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Clamor de um Morto Enfastiado

Jazo morto. Para quê a lamentação
E joelhos dobrados num genuflexório?
Se meu ceticismo condena a reencarnação
E escarneço da esperança do purgatório?

Para quê? Já é fechada a tampa do sepulcro,
Descaem sobre a terra camadas de dermes,
Enquanto meu corpo transforma-se no fulcro
Da alavanca carnívora de ignotos germes.

Basta! Para quê um paliativo caixão
Sufocante tal qual casulo de libélula,
Se dele ri a natural desagregação
Que monstruosa devora toda célula?

Chega! Pois já não me viram descer à cova?
É insuportável toda ladainha e choro;
Chega-me aos ouvidos a sinfonia nova
Do banquetear dos vermes singular coro.

Meu retrato desperta comoção doída?
Quanta ironia! Pois melhor estou agora,
Por finos gourmets cada víscera roída,
Sendo ainda mais belo do que fui outrora!

Desfizeram-se minhas feições; minha boca
Aberta não seria mais negra se entoasse
O cantochão fúnebre duma seita louca,
Ou se eu tivesse o demônio face a face.

Minhas costelas magras, de tons cadavéricos,
São finas pontes sobre o abdômen intumescido;
Têm o peso de pergaminhos catequéticos
Sobre o entendimento rebelde do descrido.

Enojados dessas conversações funéreas?
Mas são poemas que encheriam mil papiros,
O sangue podre coagulado nas artérias
Sendo manjar de microscópicos vampiros!

Minhas escleróticas amarelecidas
Contemplam o desfiar de cada fibra o nó;
Mais o suave tom das carnes descoloridas
Do corpo que morreu – é a poesia do pó!

Podem ouvir? É cada célula que ri-se,
Na agonia assassina dos ribossomos,
Ao explodirem na fantástica autólise
Dividindo o organismo em minúsculos nomos.

Materialismo? Não, ciclo natural!
Uniram-se ovo e esperma, fui embrião;
Um dia finda-se o espetáculo vital,
De outros seres viro o precioso pão.

Ainda sendo vivo, fui ser que outros devorou;
É o simples atavismo da cadeia alimentar.
Se todo fôlego existente em mim se esgotou,
Então alimento ao ser mais elementar!

Portanto, parem com esse maldito pranto!
Aprecio o silêncio; minha vida findou-se,
Parti para a eternidade; qual é o espanto?
Permitam-me sentir a morte, que ela é doce!

Não suporto mais seu interminável réquiem;
Deixem-me, porque aos mortos só resta a paz.
Meu destino? Que me importa o que pensarem?
Só desejo o repouso da lápide: “Aqui jaz”!
Cynthia França
Enviado por Cynthia França em 19/09/2007
Código do texto: T659751
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Sobre a autora
Cynthia França
Recife - Pernambuco - Brasil, 34 anos
7 textos (185 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 23/08/17 09:54)
Cynthia França