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A viagem

CHE QUEVARA
e a
Transformação da sociedade




FLÁVIO MARTINS PINTO

Fundação BIBLIOTECA NACIONAL/MEC
Escritório de Direitos Autorais
Nº de registro: 332.524-Livro:590-Folha:184
Protocolo de registro-2004RS_332


A VIAGEM

Depois  de muito discutir em Porto Alegre com loucos, psiquiatras, remanescentes do FORÇA E LUZ, do RENNER e um do AIMORÉ, o Lutador Índio Capilé, e até viúvas pelistas,  Quevara fugiu para o interior do Rio Grande. Não agüentava mais o assédio sexual e intelectual por parte dos seus críticos, amigos, pacientes e inimigos. Já era um homem famoso e daí........
- No quiero saber de nada más. Me voy de vacaciones.....
Um mapa no bolso, uma carteirinha de estudante da UNE conseguida com um "compañeiro", só para conseguir pagar meia em tudo, depois de descobrir essa mamata, algumas indicações dos seus ex-pacientes no manicômio e se tocou.
- Voy atrás do meu guru. Voy sumir do mapa . E se bandeou para Bagé. Uma bolsa a tiracolo, cheia de manuscritos indecifráveis aos mortais, umas roupas campeiras e era tudo que tinha. Torcia para não encontrar pela frente o tal de Minuano. Mas se não tiver jeito... Quem já enfrentou los tiburones em uma balsa e o sistema cubano.........Aliás, muito louco era! Se teve coragem e loucura suficiente para “ salir de Cuba, daquele regime perfecto, só podia ser loco para querer salir.....”.
Mas não teve jeito. O frio foi demais. A geada caindo, fria como ela só, molhava, molhava e molhava a moleira do aventureiro a cada parada do ônibus. É claro que tinha de descer para dar uma caminhada , tirar água do joelho. O ônibus era daqueles pinga-pinga. Entrava e saía gente com sacos brancos cheios de não sabia o quê, não sabia que era mala de garupa campeira, mas estava louco de frio. Tremia como vara verde a cada parada, mais de medo do minuano. O pala aconchegante o salvava .
Dentro do ônibus , a toda hora sentia o olhar de detetive de um garotinho que estava na janela do outro lado.
 Ouviu bem quando o garoto falou:
 -  Mãe, esse cara aí parece ser do tempo do fortran, não é?
-  Mas pára, deixa o moço em paz, Licurgo, te aquieta, tu parece que nem bicho carpinteiro. Mas não desliga esse laptop que tenho de falar com o teu pai.
- Baaah, uma mulher com filho falando com um guri e uma máquina de escrever com televisão!?!?!? Mas , bah, o que é isso? disse um gaúcho com cara de quati todo pilchado que estava ao lado e que não soltava a mala de garupa.
              - Acalme-se. O guri está com  um lépitop.
- Lépi o quê????? Olha, biticome, na fronteira, lá na minha terra, esse tal de lépi não sei o quê  não é côsa  de macho. Esse guri pelo jeito ainda não barranqueou......
- Mas, que tens contra o guri? Deixa ele ver a novela em paz, Índio  Véio.
- Mas desde quando le dei intimidade, Tchê???? Esbravejou o gaúcho do seu lado.
- Acalme-se, acalme-se..
- Não tem calma nenhuma. E vê se te chega prá lá , que tresantonte quase me operei da penis e tô indo prá casa.
        - Ah, bom!  E é por isso que o senhor não desceu do ônibus? Nem prá tirar uma água dos joelhos?
- É, vivente, além disso não posso pegar friagem e o chão da casinha  é de beldoza e tô de alpargatas.
- Ah, bom..
- Mas que mal lê pergunte: o senhor é argentino?
- Não.
- Ah, bom.
- Mas porquê ?
- Porquê não gosto de correntino.
- Que mal lhe fizeram?
- Um deles me roubou uma gringa lá em Florentina. Tô meio descornado, viu?
- Florentina?
- É, vivente, é uma cidade na fronteira com a Argentina que só dá gringa prá exportação e queria cruzar com uma delas.
- Cruzar?
- É, me criei barranqueando na fronteira, chirú veio, e agora ia aumentar a prole.
- É!!
- Mas o correntino chegou antes e levou. Mas era uma saracura, diziam que dava para modelo...e dando de ombros...Bueno que se vá....que se vaya bien.
- É!!
- Mas, vamos tomar uma caña?
- Claro.
- Bueno, antonce tome um gole ...disse o gaúcho tirando uma garrafa da mala de garupa.
- De onde es essa?
- De Santo Antonio da Patrulha, Tchê.
- Mas como sabes meu nome?
- Que nome?
- Si, soy Che Quevara e o senhor?
- Bueno, sou Toríbio Malasuerte.. mostrando o cabo de uma adaga prateada na cintura.
- Si, Si, si, si...
- Mas que mal le pergunte: quando vamos chegar no Passo da Guarda?
- Passo da Guarda?
- Si, si, si, lá perto do Quarai.
- Mas não estamos indo para Bagé?
- Mas , vivente, já passamos de Bagé já faz umas quatro hora. Tu tá mais perdido que cuzco em tiroteio, home véio!!!
- E ahora?
- Bueno, vamos pro Quaraí, comer uns pastel de munhata, tomar chimarrão e comer uma boa carne de ovelha , um socotroco e depois tu vai prá Bagé, índio veio. Pelo menos de bucho cheio..
- Ah, bom, sendo assim.....mas de bucho o quê?
FLAVIO MPINTO
Enviado por FLAVIO MPINTO em 06/01/2006
Código do texto: T95443

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Sobre o autor
FLAVIO MPINTO
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 65 anos
530 textos (94166 leituras)
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FLAVIO MPINTO