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RICHARDS



Nem lembrava mais desde quando estava desempregado. Quase sem esperanças, Richards se levantou cedo e rumou ao centro da cidade. Mais exatamente para a rua Barão de Itapetininga e suas inúmeras agências de emprego.

Deixou para visitar por último a agência onde trabalhava uma amiga. Já era quase fim do expediente quando Richards encontrou Tati e lhe entregou o décimo currículo. Poderia ser ajudante geral, office-boy ou qualquer outra coisa que aparecesse, mas estava difícil (talvez por causa dos longos cabelos que ele relutava em não cortar, apesar dos apelos da mãe).

“Até que com uniforme essa mina parece gente”, pensava ele enquanto conversavam fiado na recepção entre um telefonema e outro. Quando decidiu ir embora pra casa, eis que Tati recebe uma ligação particular. Era Ju.

- Faz uma aí até dar a hora de eu ir embora...
Richards desconfiado disse que esperaria no buteco que costumavam freqüentar na República.
- A Ju tá vindo. Daqui a pouco a gente te encontra lá então. Aí a gente vai fazê um rolê, beleza?
- Tá bom, então tô lá...

E Richards ficou por quase uma hora tomando cerveja, sozinho. As duas logo chegaram, mas não queriam ficar naquele bar. As músicas que o tiozinho deixava rolando no rádio eram de matar. De lá foram pra outro buteco, agora na praça Roosevelt.

Ju, com sua camisetinha do Sonic Youth, não cansava de tirar onda com a cara da uniformizada Tati. “O pior é o nome da agência bordado na blusa.” E os três bebiam, falavam e riam sem parar. Richards já estava meio louco; tinha tomado umas três cervejas. Porém não imaginava o que ainda estaria por vir. O nível alcoólico aumentava. O volume da conversa também. Já era hora do happy hour e o murmurinho tomava conta do buteco todo, cada vez mais cheio de gente.

As duas juntas chamavam atenção dos caras que estavam por perto. Tinham um jeito de se portar que mexia com a libido dos homens. Por sua vez, eles viam nos cabelos longos de Richards motivos para não acreditarem que elas estivessem na dele. Eles realmente não conheciam e nem imaginavam o que se passava na cabeça daqueles três.

Lá pelas tantas, quando estavam quase prontos pra irem pra casa da Ju, que morava num ap na República, Richards foi ao banheiro devolver a cerveja que havia ingerido... Com o joelho enxuto, voltando para junto delas, percebeu uma cena de longe. Tati, sem notar, foi flagrada despejando um pozinho no copo dele.

- Vamos tomar a saidera, aí a gente vai pra casa da Ju, sugeriu Tati.
- É, toma logo que a noite é longa, reforçou Ju.

Richards maliciosamente estendeu a conversa por mais algum tempo. As duas então foram ao banheiro sem perceber que ele não havia tomado um gole sequer no copo com a cerveja adulterada por algum dos remédios que Tati carregava em sua bolsa. Esses nunca faltavam.

Quando elas voltaram não perceberam que os copos haviam sido trocados por Richards e tomaram a cerveja que elas mesmas tinham incrementado. Tomaram tudo... O mundo voltou a ser turvo. As coisas ficaram mais engraçadas. Seus limites quase desapareceram. E Richards regozijou-se...

Como sempre elas pagariam a conta. Inclusive a de Richards... Se não fosse um mero detalhe: onde estaria a bolsa da Tati?

- Caralho! Tava bem aqui.
- Richards, você pegou essa porra, né!?

Richards não tinha a menor idéia de onde estaria aquela maldita bolsa. E logo elas se deram conta disso. Porém, Richards se lembrava de um cara suspeito, que já não estava mais ali.

Descontrolado, sem noção e bem louco ele começou a berrar dentro do bar. Não queria que ninguém saísse de lá sem que ele mesmo revistasse todos. Não demorou muito, surgiu alguém que não lhe era estranho, mas que também não saberia dizer exatamente quem era, mas que chegou com ares de “deixa disso”.

- Ae alemão, o-que-que-tá-pegando? O que aconteceu?

Richards, ainda irado, percebeu que o cara queria ajudar e falou do roubo da bolsa e do cara suspeito que havia sumido. Descreveu-o com detalhes e tentou se controlar na cadeira.

Não demorou muito, o camarada trouxe o tal suspeito. Richards não vacilou ao aproximar-se e acertou um murro bem no meio da boca do cara que caiu de cara no chão. Ninguém se importou muito quando as duas meninas começaram a chutar a cara do cara caído, ainda meio tonto. Enquanto isso Richards tentava desvencilhar-se do camarada que tentava segura-lo. E conseguiu. E acertou mais dois diretos, direto no nariz do infeliz que havia acabado de se levantar. O melado escorreu...
O camarada e mais meia dúzia de camaradas finalmente conseguiram apartar a treta.

- Cadê minha bolsa, cusão!?

A bolsa não estava lá. Mas os cem reais que estavam nela foram recuperados do bolso da calça do cara que já não era mais apenas suspeito, mas que, por outro lado, também não poderia ser condenado tão rápido como foi, afinal os cem reais poderiam pertencer a ele também, quem sabe... Mas ninguém levantou essa hipótese. Pelo menos até o momento em que os homens da lei chegaram à cena do crime.

- Todo mundo pra delegacia!
Que era na Augusta, logo ali pra cima.

As duas entraram na sala do delegado. Richards não.
Richards ficou sentado no banco de espera, bem de frente pro cara suspeito com sangue seco escorrido no nariz, calado. E um policial a vigiá-los.

- Me dá um cigarro?

Pediu Richards, ainda bêbado, ao policial mal encarado que com o maço cheio no bolso disse que seus cigarros tinham acabado. Richards voltou a ficar calado.

Não demorou mais que meia hora pra ser recompensado. Suas amigas saíram rindo e derrubando alguns cigarros pela ante-sala do delegado. Richards não entendeu nada ao sair com as duas pela porta da delegacia, vendo a cara do delegado que parecia empolgado quando as liberou (e que nem deu falta do maço de cigarros que a dupla lhe havia roubado...).

O cara suspeito foi embora pouco tempo depois e, ainda calado, enfiou no bolso cem reais entregues a ele pelo delegado. E voltou ao seu posto de alcagüete na praça, onde permaneceu o resto da noite, sentado.
 




Leonardo André
Enviado por Leonardo André em 30/11/2005
Reeditado em 30/11/2005
Código do texto: T78978
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Sobre o autor
Leonardo André
São Paulo - São Paulo - Brasil
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