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Meu cachorro Zé fuma charuto cubano


Por Rodrigo Capella*

Brutus, o meu yorkshire, abandonou-me definitivamente. Pediu férias de um mês e foi viajar para Cuba. Não sei se ele volta. Antes de partir, o quadrúpede fez uma exigência. Pediu que eu abrigasse o seu velho pai, o cachorro Zé, que atualmente desfruta de seus 16 anos bem latidos. Auauauau....

Não agüento mais! É Zé pra tudo que é lado. Zé na política, Zé na portaria, Zé na banca de jornal, Zé que late. Caramba, o nome do meu pai também é Zé. O velho apareceu com uma pedra no rim e morreu de tanto urinar sangue. Acho que foi pra pagar todos os pecados. Agora, um novo Zé está na minha casa. Pelo menos, esse não ronca.

Os primeiros dias de convivência foram até que foram harmoniosos. Cachorro Zé se queixou de algumas dores, mas logo se aquietou. Cismou que queria uma roupa nova e lá fomos nós até o shooping mais próximo de casa. Detalhe: gastei quase um tanque de gasolina e o orelhudo nem se ofereceu para dividir os custos.

Ao longo dos dias, descobri que meu novo companheiro tinha uns hábitos pra lá de estranhos. Ele nem parecia um cachorro! Zé fumava charuto da melhor qualidade, cubanos, é claro. Bebia vinho francês e ainda passava horas na frente do espelho, testando os lançamentos do ramo de cosmético francês. Deitava na varanda e ficava tomando sol, observando as nuvens, torcendo pela chuva.

O cão gostava de andar no parque, conhecer novas cachorrinhas e correr um pouco para chamar a atenção das orelhudas. Comeu cachorro-quente, bebeu refrigerante e se lambuzou com o sorvete de morango, coberto por cerejas. Demos mais algumas voltas em torno do lado, acompanhando o trajeto feito pelos patos. Zé se mostrou cansado e com sono. Não perdeu tempo, atirou-se no meu colo e dormiu feito uma criança, sem latir e sem fazer a oração. Tive que levá-lo pra casa, como se carregasse um saco de feijão.

O cachorro Zé amanheceu com algumas dores, pelo corpo inteiro. Achei que fossem resultado do grande desgaste físico de ontem. Mas, me enganei feio. Fomos ao hospital e o médico recomendou um remédio, caro pra caramba, acho que dava pra comprar toda a nova coleção do Playmobil. Zé estava com pedra no rim e não parava de urinar sangue.

Durante os dias seguintes, as dores eram cada vez mais fortes e Zé mal conseguia se mexer. Voltamos ao hospital e o médico sugeriu que Zé parasse de fumar charutos cubanos.  O cachorro não gostou da orientação e fomos pra casa. Lá, o orelhudo acendeu dois charutos e colocou ambos na boca. Ligou a televisão e se divertiu com as aventuras do Scooby Doo. Monstros, fantasmas, sustos e alegrias no final do desenho. Zé abriu um sorriso e aplaudiu.

Não se conteve, abrindo uma garrafa de vinho, acho que pra comemorar a boa performance do detetive Scooby. Encheu uma taça, sem que o líquido transbordasse. Soltava fumaça e tomava um gole. Fez isso durante a noite inteira, durante vários dias, durante anos, sem remorso, sem culpa, sem pensar no futuro e sem lembrar do passado. Fez isso até que fechasse os olhos definitivamente.

Brutus nunca mais voltou. Decidiu ficar em Cuba, namorando alguma cachorrinha de lá. De vez em quando, recebo umas cartinhas, com fotos e tudo mais. Nunca me dei ao trabalho de respondê-las. Brutus deve estar fumando charuto cubano, bebendo vinho francês, andando pelos parques, seguindo os patos, observando as nuvens, torcendo pela chuva.

(*) Rodrigo Capella é escritor, poeta e jornalista. Autor de diversos livros, entre eles “Enigmas e Passaportes”, “Transroca, o navio proibido” e “Como mimar seu cão”. E-mail: contato@rodrigocapella.com.br
Rodrigo Capella
Enviado por Rodrigo Capella em 07/01/2006
Código do texto: T95766
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Sobre o autor
Rodrigo Capella
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Rodrigo Capella