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Capim Gordura

Seu apelido era Capim Gordura , seu nome, prefiro omitir até para preservar minha integridade física.
Você deve estar se perguntando, como ou porque alguém consegue um apelido destes.
Ele vai me odiar pelo resto dos dias, mas eu conto.
Seu cabelo por mais que fosse lavado, estava sempre empastado, de tão oleoso, característica essa própria do “capim gordura”, que emoldura os pastos altos do Sul de Minas, com sua cor vermelha-arrocheada , quando libera seus cachos de sementes.
Bem, acabamos fugindo do assunto em pauta, que é um causo motivado pelo nobre amigo, que do seu lado é muito mais amigo da avareza e pelo dinheiro faz algumas , direi, loucuras.
O caso que relato é real e aconteceu a alguns anos, mostrando os resultados da economia a qualquer custo.
O querido Capim Gordura, que adiante tratarei somente como Capim, se formou em engenharia e foi trabalhar na distante Curitiba, distante de sua querida terra natal, uns 700 kms, o emprego era bom, uma estatal, bom salário, estabilidade, tudo aquilo que hoje nos enche de inveja.
Mas a saudade da terrinha no Sul de Minas era cada dia mais insuportável.
Eis que o Capim teve a idéia de comprar um pequeno sitio onde poderia viver seus dias de aposentadoria.
Assim, a  construção da casa no sitio era a desculpa para ir para a terrinha várias vezes no mês.
Como além da distância, a viagem era perigosa e cansativa, a sua jovem esposa o liberava a viajar sozinho. Afinal ele estava indo sempre a trabalho, ou seja, vistoriar a obra da casinha, com o pedreiro mais barato do lugar.
Para que a obra demorasse, o projeto ia mudando a cada parede nova, era outro subterfúgio para o atraso da casa.
Quanto mais demorasse, mais vezes ele faria a tal viagem, e de preferência só, mesmo porque nessa condição poderia ir de ônibus.
Era por assim dizer uma maratona; saia de Curitiba sexta a noite, chegava em São Paulo pela manhã, dali, pegava outro ônibus em direção ao Sul de Minas, ou seja, mais umas três horas de viagem.
No domingo de tarde, era o caminho inverso.
Cansativo, mas, matava a saudade.
Quando chegou em um determinado estágio da obra, era a vez da lareira.
Seriam necessários os tijolos refratários para uma lareira decente, e toca a olhar preços nas redondezas.
Depois de muitas pesquisas, Capim, chegou a conclusão que os mesmos tijolos em Curitiba eram quase 5% mais baratos e como ele estava indo semanalmente ao sitio, poderia levá-los aos poucos, mesmo considerando o incomodo do peso e do volume transportado; afinal poderia economizar algum, e o ônibus não cobraria nada a mais por isso.
Parece mentira, mas o transporte  começou, mesmo sob os protestos de sua esposa e filhos, que queriam preservar o Capim.
-Não quero nem saber, afinal quem paga e transporta sou eu.!!!
A cada semana, lá ia o Capim com uma imensa mala preta, repleta de tijolos, pesando uns 40 quilos.
Uma bela noite, o ônibus ainda na rodovia entre Curitiba e São Paulo, o transito pára, e depois de alguns instantes é abordado por policiais federais, que estavam a caça de traficantes de drogas.
-Todo mundo pra fora, abram as bolsas, apresentem seus documentos e vamos ver as malas.
Qual não foi a surpresa de todos, quando na retirada das malas do maleiro do ônibus, havia uma, muito suspeita : preta, grande e muito pesada.
-Quem é o dono desta aqui?
Capim, meio sem graça, foi logo dizendo.
-Moço, é minha, mas cuidado....
O policial foi indagando desconfiado,
- O que tem ai?
- Tijolos meu amigo...
-Tá de sacanagem comigo? Abra logo, você pensa que eu sou bobo?
Foi abrir e apareceram os tijolos, uns 50.
-Tenente, o que o Sr. Acha?
Perguntou o policial.
- Tenho certeza que isso esta recheado de droga, quebra tudo!!
Ordenou o Tenente.
Para desespero do Capim, todos os tijolos foram quebrados, e realmente não havia droga dentro, mas quem iria acreditar?
Bem, dali em diante a obra continuou, e o Capim acabou comprando os tijolos restantes no próprio local da obra, mesmo tendo que pagar 5% a mais.
O cruel de tudo, é que a tal lareira depois de pronta, foi acesa uma única vez, na sua inauguração, sendo inclusive o motivo de se terminar a festa do lado de fora da casa, porque soltava mais fumaça dentro que fora.
Hoje, um belo porta revistas jaz dentro da mesma, com alguns exemplares das revistas, Cruzeiro, Manchete e Pais e filhos.
As revistas novas estão pela hora da morte....
       
 
Lune Verg
Enviado por Lune Verg em 20/09/2007
Código do texto: T661205
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Sobre o autor
Lune Verg
São Paulo - São Paulo - Brasil
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