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Picadinho da Socorro

“... de madrugada
                      que es la hora
en que mueren
los que saben morir...”
                                Ferrer

A cidade não entendeu, ou não quis entender, porque o Sebastião rompeu o noivado com a linda Thereza, mas acreditou compreender tudo ao tomar conhecimento de que o danado estava de namoro com a Maria do Socorro, filha do falecido Albuquerque, feia e magrela, herdeira de fabulosa fortuna.
Os comentários corriam soltos pela cidadezinha, do barbeiro à farmácia, da venda do “Seu Mané” à sacristia, e tomaram corpo quando saíram os proclamas do casamento dos dois.
- Que belo golpe do baú!
- Com  aquela cara de tonto, ele foi é vivo, - arregalava os olhos  a beata Joana, - enganando a coitadinha! Vai casar com ela por causa do dinheiro!
- Imagine, quem foi namorado da Therezinha, que foi até rainha da quermesse, casar com a Socorro!
O casamento foi  bastante concorrido, com a igreja cheia, o noivo bonitão no seu terno preto e a noiva com carmim nas faces pálidas e flor de laranjeira nos cabelos escorridos. Não houve festa, e os noivos foram direto para a fazenda  do Seringal.
Na semana seguinte, na missa, o casal foi alvo de todos os olhares, uns achando que a Socorro estava até bonita, outros dizendo que o Tião estava meio tristonho.
E um ano se passou. O casal vivia isolado na fazenda. Os empregados, quando vinham à cidade, diziam que o Seu Tião era bom pra d. Socorro, e que os dois viviam em paz, sem brigas ou discussões. Foi quando Socorro começou a definhar. Nas raras vindas à cidade, mostrava-se mais magra e mais pálida, e os comentários voltavam à tona.
No botequim, os filósofos de fim de noite segredavam:
- Até que o Tião agüentou muito!
- Um ano inteiro naquela fazenda, sem vir à cidade sem a Socorro para tomar umazinha com a gente, ou para uma visita às meninas da Salomé...Vai ver ele está pondo veneno na comida dela! Vai acabar fazendo picadinho da Socorro!
As comadres, alvoroçadas, visitavam-se, e o assunto era a Socorro.
- Ele deve estar pondo vidro moído  na comida ela, coitada... Ele nunca prestou mesmo, com aquela cara de santo... Viu como a coitada está? Mas consegue falar...
- É, mas diz que o Tião vai levá-la ao médico lá de São Paulo. E que foi até na Zefa Benzedeira.
- Leva nada! Ele diz isso pra gente não desconfiar dele...
Porém, em meio aos comentários, e antes que fosse levada a São Paulo, uma manhã às seis horas, Socorro morreu.
No seu enterro silencioso, Tião era olhado com ódio por todos os habitantes da cidade. De seus olhos caiu uma lágrima.
No dia seguinte, às seis horas da manhã, a cozinheira ouviu o tiro. Ao entrar no quarto do patrão, já o encontrou morto.
Socorro morreu de tuberculose, Tião de puro amor.

HERMES
Enviado por HERMES em 24/09/2007
Código do texto: T666719

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Sobre o autor
HERMES
Franca - São Paulo - Brasil
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