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Porra Nenhuma

Porra Nenhuma

Aconteceu em Lavras Novas , município de Ouro preto, um ex-quilombo( dizem) no carnaval de 1998. Este lugarejo fica localizado no alto de uma serra e é de difícil acesso, com uma estrada perigosa  e estreita, curvas traiçoeiras e que em determinados pontos se houver o encontro de dois carros o congestionamento é certo. Será necessário andar ás vezes ate kms para que um dê passagem ao outro. Mas passada a maratona  chegar ao lugar é como se voltasse no tempo. Uma cidadezinha de uma rua só  com casas geminadas , enfileiradas , no cimo de uma montanha maravilhosa e com um clima extraordinário.
Pois é, foi nesse palco que aconteceu comigo um fato muito engraçado. Todo carnaval nos últimos anos tenho passado lá , pois uma irmã minha tem casa nessa localidade onde ela passa os fins de semana, feriados e principalmente o carnaval. Até 1995 meu carnaval era só desacompanhado. Era eu e Deus e minha família em casa , mas a partir desse ano meu filho já que começava a se interessar por essas coisas começou a me acompanhar. Pois bem, cheguei sábado cedo a Lavras , descarreguei as malas , ajeitei meus badulaques e do meu filho e sai pelo lugar para apreciar a cidade. No fim da rua , da única, tinha algo novo, uma construção nova e vi que era um restaurante com um nome estranho: Cocopele . Nossa ! fiquei admirado  por que me pareceu um nome meio estranho, pois se invertermos as silabas deste nome ..dá um nome esquisito e mal cheiroso: pele de  cocô. Entrei , sentei e pedi uma cerveja e fiquei a olhar a paisagem que daquele local fica mais bonita ainda . vê-se a parte detrás do Pico do Itacolomi e do morro dos cachorros e as matas próximas à fazenda do manso. Ali tomando uma cervejinha parecia sair de mim todo o estresse da cidade grande. Ao ir ao banheiro reparei que havia um pequeno palco e um violão encostado. Ao sair pedi a dona do restaurante que me emprestasse o violão para que eu ficasse dali, a esta altura completamente sozinho, dedilhando a viola, apreciando a paisagem e sorvendo o liquido dos deuses.
Lá pela terceira ou quarta cerveja  apareceu o Maurinho , um geólogo amigo meu trazendo a tiracolo o filho com pandeiro e um violão. Neste ponto começamos a tocar mais organizadamente .Visto que o Maurinho é um violeiro de primeira linha com um enorme repertório , variando dos clássicos da MPB aos falcões da vida, passando pela jovem guarda, sertaneja  e etc ... um polivalente musical.  Nesta altura começaram a chegar as pessoas e aquele tal de toca aquela e mais essa. Daí a pouco chega o Níveo, meu cunhado, carregando um atabaque , que fez aumentar ainda mais o ritmo e foi ajuntando gente e cerveja comendo solta e o teor etílico lá nas alturas . Chegou num ponto que tinha gente saindo pelo ladrão, uns dançando, outros cantando , molhando a palavra como dizem.
Onze horas da noite, doze horas , já de boteco- é uma quantidade de horas de vôo respeitável- resolvi em comum acordo com a turma, que  neste ponto já grande , que estaríamos encerrando o nossa farra e fui até a dona do restaurante pedir a conta. Em lá chegando a dona perguntou-me: Qual é o nome do conjunto de vocês? E eu disse: que conjunto porra nenhuma. Ela deu-me a conta pagamos e fomos embora.
Ao acordarmos no domingo de carnaval , logo depois daquelas coisas todas que a gente faz para ver se minimiza a ressaca, chá de  boldo , de fruta, café reforçado, resolvi dar as caras na rua para ver o movimento. Ao começar a andar , fui  surpreendido por um moleque que me entregou um papel de propaganda anunciando:
Segunda-feira as 20 horas no cocopele, apresentação do conjunto de Belo Horizonte "Porra Nenhuma". Aquilo foi demais , de  repente eu já estava participando de um conjunto musical, coisa que em toda a minha vida não havia feito, e com aquele nome que dei num momento de etílica inspiração.
Na segunda feira , dia da apresentação, resolvi dar uma chegada a Ouro Preto, para ver  o movimento, para me dirigi  fui lá pelas duas da tarde. Chegando a terra fui almoçar no restaurante do Márcio Cocão amigo de infância e em Saramenha. Comecei a conversar com ele , quando chegou um velho amigo com qual estudará na escola técnica de Ouro preto , com toda a família, já no embalo. Foi sentando pedindo mais uma e mais outra e me obrigando a beber. Numa certa altura já havíamos muitas e   já estava bem calibrado, quando ele me disse: Vamos sair no balanço da cobra , o bloco da Cidão e eu lhe disse  que não iria porque eu não estava preparado para tal e ele retrucou: vamos até a pousada que lá nos vamos paramentá-lo devidamente sem problemas. Enquanto ele mais a mulher dele e outros amigos arrumavam a tal fantasia eu tomava mais umas no bar da pousada . E olha que não fui a Ouro Preto para beber. Fui só para passear.
Dentro em pouco estava decidido eu me fantasiaria de Peru. Eles tinham mandado um artista do palácio das artes de belo Horizonte fazer uma coisa estranha que no fundo parecia mesmo um peru. Botei aquela coisa e fomos em frente . em tempo a mulher desse meu amigo, estava fantasiada de camisinha. Bem, ao longo do percurso até o aquecimento do balanço da fomos tomando mais e mais  até que cheguei lá não sei como. Sai no bloco demos umas voltas pela rua São José , praça do cinema e sempre tomando, cantando.. e tudo que temos direito. Quando voltamos ao desaquecimento que é a hora que a gente toma umas para descansar encontrei com o Zeca , que muitos chamam de Lacerda , amigo velho, que viu que eu não estava bem e me conduziu até o carro para que eu descansasse um pouco. Que descansar que nada , liguei o carro e pé na estrada com destino a Lavras Novas, 17 km  de estrada de terra de Ouro Preto, eu acabará de lembrar que havia o compromisso da apresentação . Numa certa altura da estrada o carro derrapou e eu acordei. Opa eu to guiando tenho que tomar cuidado. Trocando em miúdos cheguei a lavras Novas e fui direto ao Cocopele. Ao chegar viram o mesmo estado e a apresentação já havia terminado. Minha irmã tomou-me as chaves do carro e disse-me: você só trocou as marchas, por que quem guiou foi Deus.
Bem fui conversar com a dona do restaurante a respeito do cachê e ela me deu uma pizza de broto de samambaia e eu na hora: mandei que ela enfiasse aquilo ...vocês sabem do resto. Nunca mais fomos lá , afinal de contas como diz o Adoniram - Nois num semos tatu.




Poeta de Gravata
Enviado por Poeta de Gravata em 14/11/2007
Código do texto: T736583
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Sobre o autor
Poeta de Gravata
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 69 anos
25 textos (1307 leituras)
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