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O sexo do poetrix

Nosso amigo e poeta, Hércio Afonso, me convenceu de que o poetrix tem sexo. No inicio achei sua afirmação um abuso, mas depois de algumas considerações, constatei que esta é uma grande verdade. Sua teoria é tão concreta quanto a própria poesia. Para demonstrar sua tese, vou ater-me a alguns exemplos.
 
Nossas vidas
(Hércio Afonso)

Paralelas.
Você, numa direção;
Eu na outra.

Este poetrix está publicado na Antologia "Poetas virtuais" - Gráfica Editora Pallotti, novembro de 2002, Porto Alegre. O poema nos leva a várias interpretações, apesar de toda a concisão. A primeira que tive foi: vivemos na mesma casa, andamos lado a lado sem nos encontrarmos (como retas paralelas). O título deixa claro que o autor está falando de duas pessoas (homem – mulher).
 
Em uma segunda leitura, talvez mais detalhada e com olhos mais aguçados, podemos perceber que o autor está falando de uma relação amorosa não convencional. No primeiro verso escreveu apenas a palavra "paralelas" e, logo em seguida, pontuou, ou seja, nos disse, vamos mudar a direção da conversa. Já no segundo verso, "Você, numa direção", ele nos dá a primeira dica: somos paralelas, mas em direções opostas, com sexos também opostos. A intenção do chamamento do leitor para a lógica do ato está na virgula que ele usou depois da palavra "você". Veja que ele deu uma pausa e, como se não bastasse, grafou "você" com letra maiúscula. No terceiro verso, o fecho do terceto avisou: "Eu na outra". Aqui está a masculinidade do poema, o orgulho masculino, a afirmação do "Eu" todo poderoso.
 
Para uma terceira leitura, apresento um poema concreto de minha autoria que representa com fidelidade minhas leituras.
 
Paralelos
 
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      69
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Agora vou utilizar um belíssimo poema da poetisa Aila Magalhães, premiado como o melhor do mês de junho de 2003, para demonstrar o lado feminino do poetrix.
 
divi_dida
 
não queria
ser deus,
só duas...
 
Já, no título "divi..dida", podemos observar que se trata de um poetrix feminino. É interessante notar que a autora se reportou a um "deus" qualquer, provavelmente um homem belo e sensual, mesmo assim, ela prefere ser duas mulheres - deusas e não um homem, mesmo que belo e sensual.
 
Vejamos agora um poetrix de minha autoria.
 
Construção
 
o vaso é "Celite"
a moça quando senta
a(bunda) a celulite
 
A primeira característica de que este é um poetrix masculino está no título, pois geralmente quem trabalha na construção cível são homens, com tristes exceções. Outra dica está no próprio texto que é extremamente machista. É evidente que nenhuma mulher de bom senso escreveria um poetrix como este, até porque ele destaca uma das maiores preocupações do sexo feminino. Por outro lado, retrata a exuberância da bunda feminina quando diz: a(bunda), dando ênfase a abundância das nádegas.
 
Face a face

o que queres?
:ocupar-me
já há vazio suficiente
 
Veja que coisa interessante este poetrix. Sua beleza é algo muito forte. Foi eleito como o melhor poetrix do mês de maio de 2004. Quem o escreveu foi uma jovem de vinte e poucos anos, criatura de uma cabeça incrível, chamada Jucinéia Gonçalves. Só uma mulher apaixonada seria capaz de escrever tanta coisa com tão poucas palavras. Este poetrix é absolutamente feminino, nenhum homem seria capaz de usar expressões tão delicadas, tão doces e meigas. O poema já inicia com uma pergunta quase angelical. Ela já sabia a resposta, já conhecia o desfecho da situação e, ainda assim, perguntou: "o que queres?". O segundo verso é de uma feminilidade assustadora - "ocupar-me". Não acredito que, mesmo apaixonado, um homem escreva um verso como este, ainda que fosse para sua amada. Finalmente, o terceiro verso é uma resignação total, uma entrega subliminar "já há vazio suficiente". Ela aceita o fim da relação porque sabe que não existe mais nada e, que, ainda que voltassem, o vazio seria o mesmo.
 
Conclusão: os poetrix além do susto, da concisão, da beleza plástica, das metáforas, das rimas e outros recursos, podem também ser classificados por gêneros.

Viva a poesia!!!
Pedro Cardoso DF
Enviado por Pedro Cardoso DF em 12/01/2006
Reeditado em 07/11/2006
Código do texto: T97778
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Pedro Cardoso DF
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 68 anos
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Pedro Cardoso DF