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A sogra


     No começo, o alheamento. Depois, começou a notar que a sogra, uma mulher muito bonita e atraente, estava interessada nele. Exibia-se de todas as maneiras, usando como isca o próprio corpo voluptuoso e sensual. Nem procurava disfarçar. Deixava o decote desabotoado, cruzava as pernas de maneira provocante, enfim, lançava mão de todos os recursos de que uma mulher dispõe para seduzir um homem.
     Manietado, porém, pelo fato de ser seu genro, ele procurava desestimulá-la mais preocupado com a sua mulher do que pelo que poderia acontecer. Muitas vezes, rogava aos santos sua proteção com medo de não resistir aos apelos dos instintos. O remorso o reprimia inconscientemente.
     Quando ela se sentava à sua frente e, propositadamente, levantava a saia, deixando a mostra um pedaço da coxa, perturbado desviava os olhos, mas não conseguia mantê-los longe por muito tempo, mesmo fazendo um esforço enorme para não olhar. Apanhado em flagrante, disfarçava-se com medo de que aquilo fosse um incentivo para ela.
     E assim, por vários dias, prosseguiram nesse jogo de gato e rato. Ela, a persegui-lo com gestos e olhares maliciosos e convidativos, e ele, de vez em quando, respondendo positivamente, mas com alguns trejeitos de negação pouco convincentes. O seu maior medo era de que sua mulher percebesse algo entre eles ou que a sogra estivesse blefando. Só não entendia porque sua mulher ainda não havia notado nada. Mulher fareja tudo.
     Mas por machismo ou vaidade, os sentimentos começaram a mudar, e assim, entre o medo e o desejo, ele se entregou às fantasias e o pior, passou a gostar das exibições cada vez mais provocantes da sogra. Interessado, passou a procurar uma maneira de envolvê-la num plano que resolvesse aquela situação de uma vez. Seria uma jogada que no mínimo perigosa, mas revelaria a verdadeira intenção sogra, isto sem provocar a desconfiança da sua mulher. Se desse certo poderia até ficar com as duas.
     Num domingo pela manhã, saiu para comprar jornal e aí, veio-lhe uma idéia que se bem representada, desmascaria a sogra e resolveria o problema. De volta, em casa, sentou-se no sofá da sala e começou a ler o jornal. Na verdade, fingia ler.
     Na cozinha sua mulher preparava o almoço, enquanto a sua frente, sua sogra de pernas cruzadas folheava algumas revistas velhas e como sempre, de olho nele. Segurou o jornal à altura dos olhos e depois, muito lentamente, o abaixou. Olhou de rabo de olho para sogra e viu que ela não tirava os olhos dele. Voltou ao jornal e fingiu ler, novamente. Em seguida, fazendo-se de assustado com uma noticia no jornal, gritou:
      - Epa! Vejam isto aqui, que absurdo! O mundo está doido mesmo, nunca vi uma maluquice dessas.
E sem tirar os olhos do jornal, leu em voz alta, fingindo preocupação:
      - O governo acaba de assinar uma lei que obriga o genro a se casar também com a sogra.
Sua mulher, da cozinha de onde ouvira tudo, gritou indignada:
      - Que lei mais besta é esta. É o fim do mundo mesmo!
E entrando na sala, continuou:
      - Onde já se viu obrigar genro a se casar com a sogra?  O governo está ficando cada vez mais maluco.
Disse isso em sua voz mais afetada, mas sem nenhuma maldade. Rapidamente sua mãe, retrucou:
      - Não seja boba minha filha! Lei é lei e tem que ser cumprida.

Vanderlei Antônio de Araújo
Enviado por Vanderlei Antônio de Araújo em 26/09/2007
Código do texto: T670034

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Sobre o autor
Vanderlei Antônio de Araújo
Goiânia - Goiás - Brasil, 75 anos
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