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A Filha de um Anjo

Era a sua primeira viagem de avião. Sentia uma mistura de medo e curiosidade. Afinal, andar de avião não era uma coisa muito comum na vida de uma pessoa simples, como Maria Rita. Mas, a vida começara a sorrir para ela. Tinha sido aprovada em um concurso público federal, já tomara posse do cargo e de um salário, que pela primeira vez na vida, iria lhe permitir ter uma vida mais digna. Porque não dizer - uma vida nova.
Ao seu lado, sentou um homem lindo que tinha o semblante de um anjo. Difícil descrevê-lo, pois tudo nele parecia enigmático. Como se não fosse desse mundo. E talvez não fosse mesmo. Ele percebendo o nervosismo de Maria Rita ofereceu-se para segurar sua mão. No início ela relutou, afinal estava diante de um estranho... Mas, mais estranho ainda era o poder que aquele homem possuía: Quando segurou a sua mão, seu nervosismo desapareceu por completo, de repente se viu sorrindo e conversando alegremente. O nome dele era Miguel. Nome de anjo. Ela o seguiu completamente hipnotizada. Transformada... Como se fosse outra pessoa. Uma mulher mais leve, de sorriso fácil, alegre. Esqueceu até que deixou em sua cidade um marido que não amava e uma filha de 04 anos.
...
A noite de amor foi a mais intensa e a mais linda que já existiu no universo. Mas, na manhã seguinte ela acordava para a realidade: Ele retornaria ao seu país. Ela pro seu curso - motivo de sua viagem à Brasília - e posteriormente, para sua vidinha normal.

Os Meses se passaram. Na verdade, exatamente nove meses... Na manhã 09 de março de 1999, ela acordou (sim, estava acordada!) e viu sentado em sua cama, Miguel. Ele sorriu, e disse com uma voz suave:
- Minha filha está agonizando... Você precisa ir para o hospital agora, Maria Rita.
- Mas, como? Filha? Agonizando? – O parto estava marcado para o dia seguinte, tinha feito uma ultrasonografia na semana passada e estava tudo bem com a criança.
Um turbilhão de dúvidas invadiu sua mente. Porque os anjos fazem isso? Porque não ficam para explicar tudo direito? Jamais tinha cogitado a possibilidade de ter ficado grávida naquela oportunidade. Até porque, quando voltou de viagem, ficou menstruada e só depois é que engravidou. Não... não poderia ter ficado grávida de Miguel. Foi só um sonho.
Sonho ou não, de repente se viu dentro do seu carro dirigindo em direção ao hospital. Novamente hipnotizada. Convencida da necessidade urgente de trazer ao mundo aquela criança.

Difícil mesmo foi convencer a sua obstetra Suely, dessa urgência. Apesar de ser sua amiga de infância e talvez exatamente por isso, começou a lhe dar uma bronca.
- Você parece criança! Se não está sentindo nada, então pra que este circo todo?
- Não sei... A única coisa que sei é que preciso ter esse bebê agora!
- Mas as coisas não funcionam assim. Existe uma programação a ser seguida. O centro cirúrgico tem uma agenda...o anestesista idem... Eu, por exemplo, tenho uma cirúrgia pra fazer daqui a pouco. Nem que eu quisesse...
Nesse momento, o celular da médica tocou. Era a paciente que seria operada “daqui a pouco”, desmarcando a cirúrgia.
...
Exatamente às 15 horas daquele dia, nascia Giovana. Ela tinha três voltas do cordão umbilical enrolado no pescoço. Estava quase sufocando, tiveram que socorrê-la imediatamente...
 
Giovana era sem dúvida uma criança diferente. Não só porque não era loirinha como o marido e a filha mais velha de Maria Rita, muito menos porque ela era a cópia fiel de Miguel. (cabelos negros encaracolados, grandes olhos azuis) Mas, porque ela possuía o dom do amor. Impossível deixar de notá-la. De se encantar com ela. Era o bebê do Bairro. Todos sem exceção a conheciam. Vivia de mão-em-mão. Começou falar muito cedo - nem tinha nove meses ainda. Estava sempre apontando o dedinho pro horizonte e dizendo: - o titio...

Depois de um ano, estava sempre conversando com o titio imaginário, que agora tinha nome de tio anjo. E muitas vezes sabia coisas que ninguém a ensinara, ou até mesmo que ninguém sabia. Como naquele domingo em que o filhinho de sete anos do vizinho da Rua de baixo, caiu em um poço. O Bairro inteiro se uniu para procurá-lo e nada. Aí, a menina foi até a cozinha onde estava a mãe e disse:
- O titio disse que o Izaías está dentro do poço.
- Que poço, meu bem?
- Atrás da igreja...
E estava mesmo. Graças a Deus a criança foi socorrida a tempo.

O casamento de Maria Rita que já nasceu fadado ao fracasso - acabou de vez, no final daquele ano. Ela com duas filhas pra criar e nenhuma ajuda do ex-marido, passou a ter sérias dificuldades financeiras. Depois de trocar o emprego público por um outro na iniciativa privada - que pagava um salário bem melhor, se viu com as duas filhas debaixo do braço, mudando de cidade a cada ano. A empresa construía pontes e tinha obras no Brasil todo. Ela Precisava trabalhar.
- Deus me livre das minhas filhas passarem fome!
...
Em uma dessas viradas que a vida dá, aquilo que Maria Rita mais temia, aconteceu. Depois de mudar-se para Região Norte do País e depois para o Sul, se viu em uma cidade estranha e desempregada.

Era véspera de Natal. Não teriam ceia e nem presentes. Não tinham nada pra comer... uma situação que ela jamais imaginou passar.
Foi pro banheiro chorar escondido das crianças. De repente se ajoelhou e começou a pedir a Deus.
- Pai, faz alguma coisa! Se não quer fazer por mim, que sou falha, faça pelas minhas filhas!
Giovana bateu na porta do banheiro.
- Mamãe, mamãe...
- O que foi, filhinha?
- O titio tá chegando. Ele vem buscar a gente
- Ah não! Esta história de novo, minha filha?

Há anos, que a menina repetia a mesma história. Até guardava as melhores roupas para a tal viagem que faria com “Titio anjo”.
- Aí mamãe, todos seremos felizes. Você não vai mais precisar trabalhar...

E, às 15 horas do dia 24 de dezembro de 2005, a campainha tocou na casa de Maria Rita. Ela e as filhas  estavam na cozinha, pois ainda não tinham almoçado. Giovana deu um pulo e saiu correndo.
- É ele, é ele...
...
- TIO ANJO!!! ATÉ QUE ENFIM VOCÊ CHEGOU!!!
Maria Rita chegou na sala logo depois. Não acreditou quando viu Miguel, ali parado na porta, com uma mala na mão.
 
 

Kiki
Enviado por Kiki em 26/12/2005
Reeditado em 13/07/2006
Código do texto: T90779
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Sobre a autora
Kiki
Curitiba - Paraná - Brasil, 46 anos
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Kiki