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GERÚNDIO ABOLIDO POR LEI, LIMBO POR DECRETO E CHIFRE POR PROCURAÇÃO.


Eu pensava que já tinha visto de tudo neste mundo, mero engano. Esses dias descobri um fato inusitado, original. Se não fosse trágico, seria pitoresco, pela astúcia. Mas vamos à história.
Sebastião da Silva Júnior, um sujeito recatado, que se não fosse sua arrogância e mania de querer saber mais do que os outros; metido a entendedor de física nuclear à capação de bode, até poderia ser considerada uma boa pessoa. Ledo engana; pois enganou a todos.
O pai de Sebastião Júnior, não precisa nem falar, chama-se Sebastião da Silva, ficou viúvo a pouco mais de um há. Sozinho, pois cada um dos filhos tem sua própria casa, Sebastião Júnior prestava-lhe a maior assistência no logo após a morte da mãe. Diariamente ia visitar o velho pai: de manhã e de noite depois do trabalho, quando na volta passava pela casa do pai, fazia algum trabalho doméstico e somente depois ia para sua casa. Todos elogiavam sua atitude, de filho prestativo e dedicado ao pai solitário.
Sebastião Júnior, entretanto, tinha, não tem um grande defeito, gosta de ser corno. No primeiro casamento a mulher expulsou-o de casa. Depois se descobriu que ela tinha uma amante com quem foi embora para a Paraíba. Se refazer do chifre, ou melhor da expulsão de casa, pois o chifre aceitaria pacificamente, foi um sério problema que levou anos para superar. Vivia chorando pelos cantos. De vez em quando sumia do trabalho por algumas horas e quando voltar estava com os olhos vermelhos de tanto chorar.
A duras pernas refez-se. Aí passou a querer ser o que não era: um garanhão. Saiu comendo quem aparecesse pela frente. Arranjou dois filhos: registrados em seu nome, mas que na verdade, sabe-se não serem dele. Passou a ser amante de uma mulher casada, e quando achava que mandava no pedaço, levou  outro baita chifre, ou melhor, ela chifrava o marido e chifrava o amante, com outro amante.
Outra novela surgiu daí, chegando ao ponto dele não agüentar e sair, num carnaval, doido pelas praias do estado, à procura da amante que tinha se mandado com o outro amante. Mais sofrimento para o safado do corno, que em muito dos seus porres queria se matar. Só  faz de conta, pois  coragem para uma extração chifral tão abrupta não tinha.
Algum tempo depois, também já refeito do insucesso da sua tentativa de ser o gostoso com mulher, desiludido de ser corno seqüencial, juntou-se com outra mulher que já tinha um filho e lhe deu mais dois; que também se desconfia não sejam dele. Uma filha do sujeito, Sebastião Júnior, como a mãe tinha ido embora, foi morar com o suposto avô. Todos se afeiçoaram à menina, que passou a ser companhia inseparável do viúvo.
Como estava ficando cansativo para Sebastião Júnior ter que ir de manhã e de tarde ver o pai, este o convidou para morar com ele.  Como Sebastião Júnior, a mulher e os filhos moravam com a sogra, resolveu aceitar o convite. Para eles tanto  fazia está num lugar com noutro, era mesmo de favor.
Com o passar do tempo, seu Sebastião já bastante velho deu o cartão bancário para Sebastião Júnior receber seus vencimentos, fazer pagamentos e as compras da casa. E a coisa foi caminhando normalmente durante certo tempo. O restante dos filhos eram quase todos gratos ao irmã, que abnegado cuidava do pai.
Maquiavélico, entretanto, Sebastião Júnior, que nunca quis nada com a vida, pouco estudou embora não sendo Sebastião pai rico, mas deu ao filho condições de estudar, até mesmo alguns colégios deram-lhe bolsa para jogar no time da escola, passou a estudar uma maneira de ficar com o ordenado do velho quando ele morresse, visto tratar-se de funcionário público federal. Tentou uma maneira da sua filha que já morava com o velho será adotada por este. Não deu certo. A justiça não aceitou o golpe.
Ao sofrer este pequeno revés, ficou maquinando outro meio.
Como administrador do dinheiro do velho, foi usando-o a seu bel-prazer. Fez contas e mais contas. Empréstimos em cima de outro. Não se sabe para que, pois não demonstrava gastar o que não podia. Vivia em casa cuidando das filhas e muitas vezes, no fim de semana, a mulher ia para a farra, foder, beber e ele ficava feito égua dentro de casa, arrumando uma coisa e outra, passeando com as filhas, banhando-as, fazendo comida, essas coisas doméstica, quase sempre de responsabilidade da mulher.
Com dera zebra a adoção da filha, o sujeito não desistiu do ordenado do pai. Perdeu o emprego e aí resolveu matar dois coelhos com uma cajadada só. Pediu ao pai uma procuração, sob alegação de resolver seus problemas bancário que conseguiu.  Ampla, geral e irrestrita. Com poderes totais. Até mesmo para casar o velho.
Corno que era, e com os poderes constantes da procuração achou uma maneira de extirpar o chifre. Como não era casado com a mulher com quem vivia, resolveu casa-la com o próprio pai. Dito e feito.
Sebastião Júnior, demonstrando todo seu espírito maquiavélico, arranjou um atestado médico que dizia estar Sebastião pai impossibilitado de se locomover, não podendo, assim, comparecer ao cartório.
Depois do caso analisado pelo juiz, o pai foi casado com a mulher dele, deixando de ser sogro para ser marido, assumindo a titularidade do chifre, pois para todos os efeitos legais e morais o casado com a puta era o pai e não o filho.  E se alguém tinha chifre, só podia ser o marido e não que não tinha nada com ela e estava comendo-a, mesmo que com agregados.
Portanto, de corno que era passou a cornear o pai, que inocente era o corno oficial, sem nem saber que era casado. Agora o engodo está feito. Procura-se uma maneira de extirpar o chifre do velho - pois o do filho já foi arrancado, que em toda sua vida nunca teve chifre, para devolve-lo ao seu próprio dono.
A moda de extinguir as coisas, por decretos, leis, está pegando. Quem pode faz por leis: o gerúndio foi abolido por lei; e o limbo por decreto papal. Quem não pode, inova. Faz por procuração. Maneira encontrada por Sebastião Júnior para justificar que não era corno e ainda se apossar dos bens de um corno.

HENRIQUE CÉSAR PINHEIRO
OUTUBRO/2007
Henrique César
Enviado por Henrique César em 30/10/2007
Código do texto: T716018

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Sobre o autor
Henrique César
Fortaleza - Ceará - Brasil, 65 anos
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Henrique César