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Comadre titica

 



      Alô?  Quem fala? Oi mulherzinha, como vai? Eu? Daquele modelo, vivendo pela graça de Deus, só pela graça.  Pois é querida, queria mesmo falar, juro, queria tanto, mais tanto falar contigo, mas é tão difícil, né? Como é que você tá? Melhorou? Não, é que cê sabe, quando bate àquelas horas de angústia, depressão, o chão sumindo dos pés, os pés formigando, formigando, um tremelique nas pernas subindo para o útero assim e aquele fogo, um fogo e olho pro lado, olho por outro, só vejo escuridão, um pretume e... Pois é mulher. Olha, se estiver ocupada agora diga que ligo outra hora, não tenho pressa, isso é a única coisa que não posso mais ter, posso ligar outra hora, comigo você já conhece, não tenho cerimônia... Bem? Eu? Nem te conto. Hoje pela manhã, estar viva já foi uma surpresa, nunca pensei, nunca pensei na minha vida passar uma noite como essa, ave santa mãe do ser de mal olhado, pensava em amanhecer pronta, esticada, toda dura em cima da cama. Já acordei espirrando e logo pensei: O dia não vai ser bom. Como? O quê? Mulher eu acho que foi da poeira... Do colchão? Não. Meu colchão de molha que ganhei no dia de meu casamento com o finado Zé dos Pombos do meu querido padrinho Galego de Baé não faria uma coisa dessa comigo.  Todo dia parece um ritual: troco as cobertas, não uso cortina, não tenho tapete, não ligo ventilador, tomo banho, coloco uma máscara... Antes faço nebulização... Não, não canso todos os dias, mas já me preparo,sou uma mulher prevenida, sabe como é... A.S? Tomo logo dois... Com água? Não. Faço um suco de laranja e acerola, não coloco açúcar, uso adoçante por causa das taxas... Diabetes. Água? Natural, não bebo água gelada por causa das amídalas e da rouquidão. Fervo água, deixo na garrafa e a cada duas horas o relógio desperta, faço um chá de hortelã, camomila e... apracu?...Não, mulher, tais doida? Benegripe. Eu não posso, Apracu não... Não sei. É que toda vez que tomo sinto um aperto no coração, aquela coisa em mim, rasgando minhas carnes, descendo de goela abaixo, ume empachamento, uma azia, um queima tão desgraçado... O médico diz que são gases, mas eu acho que não, não pode ser. Eu sei que não é. Não é à toa que todo santo dia, meu café da manhã são quatro ameixa, menina, é um tiro e uma queda, meu organismo funciona que é uma beleza. São meus pulmões que não estão nada bem, aí tenho que dar uma massagem de vick no peito, o cheiro é forte, atinge minha renite, minha sinusite, vem a espirradeira, o ouvido começa a coçar, os olhos choram, a cabeça parece que vai explodir de tanta dor... Ataca-me os nervos, fico toda encricriada, tesa, paralisada... Pois é... Enxaqueca e labirintite. Não consigo mais andar, paralisam as mãos, a vista escurece... Parece um absurdo, mas é desse modelo. Vivo pela graça de Deus... O coração vai assim, depois da angioplastia e do ponto de safena vou ao cardiologista quase todos os dias para verificar a pressão. Ele diz que tenho que fazer caminhada, mas não posso... Esses dias, venho tendo constantemente dores nas pernas, já acho que é osteoporose e, alô,alô? Caiu a linha. (olha o celular) caiu não, acabaram os créditos. É nisso que dá acreditar em promoção,  logo agora, logo agora que ,  que ia começar a falar da minha unha encravada...
 


Vinicius Filme
Enviado por Vinicius Filme em 23/11/2007
Reeditado em 10/07/2009
Código do texto: T749235

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Sobre o autor
Vinicius Filme
Mossoró - Rio Grande do Norte - Brasil, 44 anos
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Vinicius Filme