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CASA DE VILA.

 

Casa de Vila.
Na verdade, estava muito ansiosa. O livro que encomendei Violetas na Janela, um romance espírita que minha prima, Walkiria, muito me recomendou, chegou e eu não via a hora de começar minha leitura. Quase meia noite e mais uma encrenca cabeluda acontecendo na vila. Por conta disso, Marajá, o galo de Suzana, canta sempre atrasado. Nem o pobre consegue descansar em meio a tanta confusão. Casa de vila! Parede com parede! Ontem, Júlio e Gustavo, dois adolescentes que só sabem resolver problemas em meio a murros e pontapés roubaram a paz da vila. É a violência que assistimos se alastrar pelo mundo entrando porta adentro sem pedir licença e ainda faz de vítima nossos mais ricos princípios. Mal nos acomodávamos ao silencio, e já outro escândalo surgia. Jurema e Tadeu, o casal crônico do lado!  Tadeu é daqueles que bebe por conta dos outros e por qualquer motivo. Só regressa a madrugada. Vem torto, tateando muros, irritando cachorros, fedido, sem dinheiro e ainda como se não bastasse, ameaçando a esposa por não querer lhe abrir a porta e lhe receber. Começa a zona. Ele xinga, ela retruca. Ele a ameaça, ela diz que vai chamar a polícia... Sempre a mesma conversa e haja paciência. A cena já virou comédia, a comédia virou rotina e todos sabem que no fim, ela sempre cede e a paz sonhada acontece! Sampaio, meu marido, que já havia até desistido de acompanhar o campeonato de futebol pelo radio de pilha, encolheu-se do meu lado e daí, então, só fazia amaldiçoar a vida, os vizinhos e a fanfarra de cada dia!  Homem já nasce com o senso crítico aguçado e fica pior se impedido de ouvir seu futebol! Respirei fundo e ignorei-o. Pra aliviar a tensão que, também já me tomava peguei o livro novo na cabeceira e comecei a ler. Mas, o lamento queixoso do vizinho bêbado invadia minha parede, meu quarto, minha mente e me roubavam toda concentração. Então, recomeçava de novo e de novo até que, a voz de Tadeu foi ficando fraca e isso me preocupou. Jurema perguntou, com voz abafada, o que se passava. Ele respondeu que o estomago revirava e doía. No fim das contas,  seu mal estar invadiu as frestas e ecoou nos meus ouvidos, que deu até pra ouvir nitidamente as convulsões. Sampaio imediatamente estancou a respiração. O estômago fraco que tem começou a embrulhar, a boca a encher de água, que não teve jeito, correu para o banheiro. O péssimo odor do vomito de Tadeu invadia as frestas e contaminava todo o meu quarto, que largando o livro, gritei! _Por que não o perfume de violetas na janela, meu Deus? Desabafei jogando os lençóis pro lado pensando que aquela noite ainda prometia muito! Sem pressa e sem vontade, passei um chá de camomila e levei pra Sampaio. Deixei-o ali, sozinho, mirando o sanitário e parti arrastando as sandálias pelo corredor estreito findando somente, próximo ao meu oratório iluminado também contaminado pelo odor.
Com o olhar desolado e sem mais nenhuma esperança paz para  aquela noite, clamei baixinho: _Valei-me meu Santo Expedito, pois tenho dito, Casa de Vila, ninguém merece e até santo padece!

Marisa Rosa Cabral.


Marisa Rosa
Enviado por Marisa Rosa em 15/11/2007
Reeditado em 02/12/2013
Código do texto: T738056
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
Marisa Rosa
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 58 anos
175 textos (6213 leituras)
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Marisa Rosa