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Os Doentes II

Na escuridão de cada um dos quartos fechados,
Ouvem-se gemidos num medonho recital;
São os doentes, num clamor de desesperados,
A bradar contra a prisão chamada hospital.

Em seu interior, pairam impuros miasmas;
Misturam-se o éter e o clorofórmio venenosos,
A encherem os pulmões de agônicas asmas,
E ao invés de curarem são ainda mais danosos.

Em meio aos espasmos da febre, uivam nos leitos
Com ataques sem fim convulsos epiléticos;
Perto deles adormecem, já à morte afeitos,
Sob brancos lençóis os tranqüilos catalépticos.

Enlouquecidos, no ardor das erupções cutâneas,
Seres devorados pela leishmaniose
Urram, tendo mentes já abertas a mil insânias,
De todas as dores provando amarga dose.

Homens devassos, antes no auge da concupiscência,
Contorcem-se a vomitar esverdeada bílis,
De sua torpe volúpia sofrem a conseqüência,
E agora pranteiam com as feridas da sífilis.

De alvéolos destruídos pela tuberculose,
Enfermos pulmões desfazem-se nas hemoptises,
E os brônquios corroídos pela bacilose
Explodem em sangrentas e contínuas crises.

Estes pobres miseráveis são os que mais sofrem,
A respiração entrecortada pela dispnéia;
Só encontram o seu descanso quando morrem
Após uma noite de insônia, na última apnéia.

E os antígenos e hemoglobinas, mistura
Que positiva e negativa gera fetos mortos,
Põe nos olhos das mães lágrimas de longa dura
A chorar progênie inteira de natimortos!

Antes preferiam a fria esterilidade,
Que, desde das oogônias a morfologia elementar
Seca; do que a extrema infelicidade
De apenas morte no início da vida gerar!

É a tristíssima eritroblastose fetal,
Que impiedosa o âmnio e a placenta envenena,
Proporcionando um espetáculo letal
Onde o ser em formação tem sua última cena!

A estertorar em inúteis gritos, a vida deixa
Um infeliz de artérias tomadas pela embolia;
A seu lado, após cerrar os olhos sem queixa,
Dorme um enfartado que já não espera o outro dia.

Vê-se os olhos baços e as cabeças nuas
De semiesqueletos roídos pelo câncer
Que lhes corta o organismo de chagas cruas;
Silenciam, mais desgraçados hão de ser.

Não lhes atravessa o corpo qualquer energia,
E logo vêem a tampa do féretro de si acima,
Após a falência múltipla da sinergia
Que a todos os órgãos movimenta e anima.

Membros com manchas violáceas de gangrena
Endurecem; e o sombrio ranger dos ossos
É de prisioneiros o lúgubre fonema,
Tendo na derme apodrecida o calabouço.

Outro, com deficiência de ácido ascórbico,
Mal fala, a verter sangue pelas gengivas;
Este grita, num terror mais do que lógico,
Ao sentir dentro de si outras estruturas vivas.

Um, ao qual indômita anafilaxia
Prostrou, tem obstruídas as fossas nasais
Pelos remédios; tal erro da alopatia
Jamais a Medicina viu em seus anais.

Toma o lugar do oxigênio um gás oriundo
Do ventre dum louco, cuja corrosão
Cerebral há muito o traz quase moribundo,
Mas que aferra-se à vida em tenaz obsessão.

Portais de bactérias, purulentos estigmas
Vergastam abdomens abertos; exalam
Doce perfume às moscas, crus enigmas
Decifrados pelos bichos que os degradam.

Numa explosão de enzimas, a tireóide
Deforma; a trombose de coágulos pútridos
Estoura do paciente o bulbo e a coróide,
Produzindo cadáveres grotescos e túrgidos.

Lutam anticorpos nas terríveis infecções,
Hipertrofiando os gânglios com inchadas ínguas;
Vitoriosos, os microorganismos nações
Formam, de infinitas espécies e línguas.

Num desespero insano, resta aos parentes
Prantear enquanto os minúsculos vírus
Calmos devoram-lhe os queridos entes,
Indiferentes a seu fúnebre ríctus!

Cynthia França
Enviado por Cynthia França em 07/10/2007
Código do texto: T684847
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Sobre a autora
Cynthia França
Recife - Pernambuco - Brasil, 34 anos
7 textos (185 leituras)
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Cynthia França