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ATRÁS DAS GRADES...

Atrás das grades tudo se transforma
Pois tudo está-se novo – noutra norma
A vida vai-se – num instante passa...
Respeito é bom se não vira fumaça
E fica numa escura e fria cela
O quê reviravolta atrás das grades
Pois a viveência que não é tão bela
Ah foi-se... o que restou? – Restou saudades...

Ah seu tivesse ouvido os conselhos
Não me drogasse com entorpecentes
Meus sonhos todos correm como coelhos
E meus anseios todos como estão doentes
Minha família só trouxe desgosto
Em vez de lhes trazer felicidades –
A boça está amarga – um ruim gosto
Só trouxe-lhes tristezas atrás das grades...

Mas que maldita hora aquela hora
Em qu’eu estava num lugar errado
Chorou? Se lamentar? Que vale agora?
Tornei-me animal – um condenado
Quando eu sair daqui como vai ser?
Me chamarão de ex-presidiário
As firmas não vão mais me acolher
E ganhei um mísero salário.

Que vai dizer meu filho na escola
Não vou poder estar sempre presente
Levar ele no parque, jogar bola –
Também quem mandou ser inconseqüente? –,
Vou ser discreminado – não tem jeito
Agora atrás das grades da prisão
Eu vejo como cresce o preconceito
Fugir? – É viver de perseguição...

Que tédio enorme – que sedentarismo
O banho? – que gelado! –, e as pauladas
No crânio do detento – traumatismo
As noites são dolosas madrugadas
Meus familiares eu queria aqui
Os meus amigos como estão agora
Ai quanta angústia qu’eu jamais senti
Pois isso é o Inferno quer’embora...

..............................................................
..............................................................
..............................................................
...............................................................

Essa comida aqui é como chumbo
Mandei pra minha esposa aquela pipa1
Pra me trazer no esquema aquele jumbo2
Aquela mina qu’às vezes me bipa
É mano estou cansado de cliacas3
A zica4 é quando ‘cê cai de cavalo5
Aqueles que demonstram mentes fracas
Às vezes nos coloca no embalo...

E aquele estuprador da cela ao lado
Está com  cãimbra de fazer chupeta
Virou mãzinha já o tal tarado
De tanto liberar a tarraqueta6...
O outro de outra cela está co’a tia7
Metido a valentão que matou tantos
Achou interessante a sodomia
Agora está sozinho e aos prantos

A vida aqui é como loteria
Não sei se estarei vivo amanhã –
É como a lei da selva dia-a-dia –
O sim atrás das grades é cipam8
Aqui tem que lutar contra a Loucura
Lutar contra a Revolta e a Vingança
Que torna nossa mente, fria e escura
Eu tenho que lutar – ter esperança...

Não há pior perder a liberdade
Ficar cercado por tão grandes muros
E ser tratado com desigualdade
Ser vigiado por PMS duros
E o desepero quando têm chacinas
Assim também com rebeliões
As mentes doentias, assassinas
Às famílias dão alucinações...

Aqui atrás das grades se aprende
Alguns retornam por vacilação9
Cipam pela segunda vez entende
E guarda para sempre essa lição:
A vida na cadeia não é vida
Às vezes só assim pra dar valor
Sentindo aquela brasa na ferida –
Tem gente que s’aprende pela dor...

 

(1 carta; 2 coisas básicas; 3 encrenca; 4 azar
5 carona; 6 ânus; 7 Aids; 8 talvez 9 falta de
esperteza, de percepção.)



 ? -03/10/1999

Gonçalves Reis
Enviado por Gonçalves Reis em 13/11/2007
Código do texto: T736285

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