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O choro do morro

Escuta-se o choro da fome
Num barraco fechado
O grito solidário da mãe
(quase desesperado)

Pergunta se o pequeno nenê
Quer leite?
A criaturinha, negrinha, apenas chora,
A mãe joga suas grandes tetas em sua boca.

Mas seca, já não há mais leite no negro seio,
Seus outros, não sei quantos, irmãos
Já sugaram até secar o flácido peito,
E o pequeno chora, arregaça o seu pulmão
Como se fosse para espantar a fome.

Mas o grito, do negrinho, não é forte,
Tão forte para despertar os vizinhos
Que já estão acostumados com a má sorte
E a sinfonia, tristonha, de chorinhos (sempre de fome).

É assim no morro,
Onde quase sempre,
Um pequenino chora de fome
Outros já não choram, calam-se

Pois no morro, nos fechados barracos
Escondidos, já não habitam
Já não vivem mais, morrem no morro
Mas são enterrados no asfalto.

Mas no morro
O choro não se cala
E a cada dia
Ouve-se, estridente
Faminto
Em outro barraco
Mas ninguém ouve
O choro do morro.


E eu aqui embaixo
Morro, sem sequer
Conhecer
O choro do morro.

Morro eu,
Morre você
Morremos nós
Sem conhecer o triste
Samba do Morro.

O chorinho,
O choro,
O grito de fome,

A passista morte
Que não pára
De desfilar
Pelas vielas escuras
Do Morro.

E o barraco se cala
Fechado
Como um féretro
Enterrado
No morro, que agora,
Só por instante
Fica calado.

A morte
Mora
No
Morro.

E sua
Canção
É
O choro.

De L. Red Wend

 

Lord Red Wend
Enviado por Lord Red Wend em 06/11/2007
Código do texto: T725719

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Sobre o autor
Lord Red Wend
São Paulo - São Paulo - Brasil, 267 anos
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