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O CALÇUDO


                                      O CALÇUDO

                                      (Alegoria)


Sua beleza despertava as atenções gerais. O respeito devido, era reverenciado na medida adequada. Ele sabia de tudo isto e fazia alarde desse pavoneio diante de amigos, vizinhos ou mesmo adversários. Era altivo na sua postura e compostura e não raras vezes sabia afirmar-se. Suas vestes de cores vivas e brilhantes, faziam passar mensagem de garbo e não menos vaidade, ainda que descarada. Sim, ele não fazia por menos. Sexualmente era de grande apetência e raras revelava fragilidades. Em compita com rivais impunha-se pelo físico e, não raro, travava luta pela conquista da (s) beldade (s). Não respeitava as origens. Atendia sexualmente as fêmeas vizinhas e até incestava em irmãs e na própria mãe. Difícil era saciá-lo.
 Era assim o capão, que em meu galinheiro, era o símbolo da ousadia e superior sobranceria.
Ainda antes da meia-noite já se ouvia o rugido altissonoro do seu canto, que de metálico, ecoava pelos ares, sendo ouvido a grande distância. À medida que a noite clareava para dar lugar ao dia, mais ele cantava, sendo o primeiro a descer do poleiro, em jeito de convite para as suas damas o acompanharem, transmitindo-lhes protecção. A mais ousada a descer do poleiro recebia de compensação um aprimorado jogo de sedução com um inevitável bailado de arrastar de asa e um cântico carinhoso, a que a mais irredutível dama não resistiria. Logo ali se consumava aquela que viria a ser a primeira de muitas cópulas que a sua necessidade de puro macho exigiria.
O Calçudo, era assim chamado, devido à farta plumagem que das patas se estendia até aos dedos. Parecia que usava meias o dianho do galaró. De todos era o único com esta característica, o que o fazia sentir-se mais “homem” diante dos outros, sendo levado a crer ser mais macho que os demais. Seu ego era bem alto e fazia passar bem a ideia, chegando a intimidar até a dona na hora de lhe dar de comer, altura em que se esmerava em cacarejares para atrair as damas e ao mais pequeno sinal de ciúme se atirava, não raras vezes à dona para a bicar, sendo que em algumas delas a chegou a sangrar das pernas, passando esta a levar consigo uma vergasta para o amansar nos impulsos de defesa territorial.
Está ainda por provar quais os seus índices de testosterona, mas tudo leva a crer não serem baixos, pela análise cuidada do animal, desde a farta cobertura de penas, exuberante crista e brincos e inusitado instinto sexualmente devorador…
Bom, mas este armanso não iria ter vida eterna. Algo estaria para acontecer e aquele que exibia crista empinada e superior glória e sobranceria, esqueceu que tudo é efémero, se desrespeitador dos anteriores e futuros desafios não levarem em consideração, os que o rodeiam. Nada se faz ou deve fazer ignorando os demais. A vaidade retirou-lhe lucidez e o superego que praticava irá ser o seu próprio coveiro, do qual não irá ter tempo de arrependimento.
Para sua desgraça, um novo e jovem inquilino viria habitar o galinheiro. Tratava-se de um garnisé que a D. Teresa havia comprado na feira dos lavradores e que estava muito mal tratado de aspecto e de carnes, tendo ela, até tido um cuidado especial na alimentação para o revigorar de energias perdidas ou nunca tidas.
O esmero que D. Teresa lhe dedicava era comovente na atenção e dedicação. Dela recebia carinho e até mimo. De alimento fazia-lhe couves migadas com farinha milha e vinho tinto para, dizia ela, ganhar peito para cantar. Realmente o pobre bicho nunca havia cantado desde a compra e nem se sabe se alguma vez o havia feito, dada a superior magreza que não lhe dava energia para encher o peito e soltar as narinas.
A fase difícil parecia estar vencida e passado algum tempo o definhado garnisé evidenciava promissora robustez que o levava a ensaiar, quiçá o primeiro canto.
Naquele final de dia, com o sol já abaixo da linha do horizonte, eis que solta as narinas e um canto envergonhado, sai para alegria da dona, que parece acreditar agora na salvação do dianho do “pito”, como ela lhe chamava. Perante este facto, ficou à escuta para tirar dúvidas sobre se o canto seria dele ou não…Eis que novo sibilo ecoa nos ares, agora mais pujante de energia, como que a pedir meças, ao melhor dos cantores da aurora. Este poderoso cântico fez acreditar que a batalha da recuperação física do animal, estaria definitivamente consumada.
 Agora o dianho do “pito” já poderá juntar-se aos demais no galinheiro, dizia para si D. Teresa.
Se melhor pensou, melhor o fez e junta-o aos demais comparsas alados, que em face da presença do novo inquilino, alguns revelaram rejeição, tendo à cabeça o Calçudo, cioso do seu território e damas.
Momento difícil irá viver o garnisé pela segregação dos habitantes do ganau, quanto mais não fosse pelo respeito ao Calçudo, sim, que nisto de respeito, até os galináceos dão “lições”, acrescento eu: más “lições” de respeito pelo poder, pelos mais fortes, a quem dele não precisa.
Dias difíceis viveu o pobre do garnisé, comparativamente aos dias em que vivia só e aos cuidados da D. Teresa. Desta, recebeu todo o carinho do mundo, que ele pagava tributariamente com gratidão, indo-lhe comer à mão, o que fazia D. Teresa orgulhar-se de tão nobre atitude, que a levava a dizer tantas vezes: se os homens fossem também assim, o mundo seria cheio de amor e gratidão. Pena os homens não saberem tirar lições dos animais…, acrescentava.
D. Teresa foi acompanhando a integração do novo inquilino e chegou a temer pela integridade física do “pito”. Este, refugiava-se nos poleiros mais altos para não ser atacado e raramente se aventurava a ir comer, só o fazendo quando o Calçudo e as damas preferenciais estavam distraídos. Comia sofregamente, deglutindo mais de um grão de milho de cada vez e à menor suspeita de observação, retirava-se para o poleiro mais alto para defesa pessoal. Assim foi durante uma semana e D. Teresa começava a ficar preocupada com a atitude geral dos outros inquilinos, porque dizia ela: a comida chega para todos, não percebo tanto egoísmo… Até nisto se parecem com alguns homens, acrescentava.
O pequeno garnisé só reclamava para ele a sobrevivência e algum tempo para expressar alegria, com o difundir do seu canto. Nada mais. Pena que isso lhe esteja a ser negado pela inveja do todo-poderoso Calçudo, qual nababo em sua corte. Pena também que o poder instituído e difundido pelos lacaios (leia-se os outros galináceos), não tivesse da parte destes a percepção de que a vida e a sua qualidade, é um direito geral que a todos pertence, sem excepção. Quem está bem deixa-se estar e nada fazem ou fizeram para que os outros possam ter da vida, o que não é pertença de alguns, mas de todos.
Em face desta atitude geral do ganau, o pobre do “pito” terá de lutar até conquistar um direito que à partida já lhe deveria estar consignado. Na verdade, ninguém dá nada de mão beijada, sem conquista… Que sociedade é esta que os galináceos criaram, em que até os seus semelhantes são segregados? Ah, se pudesse mandar um minuto… mudava a mentalidade destes galináceos e o ganau poderia viver em paz permanente, com distribuição certa de alimentos e amor eterno, dizia D. Teresa. Mas tal não está fácil, os poderosos não querem perder poder e o pobre do “pito” vai ter de lutar e muito para ter o direito ao que à partida, não lhe deveria ser negado.
Na verdade, o marginalizado “pito” colocou a si mesmo o dilema: morrer de fome ou lutar pela sobrevivência. Neste contexto, irá explorar ao máximo as duas situações que se lhe deparam e para isso, foi pernoitar no poleiro mais alto que havia no galinheiro e reflectiu maduramente nas duas hipóteses. Ao fim de aturada reflexão concluiu: perante a certeza de morrer à fome, optarei ainda pela luta de um direito que me assiste. Assim, acrescentava, ainda vou lutar com todas as minhas ganas por um direito que não pertence a ninguém, mas que é de todos. O soberano direito a sobreviver com qualidade, assiste-me, concluía.
Ao raiar da aurora e depois de tanto ter cantado, aliás como o fazia sempre, o Calçudo desceu do seu poleiro, exibiu os seus passes de dança e cacarejares em galanteio, que as damas muito bem conheciam, só que desta vez recebeu a companhia do franzino “pito” que, em voo picado, desceu do alto do seu refúgio.
Com esta atitude, não contava o soberano galo, que desafiado no seu poderio, se lançou sobre o pequenote garnisé e lhe enfiou três respeitáveis bicadas de caixão à cova, que deixou o sob-alimentado “pito” muito mal tratado. Neste contexto, o depauperado franganito e face à pujança do “Todo Senhor”, foi buscar energia anímica ao provérbio: Com perseverança se alcança.
Meio combalido, por ter ficado a “ver estrelas”, levanta-se, espanou o pó e lançou-se sobre o “soberano”. A briga que se travou foi feroz, mas a leveza e destreza física e a força anímica que a justiça da sua luta lhe incutia, permitiu começar a somar vitórias atrás de vitórias. O “Todo-poderoso” sentiu pela primeira vez na sua vida que o seu poderio se poderia aproximar do fim e num assomo de coragem, na tentativa de manter o seu status, ainda encontrou forças para umas respeitadas bicadas no “pito”. A guerra parece estar longe de ganha para qualquer uma das partes. O garnisé tremeu de medo, ao ver que o Calçudo estava bem mais pujante do que suporia. Ainda assim, não abdicou da luta e uma vez mais fez questão de recorrer a um outro provérbio que diz: Quem não cansa, alcança.
Sem dúvida que o garnisé soube onde ir buscar energias, que não residiam na sua capacidade física, mas mental, que a justiça da sua causa fez desenvolver. Ao contrário, o “Todo-poderoso” só defendia privilégios de natureza pessoal, alimentados por uma ostentação desmedida e desrespeitadora dos direitos individuais de cada semelhante.
A briga, iria para o que seria o tira-teimas final, desta vez, em acesa e encarniçada batalha. Cada um dos beligerantes usava das suas mais desenvolvidas estratégias bélicas e neste particular, o garnisé levava vantagem. Bicada aqui, bicada ali, cristas sangrando de ambos os lados, brincos meio caídos e estocada final e fatal foi desferida pelo garnisé, que atingiu o “Senhor” do ganau, com uma bicada perfurante no pescoço, que o prostrou por terra e que o obrigaria a pequena cirurgia, por parte da D. Teresa.
Esta, com carinho, coseu o pescoço ao Calçudo que humildemente e sem anestesia nada disse, tendo até levado uma lição de moral por parte da dona, que o repreendeu pela sobranceria que exibia e que agora ali às mãos dela, não o mandava para a panela, embora o merecesse, lembrando-lhe que também ela chegou a ser vítima das bicadas, que lhe desferia nas pernas, quando todo o mal que lhe fazia, era dar-lhe de comer.
O Calçudo ouviu sem pestanejar e ainda combalido foi fazer a convalescença durante alguns dias, no pequeno galinheiro onde antes havia estado o garnisé a recuperar das energias, que nunca havia tido.
Posto que estivesse já curado, a D. Teresa resgatou-o e levou-o para o galinheiro onde antes havia sido “Senhor” e onde haveria de ser bem recebido por todos, tendo neste particular o garnisé prestado respeitosa vénia, cumprimentando-o também com um cocorocó de boas vindas.
Não mais houve inveja ou sobranceria naquele ganau e a comida acabava por chegar sempre para todos.


MORAL DA HISTÓRIA:
 
A sobranceria, a inveja, o poder e a vaidade não cabem entre iguais. Aquele que deveria ser um direito adquirido, só o foi por uma luta sangrenta. Bem hajam os que lutam por ideais de justiça, fraternidade e igualdade, sem olhar a raças, cor de pele, credos, culturas, beleza ou outras diferenças. Ah, o garnisé também nos disse que os “galináceos” (entenda-se homens) não se medem aos palmos.
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 02/10/2007
Código do texto: T677551

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Sobre o autor
Povo Lusitano
Portugal, 62 anos
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