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O cachorro sumiu

Por Rodrigo Capella*

Toda vez que acordo, Brutus, um mini-yorkshire de três anos, vem ao meu quarto, puxa o cobertor e arranha o lençol, querendo deitar ao meu lado. Estico as mãos para trás, bocejo e o cão late, late forte. Sobe na minha cama, arranha-me com uma das patinhas e rosna, exigindo carinho. Eu o abraço, ele dá umas cambalhotas, abre um sorriso e abana o rabinho, como se fosse um helicóptero.

Mas, hoje foi um dia, digamos assim, atípico. As nuvens carregadas escureciam o céu, os ventos fortes derrubavam flores e árvores. O trânsito nas ruas estava mais caótico e as pessoas não faziam força para sair de casa. Os animais não apareciam nos jardins e Brutus não veio me dar “bom dia”. O que aconteceu com ele?

Levantei, jogando cobertor e lençol no chão, olhei embaixo da cama, atrás da cômoda, armário, porta. Não, eu não ia encontrar nada no quarto. Talvez, Brutus estivesse na sala, assistindo um pouco de televisão. Rapidamente, fui para lá, correndo, saltitando, tropeçando em alguns de seus brinquedos. Por sorte, não cai no chão.

Mas, não encontrei Brutus na sala. E a cozinha? O danado gostava de comer torresmo, tomar suco de beterraba, saborear pizza. Olhei dentro da geladeira, em cima do fogão, armários, mesa. “Meu cachorro sumiu, o que posso fazer?”, pensei, durante alguns minutos.

Abri a porta e corri em direção ás praças. Lá, havia muitos cães. Talvez, Brutus estivesse brincando com eles. Flores caiam, algumas gotas de chuva molhavam os cachorros, algumas pessoas cantavam. Ah! Que saudades de Brutus. Lembrei de quando fiz uma música pra ele. Era verão e o tempo estava quente. Tomei uma cerveja, o cão bebeu uns dois litros de água, bati o dedo na lata e ele latiu. Pronto! Rapidamente surgiu a música: “au au au, abana o rabinho, levanta o focinho, essa é a dança do cachorrinho”.

Continuei andando pelas praças, muito arborizadas e cheias de gente, apesar do frio. Cheguei mais perto dos cachorros, mas nenhum deles se parecia com o Brutus. Os cães usavam roupas de lã, sapatinhos, coleiras e até protetor de focinho. Parecia um desfile de moda canina. Olhei embaixo dos bancos, atrás das árvores, dentro dos carrinhos de cachorro quente. Mas, não encontrei Brutus. O danado tinha desaparecido. “Meu cachorro sumiu, o que posso fazer?”, pensei novamente, dessa vez em voz alta.

Minhas reflexões foram interrompidas por uma grande confusão. Algumas pessoas corriam em direção ao semáforo, outras mostravam-se tristes e havia até quem desse risadas. Assustei-me quando vi um mini-yorkshire estendido em frente ao carro. “Será que é meu amigo?”, pensei, deixando cair uma lágrima. Cheguei bem perto do cachorro, observei que ele usava uma roupa vermelha, igual a do Brutus. Aproximei ainda mais e vi uma senhora chorando:

- Rex, olha o que fizeram com Rex – disse ela, recolhendo os restos do cachorro.

Ufa! Respirei aliviado. Não era o Brutus. Senti pena da mulher, mas continuei andando. Precisava encontrar o meu grande companheiro. Olhei para frente e vi um pinheiro. Logo lembrei do nosso último Natal. No ano de 2004, Brutus e eu viajamos para Campos do Jordão e lá brincamos bastante.

Visitamos museus, parques, lanchonetes e tomamos chocolate quente. Corremos pelas ruas, shopping, lagos e pedimos o telefone de uma cachorrinha. Foi perfeito! Brutus adorou.

Andei mais um pouco e decidi voltar para casa. O dia estava escurecendo e eu precisava chamar a polícia. Meu grande amigo havia sumido. Entrei correndo, peguei o telefone e disquei para a delegacia. Rapidamente, anotaram a minha ocorrência e solicitaram uma foto do Brutus, enviada via e-mail.

Sentei no sofá e assisti um pouco de televisão. Estava passando Os 101 Dálmatas, filme preferido de meu amigo. Emocionei-me bastante e troquei de canal. Adormeci profundamente, sonhando com os bons momentos que tive ao lado de Brutus.

Acordei quando uma luz invadiu o quarto e quase me cegou.
Brutus estava puxando o cobertor e arranhando o lençol. Ele queria deitar ao meu lado. Estiquei as mãos para trás, bocejei e o cão latiu, latiu forte. Subiu na minha cama, arranhou-me com uma das patinhas e rosnou, exigindo carinho. Eu o abracei, ele deu umas cambalhotas, abriu um sorriso e abananou o rabinho, como se fosse um helicóptero.

Nessa hora, bateram na porta e despertei de verdade. Olhei para baixo e Brutus estava me esperando. Que história confusa. Uma hora tinha várias pessoas e inúmeros cães na rua, na outra não aparecia uma mosca. Nossa, ainda bem que foi tudo um sonho! Era realmente muito bom estar de volta à realidade e poder conversar, brincar e ler notícias para Brutus, o meu grande amigo.

*Rodrigo Capella é escritor, jornalista e poeta. Autor de diversos livros, entre eles “Como Mimar Seu Cão”, que traz cinqüenta dicas para você transformar seu amigo num grande companheiro. Home-page: www.rodrigocapella.com.br E-mail: contato@rodrigocapella.com.br
Rodrigo Capella
Enviado por Rodrigo Capella em 10/12/2005
Reeditado em 10/12/2005
Código do texto: T83657
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Sobre o autor
Rodrigo Capella
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Rodrigo Capella