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As peripécias de Guta...

Guta era uma criança feliz. Sua infância foi regada de muito amor, mas também de muita disciplina.
Sua mãe, Antonieta, era quem se dispunha ao afeto, carinho e amor.
Seu pai Henrique era o lado severo e durão, mas às vezes brincava e trazia doce de leite, “só quando estava de bom humor”.
Ah!... ele dava de presente uma lata de marmelada para sua mãe Antonieta, quando ela fazia aniversário, e era tão bom, que Guta e seus irmãos esperavam o ano todo, ansiosos por aquele momento... Sua mãe abria a lata, devagarzinho e o aroma do doce espalhava-se pela cozinha e as boquinhas se enchiam d’água. Ela cortava o doce, colocava sobre uma fatia de queijo branco, macio, e Guta fechava os olhinhos, num momento mágico!
Guta cresceu observando os rituais de sua avó materna, que usava roupas escuras e lenços na cabeça. O lenço tampava todo o cabelo, e o engraçado é que Guta não se lembra de ter visto os cabelos soltos de sua vó Maria. Sabia que era branco, porque de vez em quando, escapavam uns fios sob o lenço.
Sua avó tinha hábitos interessantes, um deles era: todas as manhãs, ela ia até o terreiro de chão e fazia xixi em pé. Usava saia comprida e com as pernas abertas fazia assim um buraquinho no chão, e Guta achava o buraquinho, feito na terra, bonitinho.
Ela impressionou-se com aquilo e queria fazer igual.
Para realizar essa façanha, teve de fazer descobertas hilárias, assim como, não usar calcinhas. As primeiras tentativas foram um desastre, o xixi escorria pelas suas perninhas, apenas aguando o chão.
Guta, como toda criança, gostava de desafios e, várias outras vezes, tentou sem sucesso.
Um dia foi determinada a conseguir o intento; já não usava mais calcinhas. Com sua persistência achava que tinha que alcançar seu objetivo de qualquer maneira, pois, se sua vó Maria conseguia, porque não  haveria de conseguir também?
Guta dormia e acordava focada no buraquinho que seu xixi poderia fazer no chão.
Em meio desta obstinação, ela distraiu-se no sentido de brincar com seus coleguinhas na rua de casa.
Certa vez, sem se lembrar que estava sem calcinha, foi participar de uma corrida de carrinho de rolimã. Toda eufórica pegou o carrinho de seu irmão Zezinho e partiu para o grande desafio com seus coleguinhas rivais.  A gana de vencer aumentou ainda mais, quando foi revelado que o prêmio da corrida era uma lata com mais de cem “fubecas”, incluindo uma “butiona” (era a fubeca maior e mais colorida).
Pronto, tinha sido dada a largada. Guta alcançou a liderança facilmente. Por ser a única garota da rua, no meio de um mundaréu de meninos que tinha na vila, chamou a atenção de todos que estavam ali no momento.
Guta estava certa de que iria levar o prêmio, pois já tinha deixado seus rivais para traz. Subitamente apareceu uma pedra no percurso e, sem defesas Guta não teve o que fazer, apenas deixar que o inevitável acontecesse.
A pedra fez a roda dianteira de seu carrinho travar, e o sonho da garotinha travessa foi por água a baixo.
Guta, com o impacto não teve alternativa, seu corpo foi arremessado bruscamente para frente, resultando num desastre.
Guta, sem calcinha ficou de pernas para o alto, e para piorar a situação, estava usando um vestido rodado, branco, de bolinhas vermelhas.
Seus coleguinhas rivais que vinham logo atrás, começaram a caçoar dizendo: “olha a bunda dela!...”.
O escândalo foi tão grande que chamou a atenção de seu irmão Zezinho, que estava voltando da escola. Vendo que as gozações continuavam, foi averiguar o que estava acontecendo. Ao chegar, viu todos rindo de sua irmãzinha Guta, e sem precisar perguntar ficou logo sabendo que todos viram a bunda dela.
Zezinho foi logo contar para sua mãe Antonieta, a vergonha que guta acabara de passar.
Guta sem demora correu para colocar a calcinha, e assim esconder esse fato de seu pai e também para despistar a todos de sua casa, mostrando que não estava sem calcinha, fazendo com que seu irmão Zezinho passasse por mentiroso, mas não adiantou. Seus pais a colocaram de castigo, exigindo explicações do motivo que a levou deixar de usar calcinha.
Diante do que aconteceu, Guta nunca mais tentou fazer buraquinho no chão com o seu xixi, pois, a vergonha que passou diante dos coleguinhas e de sua familia foi tão grande, que esse seu objetivo só foi realizado muitos anos depois, estando casada e com seus dois filhos, no ralo do chuveiro.
Guta enfim realizou o seu sonho, não como sua vó Maria, que fazia na terra, mas no ralo, onde fez bem no buraquinho do meio do ralo, alcançando assim todas suas metas.
Dora Lucia Brito
Enviado por Dora Lucia Brito em 24/09/2007
Reeditado em 24/09/2007
Código do texto: T666598
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Sobre a autora
Dora Lucia Brito
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 63 anos
22 textos (598 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 23/10/17 04:26)
Dora Lucia Brito