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CAGANDO NAS CALÇAS ou Passageiro da Pesada.

--Õ, Catita! Hoje é dia de lavar carro, amigo! Não vê que ta uma crise de água danada?
Questiona um amigo, deste nosso personagem, que não sabe do acontecido, hoje pela manha...
--Olá, João! Sou obrigado a lavar, não tem quem agüenta o fedor deste carro.
O vizinho foi se aproximando para tirar aquela estória do fedor a limpo. Quando ia chegando por perto sentiu o buduim.
---Puta que pariu! Que nojeira! Parece que sujaram seu carro de bosta!
--Aqui tem bosta e mijo  que faz inveja a banheiro de rodoviária, da nossa região!Tá com algum tempo pra ouvir a causa desta fedentina?
--Tem alguma pinguinha por aí, pra ver se agüento ficar por perto?... Pelo jeito a coisa não é muito boa, e pela sua cara eu vou ficar sabendo agora do acontecido, agora...
--Senta aí nesta pedra, que enquanto eu lavo vou deixar você a par....Foi deste jeito que que aconteceu...
---Tava eu hoje pela manhã, lá no ponto de táxi, onde a gente fica sentado esperando os passageiros... Ah! Foi logo depois que vc pegou uma corrida pro mirorós... mais ou menos umas dez horas da manhã.
--Foi uma boa corrida aquela. Além de me pagar sem ringuingá, o camarada ainda me deu umas bananas lá da irrigação. Mas tem banana naquele Miroro!
--Deixa eu contá, senão não acabo, hoje. O causo é bem cumprido....bem como eu ia falando... tava uma paradeira danada. Não aparecia nenhum passageiro. Parecia que eu voltar pra Irecê, sem nada. Já tinha feito até as contas. Se chegar meio dia, vou ter que almoçar aqui e correr o risco de além de gastar o meu, ter de retornar sem passageiro. Quando de repente chega Joãozão, de Barra do Mendes, com um cara bem apessoado, parecendo um gerente de Banco, coisa assim.
---Você vai pra Irecê, agora? Perguntou o homem.
---Vou esperar mais um pouco pra ver se aparece outro passageiro. Se não aparecer eu vou só com o Senhor!
--Tudo bem. Eu vou ali naquele bar beber uma água e quando chegar a vez toque a buzina que eu venho prá viajarmos.
---Ok! Na hora eu dou um toque.
---Fiquei por ali, mais alguns momentos, e notando que já estava ficando tarde, e não aparecia mais ninguém, resolvi seguir viajem, matutando: este cara tem cara de rico, quem sabe se ele fica com pena de mim e me dá uma gorgeta.
---Mais, vc foi com apenas um passageiro! Esperava mais! Está viagem ia ser prejuízo na certa...
---Eu tinha um compromisso em Irecê e precisava tá lá de tarde, e quem sabe na volta eu não discolava. Como vc sabe detardinha tem muito passageiro lá. É só a gente sair antes do ônibus.... Tu deixa eu continuar o caso senão vai entrar noite adentro, fica escuro e eu não termino de lavar o carro. E por falar nisso, a pintura do carro não tem nenhuma sujeira, não! A porqueira tá  no banco do carro!
(Nota do autor: Vou interromper um pouco a narrativa deste causo para informar que neste momento;21:45H de 27.11.07, ta caindo uma chuvinha, e o som da água caindo das telhas tá uma sinfonia deliciosa) Pra quem não sabe: Chuvendo no nordeste é tempo bom, enquanto pro Brasil turista, ou do sul, sudeste: é tempo ruim.)

Encostando um pouco e já tapando o nariz, o colega de profissão, dá uma olhadinha e diz:
---Õxe, parece que dentro tá tudo fedendo. Eco, que porcaria danada!
---Não tá sujo tudo não. Só ta sujo o banco do motorista.
---O teu menino foi cagar, logo no teu banco?
--Se fosse o menino, eu matava ele. Mas eu não posso me matar!
--Então foi tu que cagou? Já sei, foi aquelas cachaças de ontem. Tava dirigindo, não deu tempo de para e ir no mato....
__ Parar a 150 por hora e com um revolve na cabeça...
---Valei-me meu Deus! Conta logo que a coisa tá ficando boa!
---O homem entrou no carro,  bem educado, colocou o cinto de segurança, a pasta dele no colo. E lá fomos nós. Ele ficou calado um bom tempo, cochilando. Ele acordou quando faltava uns 5 km para Ibititá, abriu a pasta devagarinho, e eu olhando já desconfiado. Neste momento não passava nem querosene no boca do cx, sê entende, né?
Eu achei primeiro que ele não abriu a pasta toda pra eu não vê o dinheiro que ele carregava. Mas ele tirou lá de dentro 2 comprimidos branquinhos... jogou na boca sem um pingo de água e engoliu, no seco. Imaginei que ele tava com alguma dor e tomou um remedinho pra sarar. Recostou no banco do carro, fechou os olhos e parecia que ia dormir, novamente. Ficou por um tempinho assim e de repente eu vi que tava saindo espuma da boca dele. Vixe Maria, o homem ta dando aquela doença que cai. A tal da Pilepsia...fiquei dirigindo e olhando pra ele. Quando chegar em Ibititá eu levo ele no posto de saúde, lá deve ter um médico. Não tinha nem acabado de pensar nisto quando o home abriu os braços com tanta força e bateu na boca do meu estômago, que quase morro de dor e por pouco o carro não sai da estrada. Daí ele regalou os zóios, virou pro meu lado, já com um revolvão, deste tamanho na mão e dissi:
---Nego discarado, senta o pé neste carro e não pára em nenhum lugar, eu sou um bandido, assaltante de banco, e tô retato proque não consegui fazer, o que vim fazer e vc vai me pagar, só  pare onde eu mandar. E quando chegar lá, vou lhe matar pra vc não dá com as línguas nos dentes. E corra nego, ruim!
Eu eu não fiz de rogado. Tome-lhe pé. Voei baixo. Em Ibititá, deram a mão pra eu parar. Era um passageiro e ele: não para não, nego, senão meto-lhe uma bala na cabeça. Nesta hora ele tava com trabuco no colo e segurando com a mão direita a esquerda segurava a maleta. Aí eu pensei, se já vou morrer, levo este desgraçado também. E tome-lhe pé. Passei dos 150. Ainda bem que este opala , não é novo, mas tava arrumadinho. E o cara não tava  nem aí pra velocidade. Bota tudo que este carro velho tem, nego safado...
E eu obedecia...buraco, quebramolas, pedra, tudo que tinha na estrada eu passei pro cima, não furou pneu, não esquentou, nada.... êta carrinho bom este meu opalinha.... Já perto de Irecê, ali pelo posto são Domingos, pareceu que o cara tava amolecendo prá dormir, eu tentei diminuir a velocidade pra poder saltar do carro e deixar ele se lascar sozinho. Melhor o carro do que eu....ele sentiu minha manobra olhou pra mim e disse: Nego, nego, tu ta querendo morrer agora, desgraçado...vai direto pela rodoviária e segue pra João Dourado. É naquela estrada, antes da cidade, que o meu carro tá parado.
 E eu—Valei-me minha Nossa Senhora, tá quase na hora de eu bater as botas, daqui até João Dourado não dá nem 25 km...diabo que nestas estradas não tem nenhum guarda rodoviário... ele só vem aqui prà prender os carros da gente que tão com documentos atrasados e no gás...agora que precisa nada.... e continuei em toda a velocidade. Olhei pro lado esquerdo e vi alguns colegas sentados perto da rodoviária tentando tirar ou receber os passageiros que vem ou vão pegar os ônibus....achei que era a última vez que ia ver aquele lugar...Irecê já pra trás, olhei pelo retrovisor e o cara já um pouco atento para a estrada. Ai, meu Deus, o carro dele já ta bem perto, vai chegar ja-já, a minha hora. Que vida sofrida eu tenho se  pelo menos a minha morte fosse mais amena, junto dos meus familiares, amigos.... mas assim, deste jeito? Pó Deus tenha dó de mim, dá uma mãozinha...
---Pára nego, olha o meu carro lá na frente, debaixo da árvore...
--Não foi nem bem meio minuto eu parei...ele saltou do carro eu aproveitei engatei a primeira e dei um rabo-de-arraia, nem olhei quem vinha e peguei estrada de volta pra Irecê, tudo isto bem agachadinho, com medo de bala. Nem olhei pelo retrovisor se ele tava com a arma apontada pra mim ou não. Quando dei fé tinha um caminhãozão, uma carreta enorme na minha e o motorista gritando:
---Nego, filho-de-uma-puta, olha o que faz chibungo.....
Com a minha manobra, quase que causo um acidente danado.
--Hoje é o dia de ser xingado....
E o cara continuou, me xingando, e fazendo sinal para eu parar. Como de estava de volta a Irecê e tinha um posto de gasolina perto eu fui agüentando os xingamentos até lá. Parei o carro, o caminhoneiro, também parou o seu e saiu de lá um baita de um homem que dava uns 3 de mim e veio pra mim pegar. Os bombeiros que já eram conhecidos meus vieram em meu socorro. E eu peraí môço, deixa eu lhe explicar. Os bombeiros encostaram em mim e disseram:-- Ei não bate nele não. Ele é nosso amigo.
Deixa ele falar...
E eu tremendo mais que vara-verde, gaguejando, sem nada sair da minha boca. Deram-me um gole dágua e a voz começou a sair e eu consegui explicar o acontecido. O motorista da carreta saiu esbravejando, mas o que fazer ele era grande, mas três, não é mole de enfrentar.
---E porque vc não aproveitou e cagou no privada do Posto?
---E eu sei que hora foi que eu comecei a cagar, mijar, vomitar! Eu nunca vi tanta, bosta e mijo na minha vida. Não sabia que a gente carregava tanta coisa dentro da barriga.....
Reinaldo Barreto
Enviado por Reinaldo Barreto em 27/11/2007
Reeditado em 21/12/2007
Código do texto: T755668

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Sobre o autor
Reinaldo Barreto
Barra do Mendes - Bahia - Brasil, 66 anos
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