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Aprender a sonhar

O tempo ensina amigo, e isso não é uma figura de linguagem,
Veja só o meu caso, tantos anos foram necessários para perceber
Que sempre estive preso, e que envelhecer, é aprender a sonhar...
O ímpeto da juventude engana, e nos cega, e a vida passa depressa,
Por que somos tão rasos ali, as águas correm velozes,
Muitas mentiras se entram em nossa mente,
Achamos que podemos escolher
E até chegamos à trágica conclusão de pensar que podemos
Desprezar o quer que seja...

Mas a cada volta que o mundo dar sobre si mesmo,
Cai sobre nós um cansaço, e um ser etéreo nos visita
Na hora silenciosa, e nos modifica um pouquinho,
Assim, divagar, e levantamos no outro dia sem
Perceber as mudanças que ocorreram sobre o nosso continente,
Mas principalmente no nosso interior...

Depois de esse ser etéreo, outro vem, como que um selador
Do grande labirinto que somos,
E vai levando, aos poucos, aquilo que de alguma forma nos fez
Mal... Uma dor terrível, ás visitas desse, vai se desfazendo...
Vai se desfazendo tudo que nos desagradou durante um ciclo,
Frustrações, e choros, e risos frenéticos, e toda grande emoção
Vai se desfazendo, enquanto outras pelas quais passamos,
Avivadas tomam o lugar daquela que há muito se passou.

E assim vamos vivendo, sob o tic-tac invisível do tempo
As coisas vão mudando, e são poucos os que o percebem
No ato. A maioria de nós, num espanto, se vê outra pessoa,
Quando é já distante aquelas primeiras alegrias, ímpetos,
E forças não existem mais, o que sobra é o silêncio do pensamento,
Única e verdadeira liberdade que a nós é facultada.

E eu falo isso com propriedade, minha cebola é grande,
A cultivei com cuidado durante todos os dias de minha vida,
E é por isso que posso imaginar melhor durante o tempo
Que resta o que quer que seja...
Sim, envelhecer é aprender a sonhar,
Mais ainda os sonhos que já se foram,
Pois o que ainda podem vim, são discretos e inseguros,
Não podemos mais nos firmar em quimeras
Como nos tempos de antanho,
Em que tudo era possível,
O amor era possível
Viajar era possível
Correr era possível
Tudo era possível
Mas agora,
Apenas o sonho é possível,
Agora é que percebemos que apenas o sonho
Sempre foi possível,
O resto, tudo o mais, foi ilusão...
Quando fico assim olhando vagamente,
Porque é a única forma de ver verdadeiramente as coisas,
Eu penso, não no que poderia ter sido,
Não que poderia ter aproveitado melhor a vida,
A vida não pode ser aproveitada melhor
A vida apenas pode ser vivida
Se é melhor pra uns
Referencialmente, é melhor para todos.
Eu penso, eu me lembro das coisas de outrora,
É uma forma de saber se se viveu,
Ter do que lembrar, ter em que pensar,
Pois nem todos tem isso,
O ser etéreo que vaga pelo labirinto
Às vezes leva tudo,
A pessoa então não tem do que lembrar,
E então suas faculdades mentais falham,
E ela não diz coisas com coisa...
Mas se você prestou atenção naquilo que estava
Vivendo, o limpador não levou isso,
Somente o que é esquecido ele leva completamente,
E há coisa que gente nunca esquece,
Os amigos que tivemos
Os amores que tivemos
As dores que sofremos
As angustias que nos tirou o ar
Que nos fez ter vontade de morrer,
Essas coisas fortes a gente nunca esquece,
E é nisso que penso,
Unindo tudo através do sonho,
Ninguém sonha melhor que um ancião,
Ele uni pontas que existiram
A pontas que jamais existirão,
Apresenta pessoas que jamais se encontraram
Nem jamais se encontrarão,
E assim,
Ao do nascer ao por do sol,
O velho vive a sua solidão,
Para uns isso é doentio, é corrosão,
Como já me disseram
Mas para mim,
Para quem realmente importa,
Viver assim,
É viver imerso na emoção...
Amando os amores que tive,
E a alguns fantasmas pedido perdão.

E assim os dias vão passando,
Mas não passam as coisas do meu coração...
Sebastião Alves da Silva
Enviado por Sebastião Alves da Silva em 02/11/2007
Código do texto: T719923
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Sebastião Alves da Silva
Imperatriz - Maranhão - Brasil
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Sebastião Alves da Silva