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Sina minha e de mãinha

     Eu tinha uns dez anos quando mãinha me botou pra fora de casa, só por causa que eu tinha roubado um sanduíche que uma moça vendia na praia e tinha levado ele para a gente comer, porque a gente tava morrendo de fome, visse? Mas minha mãe nunca falou que eu tinha que ir embora, só que ela me deu uma surra, que eu até fiquei com vergonha de olhar pra ela depois. Então eu fui embora porque eu sabia que eu não servia pra nada, só para dar despesa para a mãinha.
     Eu tinha muita dó de mãinha, ela criou os filhos todos sozinha, e eu, naquela época, já era muito sabido, e já entendia muito bem o serviço que a mãinha fazia para os turistas... Era o jeito que ela tinha arrumado para o sustento da casa.
     Não era justo eu continuar ali, mas também, eu não tinha pra onde ir. Eu não queria ir para uma cidade grande e ter a mesma sina de meus primos: virar ladrão e tirar a inocência das meninas... Se eu fosse pra outra cidade, eu tenho certeza que ia ser assim, porque naquele dia, eu já tinha roubado pela primeira vez. Eu sabia que eu era ruim de natureza, e podia ficar bem pior. A minha cabeça até doía só de pensar que eu já era um ladrão.
     Eu pensava que meus primos, que já eram grandes, não tinham mais salvação. Mas pensava que eu ainda tinha salvação, porque, me lembro de uma freira que disse que criança de até sete anos ainda é anjinho e vai para o céu porque quase não tem pecado. Eu já tinha dez anos, mas quem me visse falava que eu tinha sete porque eu era bem mirradinho. Então, se a voz do povo é a voz de Deus, eu seria salvo se morresse o mais rápido possível.
     Me senti um "cabra muito macho" quando me joguei na frente de um caminhão que passava na estradinha, antes que eu crescesse mais um bocado e me chamassem de "cabra safado"...
     Quando eu acordei, estava rodeado por um povo de branco que eu nunca tinha visto. Primeiro eu pensei que eram os amigos de mãinha lá do terreiro de macumba, fazendo umas rezas para tentarem me salvar. Depois pensei que poderiam ser os anjos do céu. Desacreditei dessas idéias fantasiosas de minha mente, porque não avistei as galinhas do terreiro nem as asas dos anjos. Me veio então a idéia de que aquelas pessoas podeiram ser os médicos! Perguntei a um deles, que esgoelava de alegria porque eu tinha acordado, se eu ainda estava vivo. O sujeito nem me ouviu, mas começou a falar com uma doutora umas palavras difíceis que eu não entendi. Só percebi o sotaque nordestino e entendi que ainda estava vivo , porque no céu, os anjos só deviam falar em sotaque americano... ou francês...
     Não me lembro bem o que aconteceu depois disso. Só me lembro que quando estava em casa de novo com a mãinha e os irmãos, tomei muito caldo de macaxeira deitado na cama e não sentado na mesa, como de costume. Também não me lembro de como eu fiquei sabendo que eu tinha virado saci e por que aqueles anjos endiabrados tinham arrancado uma perna minha. A mãinha, inocente, falava que eles tinham feito isso pra me salvar.
     Depois disso, mãinha começou a fazer uns trabalhos em casa e não fazia mais o trabalho de rameira, só para cuidar de mim. A renda minguou, mas foi o jeito que ela arrumou...
     Nesse tempo, eu me sentia mais inútil do que já era, e mais arrependido do maldito dia em que eu resolvi roubar um pão... E eu não entendia por que minha mãe tinha me acolhido de novo e resolvi perguntar pra ela, que me respondeu que me amava tanto, que quando ela ficou sabendo que eu tinha tentado me matar, ela tentou ir ao meu encontro pra pedir desculpas pela surra. Ela levantou sua saia e eu pude ver a sua nova perna de pau.
Janicris Rezende Januzzi
Enviado por Janicris Rezende Januzzi em 05/10/2007
Reeditado em 05/10/2007
Código do texto: T682033

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Sobre a autora
Janicris Rezende Januzzi
Goiânia - Goiás - Brasil, 25 anos
40 textos (6195 leituras)
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Janicris Rezende Januzzi