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Crueldade humana


  Arlindo Fonseca sempre foi estranho. Na pequena escola no seu interior sempre queria se dar melhor que os coleguinhas, batendo nos menores. Mas tinha um sério problema: ele era burro. Burro mesmo, faltava-lhe inteligência e os meninos menores sempre o pegavam de surpresa. Era anti-social, não gostava muito de conversar e quando falava parecia que estava brigando o tempo todo. Era uma figura invocada.
  Florisvaldo Benéfico Fonseca morava em uma cidadezinha pequena e pacata. Era quase como uma vila, tinha a pracinha, a igrejinha, o vendedor de pipoca, mangueiras na pracinha e claro, um monte de idosos sentados no fim de tarde. A escolinha também era uma casinha pequena e com aparência antiga. Havia um posto médico também. A casa da prefeitura era grande e imponente. Um daqueles casarões. Mas o prefeito Ernesto morava em uma fazenda ali perto. Ia à cidade de mês em mês, e olhe lá. Todos se conheciam na vila e todos sabiam quem chegava e quem saia.
  Florisvaldo tomava uma cachaça no boteco da praça quando soube da notícia a respeito da sobrinha de Dona Rosária. Ela havia chegado da cidade grande para passar um tempo lá com a tia. Todos falavam da beleza incontestável da moça, mas Florisvaldo nunca a tinha visto. Ele era tido como o galo rei da vila, todas as moças solteiras eram apaixonadas por ele, e nenhuma nunca tinha feito ele se apaixonar.
Ele avistou a moça conversando com a tia na praça e foi na direção delas com o peito estufado. Tinha segurança total de si e do seu papo. Cumprimentou a velha com a maior da sua simpatia e o maior do seu carisma. E foi ai, nessa simpatia que ele já conquistou a moça.   Ela sorriu toda e já ficou encantada pelo tabaréu. Um mês depois começaram a namorar sério e três meses depois casaram. Seis meses depois tiveram um filho que já nasceu chorando baixo. O menino era muito feio e não havia como negar isso. Deram-lhe o nome de Arlindo, como uma esperança talvez. A mãe morreu no parto e o pai de desespero. Arlindo ficou apenas com a tia avó. E deu muito trabalho a ela.
  Já de pequeno quando tinha uns 4 ou 5 cinco anos, batia em todas as outras crianças na escola. E Dona Rosária ou Dona Rosa, como a diretora que era amiga dela a chamava, sempre tinha que ir conversar com as professoras. Uma vez Dona Rosa estava levando a pequena criatura para a escola e quando entraram havia uma mãe e uma criança pequena, devia ter uns 2 anos de idade. A criança olhou para Arlindo e Arlindo olhou para a criança. E foi ai que, imediatamente, a criancinha loira começou a gritar e a chorar e a esperniar loucamente. A mãe olhou para Dona Rosária com raiva, como se dissesse: “leve seu filho feio daqui!”, puxou a criança que chorava muito e foi embora.
  Arlindo sabia que era dele que a criança chorava. E isso doeu muito nele. Dona Rosária colocou-o no colo e saiu.
  Eram muitos os episódios por causa da feiúra de Arlindo, até mesmo naquela cidadezinha onde todos se conheciam e onde todos respeitavam Dona Rosária. Até mesmo lá havia preconceito. E quanto mais Arlindo crescia mais sentia a crueldade do mundo. Dona Rosária entristecia-se toda vez e sempre o defendia como uma Leoa.
  O pequeno Arlindo era agora uma criança de uns 8 ou 9 anos, magra de se ver os ossos, desengonçada, banguela e mais feia ainda. Mas agora ele batia forte nos coleguinhas e também apanhava, quando estava distraído, pois com 9 anos ainda não estava nem alfabetizado, seus colegas eram mais novos em sua maioria. Por isso que ele batia neles.
  Dona Rosa ficava preocupada a medida do tempo enquanto Arlindo ou Lindinho como os colegas chamavam ironicamente ia ficando mais violento e anti-social.
  Arlindo então fez 18 anos, virou homem, decidiu abandonar a escola na primeira série e disse que ficaria em casa para sempre. Não sairia para nada, não suportava as pessoas não queria ver ninguém nunca mais. Pedira e implorava para a velha. Ele a chamava de tia, mas não tinha muito amor a ela. Não tinha amor a ninguém, nem a si mesmo.
Dona Rosária estava triste e deprimida, não sabia o que fazer. O pobre menino ficava o dia todo no quarto escuro, abandonado, fumando cigarro de palha e só saia para ir ao banheiro. Pensava em todas as maneiras de tirá-lo de casa, mas não adiantava, ele não ia.
Já fazia quase um ano que Arlindo não saia de casa e isso muito preocupava D. Rosa. Ela também ia ficando fraca. Até que se lembrou que estava chegando perto da festa da boa vizinhança. Todos se juntavam na praça e comiam as comidas que todos traziam. As crianças brincavam muito e o pipoqueiro e o sorveteiro distribuíam pipoca e sorvete de graça. Arlindo adorava essa festa, pois gostava das comidas, algumas comidas só tinha comido nessa festa, pois D. Rosa não tinha dinheiro para comprá-las. E esse seria o argumento dela para tirá-lo de casa um pouco, tomar um ar. Depois de um dia inteiro de argumentação ele concordou em ir, mas com a condição de voltar em meia hora.
   Arlindo comeu e as pessoas nem olharam para ele e ele pela primeira vez em muito tempo até sentia-se feliz. E começaram a atravessar a praça para voltar quando um grupo de uns vinte moleques da escola o cercaram e começaram a xingá-lo e jogar argila nele. D. Rosa começou a gritar e as outras pessoas começaram a chegar cercando os moleques, mas eles corriam muito em volta de todos e jogavam argilas até nos adultos e eram ouvidos provocações do tipo “Vá embora ET”, “Você é feio assim mesmo ou chupou limão?”, “Lindinho, lindinho” e etc...
  Arlindo estava no meio da confusão imóvel. Só recebendo aquilo tudo, impotente. A praça sumia em meio à multidão que o cercava. As vozes começaram a entrar na sua cabeça e a girarem como ondas de um tufão. As bolas argila que o atingiam não mais doíam na pele e sim na alma. Aquilo começou a fazer a respiração de Arlindo ficar mais frenética. Estava tonto, sufocado, procurava ar, mas não encontrava. Estava agoniado. As cabeças das pessoas pareciam se misturar. Ouvia o barulho da sirene da velha viatura de policia da cidade. As pessoas pareciam estar em uma guerra. As crianças se machucavam e os adultos também, mas ainda sim se podiam ouvir as provocações.
  Dona Rosa tentava desesperadamente chegar nele, mas a multidão não deixava. O menino olhava para ela desesperada e via no fundo do seu olhar uma tristeza congelante e agonizante. Aquilo mexeu no mais profundo de Arlindo, mais profundo do que ele jamais imaginou que sua alma poderia chegar e explodiu em um só grito alto e desesperado que fez a multidão cessar imediatamente, mas o grito não cessava e enquanto toda a cidade silenciava agora o grito de Arlindo ecoava na mente de todos.
  E foi ali no meio da praça destruída que Arlindo teve uma descarga de adrenalina e caiu duro. D. Rosa o olhou e olhou para a praça destruída, depois olhou para a multidão olhando para ela. Olhou mais uma vez o corpo de Arlindo ali sozinho no meio da multidão. E caiu no chão silenciosamente. Morreu de culpa.
  A praça foi revitalizada e Arlindo era o símbolo da festa da boa vizinhança. Uma estátua sua foi construída na praça e preconceito era o tema de toda festa da boa vizinhança.
Malluco Beleza
Enviado por Malluco Beleza em 14/11/2007
Código do texto: T736872

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Sobre o autor
Malluco Beleza
Salvador - Bahia - Brasil, 30 anos
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