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Raios o partam...

Anos trinta, Gontinhães, uma aldeia de pescadores no norte de Portugal

A gamela encostou suavemente à areia, no portinho. Os homens saltaram para terra descalços, calças arregaçadas, chapinhando no silêncio da noite. Sem precisar de voz de comando, todos se esforçaram por guindar o barco para local seguro, onde o mar não lhe tocasse.
Os rolos, em cima dos varais, deslizavam sob o fundo chato daquela embarcação de origem galega, mas bem adaptada às rudes condições do portinho de Gontinhães.
Os bancos, ainda há pouco ocupados pelos homens que remavam, estavam agora vazios. A vela estava arrumada, não havia vento, tinham ido e vindo a remos. As redes da lagosta tinham sido largadas perto, a sudoeste do Forte do Cão, já nos mares de Afife.
Cada um pegou nas suas coisas, nos seus baús e murmurando um “até amanhã”, rumou às suas casas, depois de calçar os socos em terra firme. Já passava da meia-noite, a luz eléctrica que alumiava as ruas, tinha sido apagada. Valia a lua, que ia alta, faltavam três dias para ficar cheia, sempre dava para ver o caminho.

O Manuel Verde, o Jeitoso, arrais da embarcação, enrolou o cigarro às escuras, sem hesitações, pela prática de muitas noites, acendeu-o no aconchego da samarra, tirou um longa fumaça e observou os seus camaradas que pesadamente se afastavam. Urinou à beira de uma pilha de caixas, que esperavam o verão e a sardinha, que tanta fartura trazia à terra.
Após uma última fumaça, atirou a beata para a areia, e inclinou-se para dentro do barco, junto ao testeiro da popa, para pegar no seu baú.
Era um velho e gasto baú de madeira, que usava há mais de vinte anos, cada dia que ia para o mar. Tinha sido a sua mãe, que Deus tenha, que o tinha encomendado a um marceneiro da freguesia quando, ainda solteiro, tinha começado a governar aquele barco.
No baú levava o comer, uma garrafa de vinho e uma garrafinha de aguardente, na qual raramente tocava. Umas das últimas vezes que tinha sido aberta, foi para socorrer o tio Corisco, quando uma maregada batera de través na gamela e o velho pescador ficara encharcado até aos ossos, pelas águas geladas, daquele mês de Novembro.
A aguardente tinha sido uma bênção dos céus e tinham devolvido as cores e o ânimo àquele homem, que vestira roupa seca, prontamente emprestada pelo arrais e pelos seus camaradas, o Damião e o Tio Mala.
Dentro do baú, repousavam a agulha de marear, a sonda, os papéis do barco e uma lista dos pontos de alguns pesqueiros mais complicados, cuidadosamente embrulhados num pedaço de lona, para defesa contra a salitre e a humidade. A um canto estava uma pequena imagem da Senhora de Fátima, aquela que tinha aparecido aos pastorinhos e que invocava sempre que saia para o mar.

Ergueu o baú, pousou-o sobre a cabeça, não pesava muito, de qualquer forma a casa não era longe. Ficava no fim da Avenida, que tinha sido construída há poucos anos e que lhe dava muito jeito.
Agora já não tinha de caminhar sobre as dunas de areia, nem sobre as lajes, que apareciam aqui e ali. Pouco depois, chegou à entrada do corredor, que dava acesso à casa térrea, que fora do seu pai.
Na casa ao lado vivia a irmã, a Piedade e a entrada era comum às duas casas. Por isso, ao longo do corredor, tinham amontoado lenha para os fogões, do lado norte do Manuel, do sul, era da Piedade, deixando uma estreita passagem ao meio. O Manuel Verde abriu a cancela, deu um passo para dentro, sentiu um tropel aproximando-se e algo o forçou entre pernas.
O pânico invadiu este curtido homem do mar, que deu um berro de terror. O baú voou sobre os feixes de lenha empilhada, caindo com fragor, uns metros adiante.
Completamente atordoado, com o coração ao pé da boca, ainda viu o vulto do grande cão que fugia, também ele espavorido, pela cancela aberta.
Da sua casa, surgiu a luz bruxuleante de um candeeiro a petróleo, que a Joaquina, sua mulher segurava, enquanto apertava o xaile com a outra mão.
- És tu, Manel? Que foi isso, homem de Deus?
- Ah...Ah...Foi...foi um cão, foi um cão que me passou pelo meio das pernas...
- Cruzes diabo, que fazia um cão aqui dentro?
- Sei lá, deve ter entrado para o terreno e como fechaste a cancela, ficou cá dentro preso. Quando me viu a entrar, o bicho aproveitou para fugir. Raios o partam, que me pregou um susto de morte. E o pior, é que o baú caiu e está tudo espalhado.
- Deixa lá homem, vai para dentro e come uma malga de caldo, que a panela está no fogão, enquanto eu apanho as tuas coisas. Vá, vai-te aquecer, que deves estar gelado.
Brito Ribeiro
Enviado por Brito Ribeiro em 07/11/2007
Código do texto: T727553
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Sobre o autor
Brito Ribeiro
Portugal, 60 anos
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Brito Ribeiro