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Seca malvada

       O Domingo amanhecera tíbio e nebuloso. Já de pé, as mulheres carregavam latões de águas  nas suas cabeças, que a cada dia estava mais escassa. E nada de chuva... à medida que o sol erguia-se o calor crestante  aumentava.
      Os sertanejos perdiam safras de arroz, feijão... e não sabiam mais o que fazer. Os gados, muitos já iam... Os  rios assoreados há tempos não botavam uma cheia. Que lamento!
Nas ilhargas dos guris, dava dor de vê-los: feridas  infestavam, e nas pernas mal se via um punhado de carne. As criancinhas miúdas chupavam as mamas das mãezinhas , deixando-as  rubras. Coitadas!
     O sol castigava os sertanejos. Muito mais a falta de chuvas. As cacimbas esgotaram-se , os açudes e riachos secara até a última gota. Aqui e acolá animais faleciam-se. E urubus fartavam-se de tanta carniça.
                                                                 

                                        ***

 
    No Século XX, sucedera uma grande seca, nas terras do cariri. Certo sertanejo vendo o tamanho da seca,  decidiu deambular de terra a fora, em busca de condição mais próspera.  Não havia mais o que fazer naquele sertão, dizia ter perdido tudo: pai, mãe, irmãos... e mais agora com esta seca, que até agora só trouxera prejuízo.
    Chegando em casa, viu logo os esfaimados das crianças,  pedindo um punhado de comida. que pena! O que havia de dizer aquelas pobres criaturinhas?  Vendo aquela sena sem ter algo para dizer, choramingou, lágrimas de desesperanças. Ia abrir a boca para falar, mas conteve-se. Aquele ar de desespero enchia a casa de melancolia, ferindo ainda mais as mazelas.
   Sr. João, saiu de casa em busca de um pouco de farinha e um taco de rapadura... Entrou numa bodega. Olhava para os lados com aqueles olhos miúdos e famintos. Que dava pena! Viu logo numa banda da parede um quadro: uma pintura de uma mesa rodeada de comidas, e um bule de xá. O que mais chamou a sua atenção foi às pessoas em volta da mesa: todas sorrindo, sem motivo de tristeza: e, imaginara estando junto com sua família, longe daquela miséria, igual às pessoas daquela pintura. Logo seus pensamentos foram interrompidos por uma voz.
- O que quer cabra?
   Sr. João emudeceu.
- O  senhor, quer algo, posso ajudá-lo?
  Tomou coragem e abrindo a boca falou:
- Sabe queria que senhor  me ajudasse, uma lágrima escorreu no seu rosto trigueiro, minha família passa fome e num tenho nada a dar, queria saber se o senhor poderia me ajudar dando um taco de rapadura, e um pouco de farinha; já é de grande ajuda..
      Aquelas palavras não surtiram efeito nenhum  sobre o bodegueiro. Chamou João de vagabundo, mandrião e mandou-lhe trabalhar.
      Espavorido Sr. João falou:
- Não há onde trabalhar não senhor, meus animais morreram tudo, minha safra se perdeu, minha família chora de fome e estão contando com tiquinho de comida que levar.
Aquelas palavras melancólicas foram em vão. Ingrato, sem sentimento,e amaldiçoando o bodegueiro saiu.
     Já fora da bodega avistou uma igreja. Aproximando, com suor estancado no rosto parou e olhando de soslaio entrou.
    A igreja estava vazia, mas aproveitou o instante para orar a virgem Maria, e ao nosso senhor Jesus cristo. E começou: – minha santinha e meu santinho, me ajudem, e minha família também. Não posso trabalhar. Meu gado e minhas cabrinhas morreram tudo nesta seca desgraçada. Meus porquinhos nem falo, não deram nem um caldinho. Ai Jesus-zinho, manda uma chuvinha, o povo necessita e eu muito mais. por causa desta seca perdi minha safra de arroz,feijão,milho... meus filhos esfomeados pedem o que comer, e eu sem ter nada pra dar, choro. Ainda a pouco um  velhaco me negou um tiquinho de rapadura e taco de farinha. Não há  mais pra onde ir, queria ir embora, Mas como? Não tenho nem o que comer! – com estas palavras despiu umas lágrimas no seu rosto trigueiro. Continuou a orar, mas logo fora interrompido com o som agudo do sino da Sé, que marcava uma hora da tarde. e nada de comida! Pensou.
     Saindo do templo, pode  perceber o calor extenso que fazia, o sol não tinha piedade, castigava o povo com seus raios fortes.
   Mas antes de chegar ao tabique, teve uma idéia alienada que tirara sua paciência. Era  suicídio. Mas logo fugira. E voltava a idéia, mas sua consciência o sufocava dizendo: João você tem dois filhos pra criar, tirar sua  vida não leva a nada. Tem coragem de deixar os bichinhos morrerem de fome e sem pai? Volte pra casa, que Deus dará um jeito. E estas palavras vieram na hora certa. E a idéia esvaiu-se. Voltou a estrada...
   Indo pela estrada avistara um vulto, que rapidamente aproximara de João. Este vulto trazia consigo uma cabrinha bem magrinha. João vendo o vulto cair com o peso da cabrinha, correu a ajudá-lo.
- obrigado filho, você é muito gentil.
- Nada senhor. Mas o senhor vem de onde com esta cabrinha? Perguntou ao moço que logo se apresentara com nome de Jobim.
- Bem, eu estava guiando, disse pausadamente, o meu rebanho de  cabritinhos, quando uma separou-se do grupo. Eu  desassossegado fui à procura dela. Foi difícil acha-la! Tive que Primeiro andar nas serras; que tristeza nem parece mais serra com tanta seca! Mas como dizia, estava na serra, de longe ouvia um berro que soava a cada instante. Apressei meus passos miúdos pra  ver se era realmente a cabrinha. Mas quando cheguei, estava morta: a bichinha caiu duma barreira de uns nove metros e num último suspiro esvaiu-se. Peguei-a pelas pernas e  arrastei-a  até um gramado. Como chorei vendo minha pobre cabritinha morta! Coloquei-a no ombro e vim trazendo-a.  minhas forças chegaram ao fim, e cair aqui. Graças a Deus que te vi!
- E o senhor pretende fazer o que com esta carne? Perguntou com ar de esperanças...
- Pretendo dar a alguém que a necessite. Você sabe de alguém?
- Claro, disse num ímpeto de felicidade, EU!
Aquilo deixara  Sr. Jobim, pasmado e mais ainda o ar de felicidade que aquele homem fez.
- Nestes dias, disse João, eu e meus filhinhos vamos passando uma fome danada. Primeiro meus rebanhos morreram sem ter o que por na boca. Minha safra de legume nem digo, foi-se tudo. Agora estou num aperto! Só Deus sabe! Agora mesmo pedi um punhado de farinha com rapadura, e um bruto me negou. Orei ao senhorzinho e a santinha, que me desse uma ajuda: aqui você perguntando que necessita; claro que eu necessito e muito! Ao termino destas palavras, duas lagrimas saíram daqueles olhos chupados de fome.
- Então homem o que espera, leve pra você e sua família. Ande. Que os bichinhos devem está com fome.
- Senhor Jobim?
- Fala homem?
- Queria que o senhor me acompanhasse, sabe meus filhinhos iam gostar de conhecer a alma santinha que dera... não conseguiu terminar: um choro piedoso exaltava seu espírito, não sabia como agradecer aquela alma piedosa, e justinha.
- Claro homem que te acompanho! Mas não chore!
Na estrada bateram uma prosa. Falaram da seca, imigração dos povos, perda de safras... longe avistaram o casebre. Desde então joão e sua família sendo ajudados pela esta alma caridosa, começaram a produzir com seus esforços. Ao cabo de três meses, o inverno reapareceu enchendo mais uma vez o coração do sertanejo.
                                         
ERMESSON RODRGUES
Enviado por ERMESSON RODRGUES em 08/11/2007
Código do texto: T728858
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Sobre o autor
ERMESSON RODRGUES
São Paulo - São Paulo - Brasil, 27 anos
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