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FESTANÇA NA ROÇA



ERA PLENO VERÃO, O SOL ESCALDANTE, O HORIZONTE TREMULAVA, O CÉU ESBRANJAVA AQUELE SORRIZÃO AZUL ZOMBANDO DA TERRA SECA, NENHMA ESPERAÇA DE CHUVA. AQUI ACOLÁ UM PÉ DE ALGAROBA, OS XIQUE-XIQUES E AS  MACAMBIRARAS ENFEITAVAM  AQUELAS PAISÁGENS. MAS NA CASA GRANDE ERA SÓ ALEGRIA. ERA O CASAMENTO DE TONHA, FILHA MAIS VELHA DE SEU SEVERINO  E DONA ZEFINHA. O ALPENDRE DA CASA GRANDE ESTAVA TODO ENFEITADO DE BANDEIROLAS. NA SALA DE JANTAR UMA MESA ENORME REPLETA DE PRATOS FEITOS COM FAROFA D'ÁGUA, ARROZ EMPAPADO, PERU COZIDO E SALADA DE ALFACE. SOBRE UMA MESINHA NA SALA DE VISITAS ESTAVA UM BOLO COR DE ROSA COM UM CASALZINHO  DE NOIVOS EM CIMA . TUDO ESTAVA PREPARADO PARA CHEGADA DOS NOIVOS.

EU, MINHAS IRMÃS E QUATRO AMIGOS, DOIS RAPAZES E DUAS MOÇAS, ERAM OS  CONVIDAOS DE HONRA. MORÁVAMOS NA CIDADE, O PESSOAL DA CASA NOS TRATAVA COM CERTA REGALIA ERA  COMO SE FOSSEMOS CELEBRIDADES. PORTANTO IRÍAMOS ALMOÇAR COM OS NOIVOS E OS PADRINHOS. O RESTANTE DOS CONVIDADOS SÓ IRIA CHEGAR MAIS TARDE PARA O BAILE DE CASAMENTO.

OS RAPAZES ESTAVAM NO ALPENDRE TOCANDO VIOLÃO E TOMANDO PINGA COM CAJU, ENQUANTO AS MOÇAS SE ENFEITAVAM NA ESPERANÇA DE ARRANJAR UM MARIDO NO BAILE. 

ESTÁVAMOS NO QUARTO QUANDO ALGUÉM GRITOU:

- SE AVEXE MINHA GENTE QUE LÁ VEM OS NOIVOS!

FOI UMA GRITARIA DENTRO DE CASA, ERA MOÇA SAINDO DE TUDO QUANTO É LADO,  EM TORNO DE UMAS VINTES. CADA UMA COM UM PUNHADO DE ARROZ  NA MÃO  PARA DÁ SORTE AOS NOIVOS.
E LÁ VINHA A COMITIVA: UM CAMINHÃO, UM JEEP, E DOIS FUSCAS.
OS NOIVOS VINHAM NUM DOS FUSCAS, NA CARROCERIA DO CAMINHÃO, VINHA O SANFONEIRO, O ZABUMBEIRO, O MOÇO DE TRIANGULO  E A FAMÍLIA DOS NOIVOS.
O VESTIDO DA NOIVA ERA DE ALGODÃO, TINHA MANGAS COMPRIDAS ENFEITADAS DE RENDA. 
TADINHA!  NUM MORMAÇO DAQUELES SÓ DEUS PRA TER PIEDADE.  O SUOR TINHA DESMANCHADO A MAQUIAGEM, O PÓ DE ARROZ DESCIA-LHE PELO PESCOÇO, ENQUANTO O NOIVO CARINHOSAMENTE LIMPAVA. A COITADA ESTAVAVA ENCABULADA DIANTE DO OLHAR MALICIOSO DAS IRMÃS E DAS AMIGAS. TRATAMOS DE CARREGÁ-LA PARA  O QUARTO. AÍ COMEÇOU A SEÇÃO DE INTERROGATÓRIO:

- DEPOIS TU CONTA PRA NÓIS COM É ESSA TÁ DE LUA DE MÉ?    -   PERGUNTOU  UMA DAS IRMÃS DA BOIVA.

- SEI NÃO, ZÉ NUM GOSTA DISSO

- MULÉ,   ZE NUM GOSTA DE LUA DE MÉ?

- É QUE ELE BUM  GOSTA QUE EU CONTE

- ENTÃO ELE JÁ CUMEU O MÉ?

- CUMEU NÃO

- É HOJE QUE A PORCA TORCE O RABO!  -     FALOU UMA DAS ESPIVITADAS

- BOTA UMA CALCINHA DESSAS AQUI, OLHA!
UMA DAS MENINAS DA CIDADE LEVANTOU A SAIA E EXIBIU UMA MINÚSCULA CALCINHA RENDADA.
A COITADA QUE QUASE SE ENTERRA DENTRO DO VESTIDO DE TANTA VERGONHA, MAS FALOU ESBOÇANDO UM SORRISO ENCABULADO E MALICIOSO AO MESMO TEMPO:

- OCHENTE  MULÉ NUM SOU DISSO NÃO!
A RISADAGEM TOMOU CONTA DO QUARTO.

APÓS O ALMOÇO DESCANSAMOS UM POUCO, OS MENINOS CONTINUARAM A TOMAR PINGA COM CAJU JUNTAMENTE COM O SANFONEIRO O ZABUMBEIRO E OUTROS RAPAZES DA CASA.
ÀS TRÊS HORAS DA TARDE O BAILE COMEÇOU.

- TOCA O FOLE MENINO! – GRITOU O SANFONEIRO.


O RECO, RECO DA SANFONA NOS CONVIDAVA PARA O ARRASTA PÉ. O RESTANTE DOS CANVIDADOS COMEÇAVAM A CHEGAR, NINGUÉM FICAVA PARADO, O FORRÓ COMIA NO MEIO DO CENTRO, O POIRÃO LEVANTAVA,  O SANFONEIRO ARROCHAVA O NÓ.   ÊITA FESTANÇA BOA!
 
DERREPENTE ELE SURGIU: LINDO! MAGESTOSO! ESTAVA MONTADO NUM ALAZÃO. ELE ERA O CABOCLO MAIS LINDO QUE EU JÁ TINHA VISTO NA MINHA VIDA, PARACIA UM CAWBOY A MODA ANTIGA. OLHOS VERDES, PELE MORENA QUEIMADA DO SOL, ALTO, CORPO ATLÉTICO. AQUILO ERA UM PEDAÇO DE MAU CAMINHO! ERA UM DEUS GREGO DO AGRESTE, UM  TIAGO LACERDA DA CAATINGA!  QUE DESMANTELO DE HOMEM MEU DEUS!  A MULHERADA  DESMANTELOU-SE QUANDO VIU  AQUELE MONUMENTO. 

UM FILME PASSOU NA MINHA CABEÇA: ME VI NUM ALTAR VESTIDA DE AZUL,  CHAPEL ENFEITADO DE MARGARIDAS, UM BUQÊ DE ROSAS AMARELAS NA MÃO,  E ELE, O MEU MORENO, ME ESPERANDO DE TERNO BRANCO  E CRAVO NA LAPELA. ESTREMECI SÓ DE PENSAR NA LUA DE MEL.

NO QUARTO COMEÇOU A DISPUTA DE QUEM  IRIA TRAÇAR O MORENO PRIMEIRO, TODAS QUERIAM TIRAR UMA CASQUINHA DELE, MAS  EU QUERIA ELE PARA MARIDO E PAI DOS MEUS FILHOS. 

VESTI UM VESTIDO NA COR  BEJE, COLADO NO CORPO, ESTAVA NO AUGE DA DA MINHA FORMOSURA.  DEIXEI OS CABRAS BOQUIABERTOS.  AS MOÇAS DA ROÇAS CATUCAVAM UMA AS OUTRAS, PARA ELAS AQUELE MODO DE VESTIR ERA INDECENTE.
MAS EU ME VESTI  PARA O MEU MORENO.

ELE JÁ HAVIA DANÇADO COM TODAS AS MENINAS  MENOS COMIGO.
AÍ FOI O INÍCIO DO MEU MARTÍRIO, QUANDO ELE VEIO ME TIRAR PARA DANÇAR, PARA O MEU DESEPERO COMEÇOU O TROCA,  TROCA:
UM MOÇO ESTÁ DANÇANDO COM UMA MOÇA, ENTÃO UM OUTRO PÕE O CHAPEU NA CABEÇA DELA, ELA LARGA O QUE ESTAVA DANÇADO E VAI DANÇAR COM O MOÇO QUE COLOCOU O CHAPÉU NA SUA CABEÇA. TINHAMOS QUE DANÇAR COM TODOS OS CABRAS  DA FESTA, DESDE JOVENS E VELHOS, CHEIROSOS E FEDIDOS. MAS TIVE QUE ME SUBMETER, QUERIA DANÇAR COM O MEU MORENO A TODO CUSTO.
ENTÃO ELE COLOCOU O CHAPÉU NA MINHA CABEÇA. EU LEVITEI EM SEUS BRAÇOS, MAS FOI UMA QUESTÃO DE SEGUNDOS, POIS QUANDO ELE ABRIU A BOCA  DANOU-SE TUDO:

- VAMOS PRA DETRÁS DO CURRÁ,  LÁ TEM UMA MOITA

- FAZER O QUE? FINGI DE INOCENTE

- FAZER OS QUE OS BODES FAZ COM AS CABRAS, OCHENTE!

- FAZER CABRITINHOS?

- É NÉ? , VAMBORA!

- E É ASSIM SEM ROMANCE, SEM PEDIDO DE CASAMENTO?

- O QUE É ESSE TÁ DE ROMANCE MULÉ?

- PALAVRAS BONITAS, ME LEVAR PRA VER  LUA, BEIJOS, FUNGADO NO CANGOTE, COZINHAMENTO DE JUIZO, FAZER A MINHA CABEÇA, ENTENDEU?

- OXE, CARECE DISSO NÃO, OS BICHOS  NUM FALA NADA E FAZ TUDO!

- QUE ABSURDO! RESPEITE-ME CABRA! TÁ PENSANDO QUE EU SOU BICHO?

FIQUEI BRABA FEITO UM SIRI DENTRO DE UMA LATA. QUE DESILUSÃO! COMO AS APARÊNCIAS ENGANAM!  LÁ SE FORAM AS MINHAS ESPERANÇAS, QUE FRUSTRAÇÃO!  A FESTA PARA MIM ACABOU. BAIXEI O FACHO,  FIQUEI NUM CANTO AMUADA.  MAS POUCO TEMPO DEPOIS ELE VEIO COM O BUQUE DE FLOR DE LARANJERA QUE HAVIA PEGO  DA NOIVA E ME ENTREGOU.

- ME ADESCULPE SINHA MOÇA, É QUE SOU DA ROÇA, NUM SOU ACOSTUMUDADO COM UMA MULÉ ASSIM CUMA A SINHORA, É QUE QUANDO A SINHORA ME ACOCHOU, DEU VONTADE DE FAZER O QUE OS BODES FAZ COM AS CABRA.

- FAZER CABRITINHOS?

- É SIM SINHORA

SORRI DA INOCÊNCIA DELE, OLHEI PARA AQUELE MONUMENTO, E VI UMA CRIANÇA  NA MINHA FRENTE, DEU VONTADE DE BOTAR NO COLO E CANTAR UMA CANTIGA DE NINAR. BEIJEI-LHE O ROSTO E CORRI PARA O BAILE, NA ESPERANÇA DE QUE SANTO ANTONIO AINDA PUDESSE ME ARRANJAR UM BOM MARIDO.  ATÉ HOJE ESPERO.

jambo
Enviado por jambo em 27/10/2007
Reeditado em 27/10/2009
Código do texto: T712075
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jambo
Campina Grande - Paraíba - Brasil
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