirão Preto - São Paulo - Brasil
7 textos (622 leituras)
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