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VEIO JOVINO

Seu mundo no pé da serra, vêio do Nordeste para o Centro-oeste. se instalou e aquí ficou, beira do rio Capivarí. Dona Mitília apareceu e doôu quatro filhos seus, José, Pedro, Joaquim, Ana. Mas êle achou pouco e logo estavam com mais dois. João e Antonio. Nomes bíblicos, família feliz. Um ranchinho próximo a ponte, criando porcos e galinhas, algumas árvores frutíferas. Trabalhando na lavoura. Arroz, milho, mandioca, feijão, caçando tatús, capivaras e a pesca para o seu sustento, uma sanfona para alegrar e algum filho aprender tocar. Amigos sempre se reunia. Festejos, pescaria na "ceva", lambaris, piaus, trairas, bagres. Era só alegria lá no barranco do rio, canturias, jogo de truco regado com uma piguinha e cerveja gelada, peixe frito, famoso "tira-gosto". E quem queria tirar o gosto destas festanças?
Isto se chama felicidade, mas ao passar dos anos, os meninos cresceram, empregos, melhorar de vida, casar...
Um irmão de dona Mitília que morava com êles acabou se "deitando"
na estrada próxima a ponte, só a sua "essência" subiu para o "andar de cima". Talvêz por desgosto por ver a irmã e os sobrinhos se mudarem para Goiânia... Veio Jovino imbirrou e ficou, não queria, abandonar o seu pequeno mundo, sabia que não ia dar certo na Capital. Depois da mudança, pegou seu imbornal com o necessário para a sua sobrevivência, um canivete, um facão, uma lanterna, a munição para a sua espingarda, alguns anzois, encastores e chumbada, uma "binga" para acender seu palheiro e a fogueira nas noites de solidão. Trabalhava nas fazendas da redondesa, de vêz em quando ia até Indiara, uma cidadezinha próxima. Comprava uma garrafa de pinga, um pedaço de fumo e retornava. Amigos da cidade apareciam, que alegria, bebiam, comiam, pescavam, gargalhavam, retornavam. E de novo a sollidão. Veio Jovino já não estava mais moço, a saúde estáva abalada, sua força já não era a mesma. Os filhos preucupados com a situação resolveram levá-lo para a cidade e tratá-lo. Não foi fácil, mas conseguiram.
Alguns meses atrás, veio aquí em Goiânia para visitar a família e os amigos... Chegou  em minha casa bem no dia em que eu ia sair para uma pescaria, convidei e êle aceitou na hora, estava bem de saúde naquele dia e resolví levá-lo. Fomos para o rio dos Peixes, tem nome mais bonito para um rio? Chegamos, acampamos... Jovino parecia uma criança com um brinquedo novo, pescava, banhava nú, assava peixe, cantava, fazia versos para tomar um gole, andava de canoa... Foi a última pescaria que fiz com êle. Quando voltou para cidade, foi para internar, ficou em tratamento vários dias, estava triste, quase não falava, não sorria. Um dia de visita dos seus familiares fêz um pedido, parece que sabia que era o último. Queria comer um peixe assado, resolveram atendê-lo, voltaram com o peixe, quentinho, cheirando, pegou um pedaço com a mão e devagarinho levou na boca, se deliciou com aquêle sabor de lembranças, deu uma grande gargalhada e se foi...

                                                 Edson. 20 de fevereiro  de 2007.
                                                        18:35 horas.

Edson Pintor
Enviado por Edson Pintor em 02/11/2007
Código do texto: T720989

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Sobre o autor
Edson Pintor
Goiânia - Goiás - Brasil, 67 anos
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Edson Pintor